Abade Bento Lopes de Carvalho

Pedro Marques

2020-10-22

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Pároco de S. Miguel das Caldas - I


As paróquias têm o seu espaço geográfico – é evidente – com a sua dinâmica impressa no tempo e nos paroquianos, mercê da ação espiritual apostólica dos seus abades, ou curas, ou párocos, nos nossos tempos de hoje. E quem já tem uns anitos como nós, se há muito foi o tempo dos “curas”, ainda somos do tempo dos “abades”, a quem, então, nós putos, sempre que o víssemos ou tivéssemos de ir ter com ele, com respeito nos aproximávamos e pedíamos “a sua bênção, sr. abade”. Todavia, “cura”, “abade”, “padre”, “sacerdote” “pároco”, “prior”, “cónego”, “monsenhor”, e por aí fora, não são sinónimos totalmente comuns, pois todos têm a sua especificidade própria. A primeira designação foi a do “cura de almas”, que cuidava da saúde e das doenças espirituais dos fiéis. Alguns deles eram até casados, com vida familiar normal e dos quais D. Frei Bartolomeu dos Mártires, quando o celibato passou a ser obrigatório no Concílio de Trento, assim desabafou preocupado: Ai dos meus padres de Barroso!” Na verdade, os “curas” das paróquias das serras (além de outras, as de Barroso faziam parte da arquidiocese de Braga e que ele tão bem conhecia pelas suas frequentes “visitas pastorais”, e dos “curas” aos também ditos “padres seculares”), muitos deles eram casados, ou viviam em “união estável”. E se já desde séculos antes, de modo genérico, o celibato existia entre os “padres seculares” e os “curas”, isso não foi bem assim. E só a partir do dito Concílio de Trento é que se pôs o “preto no branco”. E de forma salomónica: os padres “em união estável” tinham de deixar a mulher e os filhos. E por isso a exclamação angustiante de D. Frei Bartolomeu dos Mártires: “Ai dos meus padres de Barroso!” Mas não iremos por aqui. Quer os “curas”, quer os “padres seculares” em termos de teologia e de costumes e mesmo de formação académica básica, deixavam bastante a desejar. E ainda em consequência do Concílio de Trento, foi entendido que o sacerdote na paróquia tinha de ser uma pessoa bem formada, moral, teológica e intelectualmente. E por isso foi fundado, pelo referido D. Frei Bartolomeu dos Mártires - hoje S. Bartolomeu dos Mártires – o “Seminário Conciliar de Braga”, ainda hoje assim denominado e que tivemos a honra e o privilégio de frequentar. E se hoje temos este gosto pela pesquisa e de procurar saber o porquê das coisas, a essa extraordinária formação académica, e parcialmente filosófica no nosso caso, o devemos. Nesta nossa referência ao D. Frei Bartolomeu dos Mártires, devemos informar que ele também conhecia muito bem a região ribeirinha do Vizela. E foi ele quem extinguiu a freguesia de S. Veríssimo (de Vizela) e a anexou, no sec. XVI à de Santa Comba de Regilde. Temos este episódio no nosso livro “Na Rota dos Moinhos”, editado o ano passado, fará no começo de Novembro um ano. A este assunto voltaremos com nova luz. A designação de “abade”, pelo menos no norte do País virá desde a civilização gótica. E deriva do