Carta Aberta aos Militantes e Simpatizantes do PS

Eugénio Silva

2018-02-22

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Tendo por objetivo (único) suscitar uma séria reflexão política entre todos os militantes e simpatizantes, solicitei, em 5 de fevereiro, à atual presidente da Comissão Concelhia (C.C.) a divulgação interna (leitura e/ou cópias) desta missiva. A divulgação deveria acontecer na primeira reunião de trabalhos da C.C. (ordinária ou extraordinária) subsequente à tomada de posse. Aguardei por uma qualquer resposta, conforme requeri até ao final da semana imediata à da tomada de posse da referida C.C., a qual, até hoje (2018-02-21) nunca se verificou.
 Deste modo, porque esta arrogante sobranceria restringe, censoriamente, o direito de expressão livre da minha “opinião a todos os níveis da organização do Partido e apresentar, aos respetivos órgãos, críticas, sugestões e propostas sobre a organização, a orientação e a atividade do Partido” vejo-me, contrafeito, impelido para a divulgação pública da mesma.

“PS - VIZELA: UMA APOSTA NO FUTURO DESPERDIÇADA?
Exm.ª Sr.ª Presidente da Comissão Concelhia do PS – Vizela; Caros Camaradas.
Apesar da vitória há muito adivinhada, bastando atentar que os 56 membros (entre efetivos e suplentes) da Comissão Concelhia representavam a garantia de 70% do total de votantes, desejo a todos os camaradas eleitos as maiores venturas políticas no decorrer do mandato. 
Quero, no entanto e desde já, demarcar-me desta solução, um desfecho que muito agradou à presidência antecessora. Manifesto-lhes a m/descrença em sonhos de mudança e o m/claro ceticismo numa liderança forte e determinada, em consequência da elevada ligação com o passado. Creio que, sob a atual chefia, jamais se implementará a execução das supostas linhas estratégicas da designada moção - Uma aposta de Futuro. Em verdade, a perspetiva de um novo horizonte para o partido (ou o que resta dele) e para Vizela teria (terá) de passar por alguém totalmente descomprometido com o passado, como, por exemplo, o militante colocado em segundo lugar, o camarada Nuno Faria. Este, na atual conjuntura, seria o mais consensual, a melhor opção e o mais desejável.
Acredito que apenas com uma liderança desresponsabilizada com o passado se poderá perspetivar o início de um novo e promissor ciclo político/partidário a pensar na sólida construção de uma vigorosa, séria e clara alternativa política em/e para Vizela. Não foi isto considerado na sectária e previsível encenação, efetuada no pretérito dia 27 de dezembro de 2017, quando, como muito bem sabem, o partido carece de novas estratégias, novas militâncias, novos quadros e um novo e promissor líder. Procedeu-se, deste modo, ao cirúrgico não mexer mais que o mínimo. Manteve-se a não clarificação da vida e do momento interno do partido. Obstou-se a sua abertura à sociedade.
Será justo reconhecer à recém-eleita líder mais preparação e capacidades. É melhor e mais competente que o seu antecessor. Poderá, sem dúvida, vir a ser melhor, espera-se que seja melhor. Acredito, porém, que tudo continuará na mesma, pois a sua presidência representará a continuidade e o medo de se tomar posições, numa altura em que, mais do que nunca, o PS - Vizela mais precisava de ruturas com o passado. Torna-se, assim, num fator de conservadorismo, de bloqueio do debate político, logo um impeditivo à abertura e à vitalidade do partido. Todos sabemos que, não querer dissecar o passado de nove anos de mando, nunca lhe diminuirá o poder, mesmo tendo sido atora principal na condução de um processo funesto de mediocratização do PS e cuja principal preocupação foi a gestão da carreira política. Por isso e infelizmente, continuará a não haver a força necessária para se reverter a situação de decadência do partido. O PS - Vizela está, deste modo, condenado a uma política de estagnação de longo prazo, para a qual, como tudo indica, parece não haver forças endógenas (muito menos exógenas) que lhe modifiquem o rumo. 
