Enquanto há tempo

Carlos Martins

2021-07-15

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As questões ambientais são o assunto do momento. A intervenção humana, ao longo de muitos anos, acentuou as desigualdades de desenvolvimento, potenciando as oportunidades de uns e os atrasos de outros. Esta eventual disparidade manteve-se encoberta, pelo desconhecimento das realidades, agravadas pelo oportunismo das ditas sociedades evoluídas, mentoras de um conceito de evolução, que seria uma forma de demonstrar que uns são mais do que outros.
Estes factos não cabem nos conceitos atuais de vivência social. E também porque, afinal, os recursos naturais já não são suficientes, para a escala de crescimento humano, por esse mundo fora. O que parece aceitável, hoje em dia, é que o discurso tem que ser outro e o nosso planeta tem que ser “mimado”, por toda a sua capacidade regeneradora, em vez de ser vítima de mais aproveitamentos, para além dos seus limites de produção.
Estamos em época de olhar para as nossas áreas geográficas, sem esquecer que outras paragens estarão dependentes dos processos instalados, mesmo que não tenhamos vontade de considerar os aspetos de vida dessas sociedades. O que nos une, quase por obrigação, é o entendimento de que já fomos além do razoável e que o espaço é de todos, mesmo que tal envolva uma diplomacia objetiva e não de dependência.  
Felizmente, empreendedores e pessoas inovadoras estão a mostrar capacidade de fazer entender, que é sempre possível abandonar velhos conceitos de vida, em prol de instalação de soluções, ainda meros pormenores, mas que mostram uma visão global para o mundo, resolvendo e alertando para problemas, que de forma simples e exemplar, servem de modo de atuação, minimizando as assimetrias.
As chamadas “Cidades Verdes” tornaram-se um exemplo de resiliência, por demonstração das suas valias sociais, minimizando ou resolvendo problemas do meio ambiente. O caminho está no início, mas os sinais são claros e não deixam dúvidas. Hoje, é preciso apostar em áreas com desenvolvimento sustentável, com equipamentos de tratamento das enormes quantidades de saneamento urbano e industrial, que são descarregadas no meio ambiente. A poluição representa uma ameaça séria para a saúde pública. E o sinal indica que é preciso avançar para um desenvolvimento sustentável, o que significa um uso racional dos recursos naturais, com uso de energias renováveis, eliminação de soluções poluentes ou que contaminem o ambiente. Para tal, é imperativo que o investimento público dê os primeiros passos, desafiando os privados para iniciativas sustentáveis e que distribuam os proveitos.
A região norte de Portugal tem alguns exemplos, de um caminho que promova o equilíbrio entre o modernismo e a paisagem natural, oferecendo o melhor dos dois mundos, com um planeamento ajustado à alta tecnologia, permitindo habitações e indústrias que não produzam resíduos, por integração de soluções em circuito fechado. E o processo pode começar por se criar um meio ambiente limpo, a favor de todos os cidadãos, com soluções ao nível da horticultura urbana e espaços de lazer, para induzir a ideia de segurança alimentar e conforto.
Quando se procuram espaços como o Santuário do Bom Jesus ou o Parque da Juventude, em Braga, ou o Parque da Cidade, localizado na cidade do Porto, aceitamos que o objetivo foi atingido, ao nível da qualidade de vida que merecemos e não uma busca de locais por causa de uma identidade ao nível de crenças ou de moda. O que constatamos é que as pessoas se tornam mais relaxadas, mais felizes e crentes em que as condições de vida estão alinhadas com espaços comuns, a favor de uma sociedade saudável, com usufruto das qualidades da natureza, sem penalizar a sustentação da mesma, permitindo uma herança geracional motivadora. 
Ao caminhar numa zona verde, já fixamos como sendo normal, a não existência de transportes poluentes, com áreas pedonais e eventual circulação de bicicletas, mas aceitando arquiteturas desenhadas para uma perfeita inclusão de edifícios, alinhados com a estrutura do espaço, construindo soluções em que a natureza terá o predomínio dos locais.
E esta é a perceção de que tudo estará a mudar. Uma decisão que terá a ver com cada realidade, mas que se projeta em aceitação das comunidades. Uma tarefa que demora alguns anos a implementar e até a dar resultados, mas capaz de agregar comunidades e dotar uma área de condições de procura, de acordo com as prioridades, que devem ser levadas em consideração.
Um espaço habitacional que reserve para si uma qualidade elevada, aproveitando os recursos naturais de cada região, pode ser um projeto inovador, mas que constituirá uma valia significativa para todos os que dela usufruem. Só assim, será viável uma consciencialização coletiva, dos benefícios ligados a uma comunidade que respeite a natureza e todos os seus habitantes, de forma recíproca. Ou seja, a evolução dos comportamentos pelo exemplo e não por legislação.