vocábulo siríaco “abba” e que por sua vez é composto do hebraico “ab”); abba, que significa “pai”. O mesmo que “padre” do étimo latino “pater”. É certo que os “abades”, mas já com o “dom” (dom abade) passaram a ser os “bispos” na hierarquia monástica dos conventos. Veja-se o caso aqui bem pertinho de nós – o D. Abade de Singeverga. Mas é melhor ficarmos também por aqui. De outro modo, seria o desenrolar de um novelo que bem daria para tricotar muitas camisolas, ou muitos mais pares de meias. O certo é que, ainda no nosso tempo de rapazinho, se pedia a “bênção, sr. abade”. E em sinal de respeito, beijávamos-lhe a mão, que ele nos estendia. Num tempo em que também se pedia “a sua bênção, srª minha mãe; a sua bênção, sr. meu pai”. E a mão lhe beijávamos também. Foi ainda assim com nosso tio padre. E foi também assim com o nosso tio “Zé da Veiga”, irmão daquele e do meu pai, e que, da nossa ascendência paterna de Braga, foi o último a falecer. Que nunca dispensou o estender da mão para a beijarmos. E, entre tantos, de quem temos a relação e que paroquiaram S. Miguel das Caldas, no passado menos remoto um deles foi o abade Bento Lopes de Carvalho. Muito gostamos de fazer pesquisas “no terreno” ou queimando as pestanas nas bibliotecas. E de pergunta em pergunta; e de pessoa em pessoa, decidimos aventurar-nos na procura de algo biográfico ainda possível sobre este “abade”. E metidos ao caminho, ganhámos uma tripla riqueza sem qualquer preferência prioritária na sua ordem de referência: ganhámos conhecimento, fizemos amigos e alargámos o nosso espaço de convívio. Ora, o que se escreve, se enquadrado num determinado tempo, ultrapassada essa limitação e fica intemporal. Além do mais, pode marcar - e marca mesmo - uma época, da qual fica a fazer história. Mas nunca será um escrito obsoleto nesta dimensão. Já sobre o abade Bento Lopes de Carvalho nos debruçámos no texto que escrevemos na então “Revista Alerta S. Miguel” – órgão informativo da comunidade paroquial de S. Miguel, ano 4, nº 15, Maio/Junho 1992. Fruto da recolha de depoimentos que fomos fazendo junto de diversas pessoas que dele ainda se lembravam e de quem ele foi abade”, ou do que os seus antepassados recentes lhes haviam contado. Um dos nossos “contactos pessoais” com este sacerdote, mas noutro âmbito, foi no nosso tempo de escriturário da referida paróquia de S. Miguel quando nos foi possível folhear os livros do cartório paroquial. De modo mais preciso, num assento do “livro de óbitos”. Iremos ver isso mais adiante. Ao tempo, e sem pretendermos repetir-nos, à laia de introdução, escrevemos isto: “(…) o tratamento cerimonioso de sr. abade foi caindo em desuso (…). O nome do abade não era um título atribuído gratuitamente a qualquer um: tinha de ser merecido. Tinha de ser um sacerdote que se distinguisse pelos seus dotes de ciência e de virtude (…)” Temos em carteira recolhas sem fim neste âmbito da pesquisa. Todavia, em relação ao “abade Bento Lopes de Carvalho, pensamos não ir além de mais dois textos, para além deste, a publicar aqui no RVJornal. Com o abraço amigo de sempre.

