Capela de Vila Corneira III

Pedro Marques

2021-11-25

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OS PROPRIETÁRIOS DA QUINTA

Antes da vinda à posse do sr. Dr. João Corte Real, filho do conde de Fijô, os proprietários da quinta, vinculados à capela, foram os seguintes: António Leite Pereira Coelho, natural de Braga, falecido em três de Outubro de 1745, o qual foi o edificador da capela; a seguir, seu herdeiro Bento Leite Pereira Coelho; depois, José Monteiro Carneiro, que arrematou em praça pública por dívidas, a quinta e capela.
Seguiu-se D. Mariana Joaquina Thereza de Novaes Peixoto, filha do antecedente, casada com o conselheiro Francisco Xavier de Araújo, moradora nos Arcos-de-Valdevez; Tomás Xavier de Araújo, filho(?) dos antecedentes, desembargador e de cuja quinta ainda em 1822 era dono.
Passou, depois, a sua posse para António Manuel Lopes Pereira Caldas, da Casa da Porta, de Tagilde, capitão de voluntários realistas, falecido em 22 de Abril de 1835, por compra ao anterior proprietário. Foi herdeira D. Emília Augusta Lobo Caldas, casada com António de Castro Corveira Corte-Real. Sucedeu-lhe António de Castro Pereira Corte-Real, bacharel em direito, antigo deputado da Nação, antigo presidente da Câmara da Feira, ex-delegado do Procurador da República em Valença e depois em Estarreja e então residente na sua casa de Paçô, da mesma Vila da Feira e da qual era o actual possuidor em 1894.
No entanto, a capela, por falta de assistência e manutenção, estava suspensa do culto religioso próprio desde 1799. Neste ano, “o zeloso e culto abade da freguesia escreveu o seguinte:” Esta capella, uma das mais espaçosas da freguesia, merecia ser restituída ao culto; ainda porém o não pudemos conseguir apesar das diligências por mais d’uma vez tentadas, especialmente n’este anno do 50º anniversario da definição dogmática da Immacullada Conceção. Aguardamos outro ensejo que, temos esperança, coroará os nossos esforços (…)”
Refere-se, por duas vezes, o pormenor de esta capela ser “uma das mais espaçosas da freguesia”. E, numa delas, de ser também a “mais elegante”. Uma curiosidade que já em 1720 fora reconhecida aquando das obras da actual igreja da freguesia, nos termos seguintes descritos na “Monografia” do Abade de Tagilde: “(…) inclusive do arcebispo D. Rodrigo de Moura Telles por occasião da visita pastoral que fez a esta parochia em 16 de maio de 1709, a freguezia, com o pretexto de que o novo templo devia ser edificado em local diverso, não cuidou de fazer o corpo da egreja; desde 1720 a 1729 foram construídas as paredes, mas sempre com grande reluctancia dos freguezes, que em 1722 conseguiram finalmente que a egreja fosse trasladada para o sitio actual, sendo neste anno ordenado ao abbade que transferisse a capela-mór, que, como já dissemos, elle havia edificado, devendo durante a transferencia servir de parochial a capella da Torre para onde se transferiria o sacrário (…)
Entretanto, o abandono do culto divino foi mesmo um facto. E foi nestas circunstâncias que a Quinta de Vila Corneira veio à posse do sr. Dr. João de Castro Corte Real , filho do já mencionado conde de Fijô, nos primeiros anos da década de cinquenta, do século findo. Servia então a capela de arrumos e guarda de forragens para alimento do gado da quinta. Eram então jornaleiros da quinta os pais de uma senhora, que reside do outro lado do rio Vizela, na Partilha – a Rosa da Ribeira.
Disse-nos esta senhora, em Setembro de 2020, que, já no tempo do pai da actual proprietária ex.ma  D. Maria José de Castro Corte Real Pinto Leite e marido eng. Sr.  Francisco Fernando Queirós Pinto, aquele sr. pai da actual proprietária autorizou que ela e a sua mãe passassem a dormir na capela, junto da qual mandou construir, em madeira, uma espécie de cozinha, que, depois, veio a ser destruída por incêndio.
Sobre a situação da capela se pronunciou também, quando com ele sobre este assunto falámos, uma década atrás, Domingos Lima, entretanto já falecido e que foi Presidente da Junta da Freguesia. Disse-nos este que muito bem se recordava de a capela ter servido de depósito de forragens para o gado e de  nela ter havido um incêndio.
Então, este último  sr. Dr. João Corte Real,  filho do Conde Fijô, tomou a iniciativa da recuperação da capela para  os actos de culto. E diligenciou de conformidade junto do abade de Tagilde, ao tempo o Rv. P. Abílio.

CORRESPONDÊNCIA 
SOBRE A CAPELA

Casualmente, foi-nos possível ter acesso a uma carta, escrita pelo punho do então abade Rev. P. Abílio, endereçada ao sr. Dr. João de Castro Corte Real, com data de 19.06.1954. Uma carta escrita, portanto, há sessenta e sete anos. 
A esta carta, à qual foi dada a necessária e adequada resposta, foi-nos facultada no arquivo da residência paroquial de Tagilde. Nela consta o que precisávamos de saber. E por ela se vê que já decorriam diligências junto do Paço Arquiepiscopal de Braga, no sentido da reabilitação da capela para o suspendido culto religioso.
Diz o seguinte a carta: "Com os meus respeitosos cumprimentos e sua ex.ma família, venho informá-lo de que recebi de Braga, com data de 12 do corrente, um questionário para eu, como pároco de Tagilde, dar esclarecimento, o qual é o seguinte: A) Como e por que se deu a profanação da capela; B) se nela se realizaram actos sórdidos; C) qual o uso que até agora se tem dado à capela; D) qual o restauro que se deseja fazer; E) se as paredes ficam as mesmas ou são na maior parte deitadas abaixo; F) qual o motivo por que deixou de ser dedicada ao culto; F1) se a capela tem dote cujos frutos revertem a favor da sua conveniente conservação; F2) se não haverá perigo de vir a ser novamente profanada no futuro; G) quem fica a administrar as esmolas que venham a ser dadas em honra dos santos e mistérios cujas imagens ali se veneram; I) se já foram feitas as cauções do costume; J) sobre tudo o mais que julgue necessário informar.
(Continua nas próximas edições)