Exm.ª Sr.ª Presidente da Comissão Concelhia do PS – Vizela; Caros Camaradas.
Dos políticos, para além das palavras, esperam-se as ações e os exemplos. Os vossos parecem já ser muito idênticos aos do passado. Basta a expressiva assertividade de dois para ilustrar o que parece ser apenas uma aparente intenção de reorganização interna e de mudança.
- Quando se precisa duma profunda reforma do partido, duma nova orientação política e administrativa, que lhe garantam mais abertura, melhor organização e transparência, aceitam que se submeta a sufrágio a lista para a Comissão Concelhia, dispensando-se de apresentar e debater, com todos os militantes e a simpatizantes, a vossa secretíssima Moção de Estratégia, parecendo que em causa estava uma operação oculta e ilegal, mesmo clandestina. O Secretariado ver-se-á, depois.
- Quando se reclama a urgência de se dispensar ao partido um novo élan, um partido carente de quadros e militância, necessitado de correligionários que assumam, esclarecidos, que é preciso falar, denunciar e agir para o melhorar e o engrandecer, optam e consentem num mandato conservador e acrítico, escasso de entusiasmo e ideias mobilizadoras, sentindo-se seguros com o afastamento dos críticos, sentindo-se confortáveis no papel de disciplinados e obedientes, de calados, sem dar nas vistas, poupando-se às justificações e ao evitar assumir posições. 
Exm.ª Sr.ª Presidente da Comissão Concelhia do PS – Vizela; Caros Camaradas.
Estou em crer que, proponha o que propuser a vossa desconhecida moção, Uma Aposta de Futuro, ou um outro qualquer projeto de revitalização para o PS – Vizela, objetivada em libertá-lo da agonia e na definição de um promissor horizonte, esta apenas será realizável com uma presidência e militâncias empenhadas de alma e coração, a tempo inteiro, nunca a curto prazo, pautada por calendários particulares. Sabemos que os bons preceitos de ação política preconizam que o segredo e o timing são a “alma do negócio”. Como tudo se desenha (o tempo encarregar-se-á de o mostrar à evidência), a vossa aposta de futuro, o vosso plano para engrandecer e unir o partido, comecará no próximo dia 9/10 de março, com o previsível apoio e a reeleição do atual presidente da Federação Distrital, prolongar-se-á para alguns camaradas em maio, com mais ou menos visibilidade, até ao Congresso Nacional do próximo mês de maio e terminará nas próximas Eleições Legislativas - 2019, no mês de maio (se em simultâneo com as Eleições Europeias) ou em setembro/outubro de 2019, com a integração da nossa líder na lista de candidatos do PS a deputados do distrito de Braga. 
Sendo esta uma prerrogativa de todos os militantes, seria pura vacuidade política tentar descortinar substantivas razões, embora pertinentes, para a atribuição desta honrosa distinção. Acerca dela irão, decerto, tecer-se muitas considerações mas, por si só, não é garantia de alguma mudança significativa, de rumo certo ao futuro ou, sequer, o virar duma página negra da história partidária. Por muito que a situação lhes pareça ter começado a estabilizar-se ela é ainda fortemente instável. Mesmo assim, resta-me felicitá-la, Sr.ª Presidente, e desejar-lhe que venha a obter o efetivo mandato. 
Por último, concordarão comigo que seria um brilhante exercício de hipocrisia política tentar mascarar de luminoso o atual momento partidário. Não o é. Dificilmente o será. As coisas, no atual momento, pouco ou nada mudaram em relação ao passado. São razões suficientes pelas quais se impõe uma séria reflexão entre todos os militantes, podendo esta m/análise, se assim o entenderem, constituir-se em ponto de partida.
A bem do concelho de Vizela e do partido, termino como comecei: desejo a todos os camaradas agora eleitos as maiores venturas políticas na execução deste mandato. 
Com as m/melhores saudações socialistas  [Vizela, 2018-02-05]”.