Abade Bento Lopes de Carvalho

Pedro Marques

2020-11-05

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Pároco de S. Miguel das Caldas - II


Já ao tempo da nossa colaboração na Revista “Alerta S. Miguel” de que fomos director, nós escrevemos isto: “da biografia dos abades de S. Miguel, em termos de passado remoto e assim com algum desenvolvimento, talvez seja ainda possível a recolha de mais um ou outro. Deste em diante, será menos difícil, pois só temos o D. Guilherme e o Monsenhor Monteiro (…)”. Do abade D. Guilherme, que foi da casa de Atim, Infias, a ele nos referimos já nos episódios da Srª. Deolinda Labita. Ao fim de treze anos na paróquia de S. Miguel das Caldas, foi nomeado bispo de Angra do Heroísmo. Agora, porém, interessa-nos o abade Bento Lopes de Carvalho. A nossa curiosidade por este sacerdote surgiu-nos pelo facto de termos visto escrito pelo seu punho, no livro de assentos de óbitos, à margem dos assentos nrºs 22/33, de folha não numerada como as de todo o livro aliás, esta anotação no ano de 1913: “por decreto de 29 /04, fui expulso, por três meses, desta freguesia. De sete de Maio a sete Agosto, ficando encarregado desta paróquia o rv. P. Abílio Ferreira, digno pároco de S. Martinho do Conde. (assinado) Abb. Bento Lopes de Carvalho”. E mais tarde, umas folhas adiante, no mesmo livro e na margem das “observações”, dos assentos, registos nrºs 34/35: “terminou no dia sete de Agosto o desterro (ass.)Abb. Carvalho”. Por aqui se vê que, ainda no tempo deste, o relacionamento cerimonial era o de “abade” ele se identificando por “abade” e não “pároco” ou “sr. padre”. Quanto às anotações: é evidente que anotações assim, logo em nós despertaram a curiosidade: porquê este degredo?... E quem foi este abade padre Bento?... E à falta de documentos escritos, fomos à procura das pessoas que dele se lembrassem. Ou pessoalmente ou por interpostas pessoas. Sabemos, de há uns anos mas já depois da publicação da nossa reportagem na tal revista, que houve uma senhora que foi nossa amiga e vizinha quando então morámos nos nossos primeiros tempos de habitante de Vizela e que era sobrinha dele. Talvez ela nos tivesse dado conhecimento do tempo de juventude deste abade. Temos uma foto nossa do tempo da publicação do nosso trabalho sobre este abade na mencionada revista “Alerta S. Miguel”. Nessa foto entre um arranjo de flores brancas na sua sepultura, com os retratos do sr. abade Bento e da irmã, emoldurados ao cimo em caixilharia oval de bronze dourado, ao alto, consta o seguinte: “à memória do padre Bento Lopes de Carvalho e de sua irmã D. Teresa Lopes de Carvalho. Eterna saudade de sua sobrinha”. Então muito mais poderíamos ter ficado a saber sobre a biografia deste sacerdote, para além do que nos foi possível recolher. E de cada pessoa que inquirimos, cada depoimento com o seu perfil: era um homem alto, forte, espadaúdo; sacerdote zeloso e bondoso; cumpridor fiel da sua missão de padre; sacerdote amigo dos “copos”. E num dos depoimentos recolhidos, também a curiosidade de ele ser um bom jogador de pau. Fosse de lódão, ou outro, isso não obstava. Desde que fosse pau, já dava para jogar. Revelador das suas raízes telúricas da região serrana de Basto. Pelas pesquisas então feitas e segundo informação da exma. Dra. Maria José Pacheco, ele