Dr. Abílio da Costa Torres

Júlio César Ferreira

2020-10-15

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É considerado por muitos historiadores que se debruçam sobre a história de Vizela, principalmente no que concerne ao terceiro quartel do século dezanove e primeiro quartel do século vinte, como uma das figuras mais importantes e sugestivas de sempre. É uma figura fascinante, que entusiasma o mais simples dos curiosos que se perdem na demanda da sua rica e entranhada vida em prol de Vizela, da sua indústria e do seu desenvolvimento. São muitos os historiadores que consideram Abílio Torres como uma das personagens mais ilustre de Vizela e uma daquelas que mais curiosidade desperta, na busca entusiasmante da Vizela daquela época. A sua biografia há muito que está feita por gente com garra e saber. Porém e não obstante correr o risco de repetir muito daquilo que já foi feito, dito e escrito por outros historiadores, principalmente “aqueles que por obras valerosas se vão de lei da morte libertando”, e que junto deles não passo de um modesto e simples aprendiz, atrevo – me a dizer que não ficará mal, neste cantinho que me propus ocupar a cada quinzena, trazer ao olimpo o nome do ilustre medico hidrologista, que foi o Dr. Abílio da Costa Torres. Filho de Joaquim da Costa Torres e de Cândida Augusta Ferreira de Miranda, nasceu em Barrosas, a 13 de Maio de 1846. Segundo alguns dos seus biógrafos, fez os estudos preparatórios e secundários em Braga, rumando findos estes, até Coimbra, onde se matriculou na Faculdade de Medicina. Terminado o seu curso, contrai matrimónio com D. Elisa Augusta da Costa Freitas e fixa residência em Vizela. Não será alheia á vocação hidrologista de Abílio Torres, a fama das águas de Vizela e empenha–se na sua defesa e divulgação, como se comprova por uma das suas obras: “ As águas sulfurosos de Vizela”, de 1881. Em 1876 dá–se inicio à construção do Estabelecimento Termal, obra de extrema necessidade e imperativo, para que a fama das águas milagrosas de Vizela já possuía, pudesse chegar a patamares de excelência. Com efeito, no local onde estavam, no Largo da Lameira, sem os verdadeiros cuidados de higiene e salubridade, nunca poderiam continuar a granjear e a consolidar essa reputação tão arduamente conquistada, facto que por imensas vezes e por muitos valorosos vizelenses foi alertado, como o Decano dos Professores do Liceu de Braga, talvez a maior figura de Vizela de todos os tempos e de todas as épocas, o ilustre Dr. José Joaquim da Silva Pereira Caldas, (como em anterior artigo ficou amplamente demonstrado) que muito lutou para dar às águas de Vizela a merecida importância, denunciando junto dos detentores das águas termais de Vizela - a Câmara de Guimarães - a situação paupérrima em que estas se encontravam, clamando desde muito cedo pela criação de uma companhia independente e autónoma. E assim, em 1873, para exploração das águas termais, constituiu-se uma Companhia, Sociedade Anónima de Responsabilidade Limitada, com a sede em Guimarães. Por portaria régia de 11 de Setembro de 1874, foi a Câmara de Guimarães autorizada a celebrar com a companhia o contrato de cedência das termas e em 16 de outubro, é eleita a primeira Direcção, composta por António José Ferreira, Joaquim Ribeiro da Costa e Alberto da Cunha Sampaio e logo em 18 de Novembro, foi assinado o contrato de cedência entre a companhia e a camara de Guimarães. Em 1881, sendo já director clinico (foi aliás o seu primeiro director) do estabelecimento termal, o Dr. Abílio da Costa Torres, publicou “um relatório admiravelmente elaborado, narrado, a pare de outras curiosas noticias o resultado obtido durante o primeiro ano de exploração”. Dizem que a pequenina torre que encima a parte frontal do estabelecimento Termal, tem algumas semelhanças, com a da Universidade de Coimbra, cidade por quem o nosso ilustre antepassado se apaixonou, por gosto e força de querer do Dr. Abílio Torres, já que era também dotado para arquitectura. Não nos admiremos, portanto, que a sua casa de habitação, com consultório particular, tenha características muito próprias, que muito me apraz referir: “Planta rectangular, chanfrada num dos vértices, virado à rua pública. Massa simples de dominante horizontal. Cobertura em telhado de cinco águas, integrando duas chaminés, claraboia envidraçada e duas mansardas com telhados de duas águas com lambrequim sob beiral. Fachadas de dois registos rebocadas e pintadas de ocre, percorridas por embasamento avançado, com respiradores na fachada principal e lateral, friso separador dos registos, pilastras separadoras dos vários panos, cunhais apilastrados e remates em cornija sobre friso de pedra pontuada por argolas de ferro, encimada por beiral saliente. Fachada principal voltada a sudoeste, de dois panos, sendo o primeiro, marcado ao centro por cantaria, com portal em arco abatido, com bandeira, ladeado por lápide com inscrição e encimado por janela de sacada, também em arco abatido, suportada por modilhões, e protegida por guarda de ferro. Lateralmente abrem-se par de janelas rematadas por cornija ondulada. Segundo pano, mais estreito, aberto em cada registo por par de janelas em arco pleno, sobre pilastras. No estreito pano que chanfra o ângulo do edifício, abre-se porta alta, em arco pleno, com bandeira, encimada por janela de sacada, em arco pleno sobre pilastras, com varanda de base semioval, sobre modilhões, com guarda de ferro. Fachada lateral, também virada a rua pública, de três panos, sendo o central maior, ritmado por janelas de verga recta rematadas por estreita cornija, e os laterais, rasgados por par de janelas em arco pleno, sobre pilastras. As janelas de ambas as fachadas, ao nível do primeiro registo possuem brincos. Fachada lateral rasgada no primeiro registo porta com bandeira e quatro janelas de verga recta, e no segundo piso, cinco janelas, sendo a de topo menor, com óculo circular também moldurado, entre as quatro maiores. Fachada posterior voltada ao quintal, rasgada, no primeiro registo por portal em arco pleno ladeado por duas janelas de verga recta e, no segundo piso, por seis vãos de arco pleno sobre pilastras, sendo um deles uma porta com acesso por escada de cimento, de dois lanços, com guarda plena. Interior rebocado e pintado de branco, com vestíbulo que comunica com sala, com portas com vidraças recortadas e tecto estucado e relevado, com decoração fitomórfica, e com corredor axial, que faz a distribuição pelas diversas dependências. Uma escadaria de três lanços, com balaústres de madeira, conduz ao segundo piso, onde se situam quartos e a cozinha, com acesso ao quintal por escada exterior de cimento. Uma outra escada, de madeira, comunica com as mansardas. A porta do pano que chanfra o edifício conduz a um outro vestíbulo, sobrelevado, que comunica com dependências da de outra ala da casa. A porta da fachada lateral conduz à cave, onde se situam as garrafeiras e outras arrecadações, através de escada de pedra” Até há pouco tempo, funcionaram ali, os serviços de Vizela, da Segurança Social.