Bráulio Lauro Pereira da Silva Caldas (III)

Júlio César Ferreira

2021-01-07

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Como vimos anteriormente, o nosso bardo, acabados os estudos liceais em Braga, onde depois de formado, foi professor de liceu, seguiu para Coimbra onde cursou Direito e Teologia Sagrada, na Universidade, em 1882. Cursar a universidade era, naquele tempo, reservado apenas a algumas pessoas, alguns eleitos, sendo nobilitação máxima para qualquer jovem estudante, a frequência na Universidade de Coimbra, uma das mais antigas do país e do mundo, conhecida com a “Lusa Atenas” por, tal como a grande cidade da Grécia Clássica, ter representado durante muito tempo o centro da cultura e conhecimento de todo o país. Criada no dia 1 de Março de 1290, foi confirmada por bula papal do Papa Nicolau IV, com data de 9 de Agosto de 1290, tendo os seus estatutos sendo criados um pouco mais tarde, em 1309 com o nome de CHARTA MAGNA PRIVILEGIORUM, outorgados mais tarde por D. João II, com disposições sobre frequências, exames, graus e traje académico. Não é de admirar, portanto, que todos os estudantes de Coimbra sentissem (sentem ainda!) alguma soberba, garbo ou brio, por frequentarem tão ilustre, vetusta e nobre instituição académica. Será pois com pundonor, mas também muita expectativa que o nosso vate chega a Coimbra, transportando já consigo uma auréola de poeta consagrado, pois eram conhecidos muitos dos seus poemas, sextilhas ou sonetos, publicados um pouco por todo o país em jornais e revistas, nomeadamente do Porto, de Guimarães, de Braga, da Figueira da Foz, de Coimbra e também da capital. Não se estranhe, portanto, que de pronto, o nosso ilustre conterrâneo fosse “chamado” a participar nos muitos eventos culturais (e boémios) académicos, fazendo, inclusive, parte da Estudantina Conimbricense de 1888, como podemos ver numa fotografia (obrigado António Cunha) colada sobre cartolina verde, contendo nas margens os nomes de todos os elementos impressos a dourado. É uma composição emoldurada (70X80cm) com a impressão, também a dourado de “PHOTO MODERNA”, o que nos leva a concluir que foi feita na Photo Moderna do Porto, em 9 de Dezembro de 1888, a acreditar na data também impressa a dourado e oferecida à TAUC, para figurar numa das suas salas. São 43 os estudantes que faziam parte desta estudantina, alguns que seriam mais tarde reconhecidos, quer na política quer nas artes, como Cutileiro, Queiroz de Lacerda, Ferraz de Azevedo ou Carvalho Barbas. O nosso Braulio Lauro, lá está também, sentado entre outros, devidamente assinalado com o número 39. Convive de muito perto com nomes sonantes da época, como António Nobre, Antero de Figueiredo ou António Feijó. Em 12 de maio de 1888, escreveu o Hino do Curso do 5º Ano Jurídico, da Universidade de Coimbra de 1887 a 1888, que foi musicado por Augusto de Matos, cuja última quadra era como se segue: Se depois, em paragens distantes, Nos sorrir a visão dos folguedos, Que nos prenda este amor de estudantes, Como a hera abraçada aos rochedos Formou–se à sua custa, pois em Coimbra exercia o ensino livre para angariar meios com que se pudesse alimentar (Júlio Damas, Poesias de Braulio Caldas, 1976, pág.9) É ainda na Lusa Atenas que escreve um dos mais belos fados de Coimbra, musicado por Reinaldo Varela (que ainda se canta) e imortalizado pelo célebre fadista coimbrão Hilário (Augusto Hilário da Costa Alves (Viseu 1864 – 1896), o fado das Três Horas ou Canção da Noite. CANÇÃO DA NOITE (FADO DAS TRÊS HORAS) Música: Reynaldo Augusto Álvares Pereira Leite da Silva Pinto Varella (1867-1940) Letra: Bráulio Lauro Pereira da Silva Caldas Incipit (começa): Murmura, rio, murmura Origem: Caldas de Vizela - Data: 1887 Murmura, rio, murmura, É doce o teu murmurar; Que tristeza, que ternura, Tu tens no teu soluçar. Pela calada da noite, Enquanto não surge a aurora, Qu’esta minh’alma se afoite, Suspira, guitarra, chora! Voga, barco, mansamente, Pelas águas prateadas, Leva este canto dolente, Aos peitos das namoradas! Cada nota tão sentida, Que a minha guitarra envia, É uma canção dolorida, D’amor e melancolia. E estas canções eu trago-as Presas nas asas da brisa, Para espalhar sobre as águas, Enquanto o barco desliza!... A notação musical e respectiva letra vêm transcritas no “Cancioneiro de Músicas Populares”, Porto, Typographia Occidental, 1893/1895/1898, de César das Neves (1841-1920) e Gualdino de Campos (1847-1919). É uma serenata e tem por título Canção da Noite. Esta serenata, em compasso 2/4 e tom de Mi Bemol Maior, é vulgarmente designada por “Fado das Três Horas”, título com que os seus autores a baptizaram por ter sido àquela hora da noite que foi improvisada dentro de um barco, vogando no rio Vizela, numa noite de paródia e serenata nas Termas das Caldas de Vizela, em 1887 (Cf. Pinto de Carvalho, História do Fado, Lisboa, Dom Quixote, 1984, pág. 274). Composição dolente, fruto das sensibilidades estudantis e burguesas da Belle Époque, apresenta preocupações literárias, ao gosto do reportório habitualmente cultivado pelos modinheiros e serenateiros de Coimbra. A monotonia dada pela repetição da “silva de cantigas” (5 quadras) podia quebrar-se bisando os dísticos em coro logo após o desempenho do solista, e com a valorização dos separadores (ex: guitarra, violão, rabeca, flauta). O “Fado das Três Horas” correu Portugal através dos fascículos “12 Cantos Populares”, 2ª Série, Porto, Casa Eduardo da Fonseca. Esta brochura impressa vendia-se a 500 réis nos primeiros anos do século XX e atingiu pelo menos uma 3ª edição antes de 1910. Nesta edição, as partituras vinham harmonizadas para piano, base utilizada pelos regentes das tunas e filarmónicas de província para adaptar reportório urbano em voga. Na década de 1940, o “Fado das Três Horas” ainda era prato forte de muitas filarmónicas, tunas, orquestras ligeiras e rapsódias interpretadas por bandas militares. Bráulio Caldas, de seu nome completo Bráulio Lauro Pereira da Silva Caldas, então quartanista de Direito, era natural de Caldas de Vizela e foi o autor dos versos. No ano seguinte, o quintanista Bráulio Caldas assinou a letra Hino do Curso do V Ano Jurídico de 1887-1888, música de Augusto Matos, em cuja Récita de Despedida foi cantado.