participou activamente nas diligências para a criação do concelho de Vizela. E segundo testemunho de pessoa amiga que disso possuía, ao tempo, elementos escritos, ele foi presidente da Junta de Freguesia de S. Miguel das Caldas, dos anos de Setembro de 1897 a Março de 1911, em catorze anos (sempre) de luta. Iremos ver que a política foi também uma sua atracção. Ao tempo, em S. Miguel, havia muitos óbitos. E também muitos nascimentos. E meses houve em que o número de óbitos era superior ao dos nascimentos. Por vezes, num excesso de duzentos óbitos sobre os nascimentos. Por exemplo, na década de 1910 a 1920 a população (de S. Miguel das Caldas) entre nascimentos e óbitos regrediu em cento e dezasseis almas, algumas ao fim do sexto ano desta década. Ou seja, em vinte anos, a população de S. Miguel diminuiu em trezentas e setenta e duas almas. Foi no tempo da pandemia “peste espanhola” ou “pneumónica”, ceifadora de vidas, por vezes duas e três na mesma casa. Tantas as mortes que nem os sinos tocavam a defunto, para se não criar mais pavor. E alguns terão sido sepultados mesmo no estado de morte aparente. Há vários episódios destes noutras terras. Contou-nos, ao tempo o sr. Freitas de Frades (em 1992) então com oitenta e quatro anos que, na sua terra (S. Torcato) a trinta metros do cemitério, um “morto” “acordou” no caixão e regressou a casa. Imaginemos a cena de pânico. E garante este sr. Freitas de Frades que este “morto-vivo” foi, depois e durante mais de trinta anos, jornaleiro da sua casa. E foi – parece – esta pandemia que deu lugar ao hábito do “mata-bicho”, pois se constatou que quem tinha o hábito de em jejum beber um copinho de aguardente, ficou imune a esta pandemia. E quando participámos numas jornadas de etnografia em Arouca, um dos roteiros foi termos ido todos à tasca do “mata-bicho”, em Ponte de Telhe. Ainda lá passámos há pouco mais de um mês... Aliás, a minha mãe, que nasceu em 1908, isso mesmo nos contava do seu tempo de rapariga. E mesmo aqui em Vizela, na “Ilha” para onde o velho moleiro Maquias transferiu a sua tasca de ao pé dos moinhos na ponte velha, a dez metros de distância da tasca já se sentia o cheiro do bagaço entranhado nas tábuas do balcão, de tanto “mata-bicho” logo ao romper da manhã. Isto, de certo modo, a propósito do sr. abade Bento em relação aos “copos”. Uma coisa é lógica: este abade padre Bento, no entusiasmo do seu zelo apostólico, é bem natural que, para conviver com os homens seus paroquianos, os tivesse ido procurar aos locais onde eles eram certos aos domingos de tarde: às tascas da sua aldeia e com eles bebesse também o seu copito. O sacerdote é um “enviado” para “ir ter com”. E não um “administrativo” sedentário à espera de quem o venha procurar. A estes anos de distância, da vida deste “abade” anteriormente ao sacerdócio, de certeza que já nada se conseguirá saber. E seria até muito gratificante que alguém que desse passado eventualmente possa ter conhecimento, o partilhe com os nossos leitores. E chegados aqui, a nossa próxima visita irá ser com os depoimentos recolhidos sobre a vida deste sacerdote. O primeiro será o que foi nosso grande e especial amigo e nosso “professor” e “maestro” no âmbito da música polifónica – o sr. Costa Vieira. E outros, a seguir. Com o abraço amigo de sempre.

