Editorial 21 de maio de 2020

Fátima Anjos

2020-05-21

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Esta quarta-feira foram conhecidos os novos números do desemprego, registando-se um aumento considerável. Desde o início da pandemia da Covid-19, face a fevereiro, o agravamento é de 24,3%, o que representa mais de 76.761 pessoas. Ainda segundo os dados divulgados, o concelho de Vizela registava no final do mês de abril 1.106 pessoas desempregadas, um acréscimo de 309 em relação ao último mês de fevereiro. Um número a ter em conta dada a dimensão do nosso concelho e a faixa da população em idade ativa. Nesta altura, teme-se que este número possa aumentar quando terminar o prazo contemplado de acesso ao regime de layoff simplicado, ou seja, o mês de junho. Com as empresas sem laborar ou a trabalhar a meio gás e com contribuições adiadas mas para pagar, embora fracionadas, no terceiro trimestre desde ano, muitas delas poderão não dispor de condições para continuarem no mercado. Mesmo o setor dos serviços, e que abrange muitas áreas de atividade que estão hoje limitadas no que toca à lotação dos seus espaços de atendimento – não são apenas os cafés e restaurantes como também virão a ser os ginásios, as salas de cinema e de espetáculos – dificilmente conseguirá preservar os mesmos postos de trabalho que garantiam até à época pré-Covid-19. Quando esta quarta-feira, Marcelo Rebelo de Sousa veio dizer que o layoff simplicado tem sido “uma almofada amortecedora” na subida ao desemprego, não podia estar mais certo. Aliás, o Presidente da República vai sugerir ao Governo a possibilidade do seu prolongamento, cabendo à equipa de António Costa avaliar a sustentabilidade financeira da extensão no tempo de uma medida que me parece quase inevitável. Por outro lado, todos sabemos, porque é público, que entre as medidas adotadas no atual contexto pelo Governo no apoio à economia, é a do layoff simplicado a que mais peso tem nos cofres do Estado. Se a este forem somados o apoio à manutenção de contrato de trabalho e a isenção do pagamento da Taxa Social Única, estaremos a falar de 563 milhões de euros por mês. E depois, eis a questão: Quem vai pagar a fatura? E vamos pagá-la com mais austeridade? Aqui terá de entrar a Europa, a tão proclamada solidariedade europeia e o chavão, que não passará mesmo disso, de que estamos todos no mesmo barco. Mas, não, não estamos, estamos sim no mesmo mar, de ondulação agitada, mas os barcos esses são bem diferentes. Certo é que temos de segurar na economia, no trabalho, só este tem poder de manter a dignidade nas nossas vidas por nos conferir o acesso aos bens que são básicos e que estão consagrados na nossa Constituição. Ao mesmo tempo, também devemos já estar atentos, porque à medida que o tempo passa, as dificuldades vão-se agravando e, apesar de existirem no concelho várias respostas sociais, sabemos dos riscos associados à pobreza envergonhada, famílias que podem estar hoje a viver situações que são únicas nos seus percursos de vida porque, simplesmente, ficaram impedidas de exercer a sua atividade profissional e que não perspetivam um regresso, enfrentando uma série de encargos assumidos num tempo em que não se podia adivinhar o despoletar de uma pandemia mundial. Mas ela chegou. Temos de enfrentá-la. Juntos