Capelas de Tagilde

Pedro Marques

2021-07-22

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Capelas do Padrosinho e Senhora da Livração - Tema VI


CAPELA DO PADROSINHO(?)
Segundo a tradição do POVO, existiu no Padrosinho uma capela, embora não se saiba sob que invocação. E isto, de acordo com os depoimentos que recolhemos. Segundo o sr. Abel Castro, a quinta do Padrosinho tinha uma capela. Mas já não é do seu tempo. Os seus pais ainda falavam dela, mas também já no tempo deles a capela não existia. A quinta do Padrosinho começava a seguir à das Portas. A testemunhá-lo na esquina de uma viela,  está uma placa de sinalização do  “Padrosinho”. Aliás, o campo que o sr. Abel fabricava era também da que foi a quinta do Padrosinho.
Deve ser uma capela que já desapareceu há muitas décadas, já que o abade de Tagilde, na sua monografia nem a ela faz referência. Desta capela, nada mais resta que a memória.
A avaliar pelos exemplos das capelas que existiram, em Tagilde neste caso, a existência da capela pressupunha bens de fortuna que dessem para a sustentar e zelar. E era solicitada a necessária licença à cúria do arcebispado de Braga e sob a vigilância de um “visitador” a inteirar-se do estado patrimonial da capela e suas rendas.
Dos rendimentos da quinta, uma parte era constituída em “vínculo” – uma garantia da sua continuidade em condições do exercício do culto. Foi assim com a capela da quinta da Devesa; foi assim com a capela da quinta da Torre; foi assim com a capela de Vila Corneira. Foi assim com a capela da Senhora da Livração e foi assim com a capela dedicada a Nossa Senhora, num dos campos do passal da residência. E foi assim com a capela de N. Senhora do Pilar. E se a capela viesse a deixar de ter condições de sustentabilidade, o Visitador disso fazia o devido registo. E depois, de duas uma: ou se recuperavam as condições para o exercício do culto, ou a capela era demolida. Sabemos que Padrosinho foi uma parcela de terreno coutado, por norma património do clero (presumivelmente conventos) com os seus privilégios, beneficiando de governação própria. Terá existido mesmo esta capela do Padrosinho?... Uma coisa é certa: para o abade de Tagilde não se referir a ela embora se refira ao couto, ou a capelinha nunca terá existido, ou houve lapso nas suas pesquisas sobre a inventariação deste património, no que não cremos.  Então, qual o porquê da referência sinalética à ruela do Padrosinho?... Só pela quinta do couto quando tantas outras havia em Tagilde, mesmo contíguas?... Apenas por “herança” do antigo lugar do Padrosinho?...
Deixamos uma hipótese, da nossa responsabilidade: Não terá este “couto do Padrosinho” abrangido a área das quintas da Torre e das Portas e da Carreira e não ter sido comum a todas a capela do Espírito Santo de que já nos ocupámos?... Sabemos que o território desta “Quinta da Torre”, vinha até à “Ponte Nova” e foi esta quinta que cedeu terreno para a construção da mesma…


CAPELA DE NOSSA SENHORA DA LIVRAÇÃO
Nas pesquisas que fizemos junto das pessoas sobre o que saberiam sobre uma outra capela dedicada a Nossa Senhora assim em termos genéricos,  já ninguém soube falar-nos da capela que procurávamos. E que existiu nos terrenos do passa da residência. Mas encontrámos alguma informação na “Monografia de Tagilde” do historiador João Gomes de Oliveira Guimarães sobre cuja biografia também já nos debruçámos e trouxemos às páginas do RVJornal.
 Eis o que este historiador nos refere: “Nossa Senhora. Sob esta invocação existiu n’um dos campos do passal, que ainda conserva o nome de “campo de Santa Maria” uma capella, cuja remota origem não é possível averiguar. A circumstancia de ter sido edificada em terras do passal, leva a induzir-nos a crer que algum dos abbades fosse o seu instituidor.
Com o correr dos tempos, foi a capella votada ao abandono e em 1687 estava quasi em ruínas, ordenando o Visitador que o abbade a reconstruisse ou quando o não fizesse que a arruinasse totalmente, visto não ser necessária para a administração de sacramentos pela proximidade em que esta da egreja parochial.
Levantando-se conflicto sobre a execução d’esta capitulação, foi julgado pela Relação Eclesiástica de Braga que a capella fosse demolida no praso de vinte dias, sendo esta sentença mandada cumprir pelo Visitador em 20 de Outubro de 1688 sob pena de excommunhão maior e multa de vinte cruzados, devendo a imagem da Virgem, titular da cappela, ser collocada na egreja parochial e levantar-se no local uma cruz para memoria de que aquelle sítio fora dedicado ao culto divino.
É provável que a imagem seja a que se acha no altar-mor da egreja, do lado da epístola e que se venera sob a invocação de Nossa Senhora da Livração. Uma imagem de Christo crucificado, existente na capella foi enterrada na sacristia da parochia por estar incapaz para o culto. Da cruz não há vestígios. Tal foi o fim da capella de Nossa Senhora”.
Hoje, esta imagem é a que se encontra na peanha do lado da epístola, ou seja, do lado direito para quem entra na igreja de Tagilde. A coroa parece de prata, a Senhora sustenta no braço esquerdo o Menino, as roupas são de um garrido flamejante e está apoiada num novelo de nuvens azuis. E sob os pés, o rosto de cinco anjos. No bojo da peanha florida mais dois rostos de anjos. Com o abraço amigo de sempre.