Abade Bento Lopes de Carvalho

Pedro Marques

2020-11-19

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Paróquia de S. Miguel das Caldas - III


Consultados os livros do Cartório paroquial, não se conseguiu saber quando é que o abade Bento Lopes de Carvalho terá tomado posse da paróquia de S. Miguel. Presumimos que, nesse tempo, o ritual não deveria ter a solenidade que hoje tem: o nóvel sacerdote ao entrar na sua paróquia, é entronizado em cortejo solene com todas as confrarias a acompanhar. Dentro já da igreja, ou pelo arcipreste ou mesmo pelo bispo ou seu delegado, é lido perante a assembleia de fiéis o auto da tomada de posse, que se torna efectiva no momento em que lhe é entregue a chave do sacrário. A partir daqui, passa ele então a ser efectivo novo pároco e se segue a celebração da Eucaristia. Em Tagilde, fomos testemunhas de três autos de posse: sr. P. Rui, hoje Monsenhor no Vaticano; do sr. P. Delfim Coelho, hoje reitor do Santuário do Sameiro; e à de um outro sacerdote, o P. Marcelino, para nós de triste memória. No entanto, pela consulta dos referidos livros, alguma coisa foi possível saber-se: pelos assentos de óbitos e baptismos, o primeiro registado pelo seu punho foi em oito de Fevereiro de 1891 – assento número nove; de um José, filho de Joana Martins. E deste mesmo já em adulto e no respectivo livro, está o assento do seu casamento. E no livro de óbitos, o primeiro registado pelo abade Bento, tem o número cinquenta e cinco em 25.11.1892 – de Maria de Jesus, falecida nas Teixugueiras: um anjinho de dois meses e treze dias, filho de José Fernandes e de Clementina Cunha. O seu primeiro registo de casamento só acontece aos 21.12.1896 - de Manuel da Costa e Filomena Antunes. Ele, de S. João; e ela, de S. Miguel, filha de Manuel José Antunes. Nos baptismos, o último assento feito pelo seu punho tem a data de 25.07.1915 e é nº 47. O seguinte, em 14.08.1915, é do punho do sr. P. Abílio. Neste livro de assentos, para lá do nº16 de 23.12.1914, nada mais aparece registado pelo abade Bento, sendo os seguintes, sem nº, feitos pelo punho do mesmo P. Abílio em 13.11.1915, isto é, nove meses depois. O registo do seu próprio óbito é omisso neste livro. Terá terminado, por aqui, o seu múnus de abade de S. Miguel?... De caligrafia ainda sua, é o registo do assento nº 22 de 30.07.1915. Em 09.08.1915, o óbito registado é pelo punho do referido P. Abílio. Curiosamente, em 30.09.1915, o assento nº57 dos óbitos está parcialmente registado pelo punho do abade Bento e completado pelo do P. Abílio. E quem seria este P. Abílio: o de S. Martinho do Conde que o substituiu no seu exílio, ou o P. Abílio que foi abade de Tagilde?... Ou terão sido um e outro a mesma pessoa?... Segundo o nosso bom amigo que foi o sr. Costa Vieira, digmº maestro da Sociedade Filarmónica Vizelense, este disse-nos que pelo que ouviu de seus pais contar a respeito deste abade, é que ele era um sacerdote alto e entroncado. Bom jogador de pau. E referiu um episódio curioso, que é o seguinte: “ele veio da região de Basto, onde ao tempo era comum e frequente o jogo do pau. Assim fortalhaço e com têmpera de serrano, no jogo do pau, ele expandia o seu vigor físico. Conta-se que este sacerdote gostava de exibir esta sua habilidade. Certo dia, num terreiro onde estava uma grande mesa, talvez de algum banquete de arraial ou até casamento, com muito povo ali presente, possivelmente das quintas do Aidro ou Casal da Devesa ou Ramada, dessa mesa o abade se aproximou. E aos copos, ainda bastantes em cima da mesa, ele foi-os distribuindo pela borda da mesma mesa. Isto feito e perante o espanto das pessoas, pulou para cima da mesa, munido de uma valente vara. E de pé em cima da mesa, com os copos todos nas extremidades, o abade passou a rodopiar a vara. E fez isto com tal mestria em círculos velozes “zum-zum-zum!” que a vara zoou rente a todos eles. E nem um só partiu ou estremeceu no seu lugar. Foi tamanha a exibição que, no fim, arrancou da multidão boquiaberta e entusiasmada fortes aplausos. Há, todavia, mais depoimentos. Prossigamos com o do sr. Raúl Machado, da Quinta da Devesa. Nesse tempo, este nosso amigo, que foi proprietário da Quinta da Devesa ali ao lado da igreja de S. Miguel, ia repartindo a sua vida por Paris e por Vizela, mas já a residir na casa da Mourisco. Frequentava e convivia muito no “café da pasteleira” dos irmãos Martins. E deixou-nos este perfil do abade Bento: sacerdote zeloso no seu apostolado, a esse zelo juntando a sua bondade inata. Que repartia por todos e em todos fazia um amigo. E outro perfil nos deixou deste abade: sacerdote alegre e folgazão e cantor! Predicado este que teve de “abafar” sob a sotaina de sacerdote que, de certo modo, lhe tolhia a liberdade de homem comum. Sacerdote que gostava dos “copos”. E neste ambiente encontrou uma forma privilegiada de convívio. O se gostar dos “copos” não é necessariamente um defeito, sendo até uma salutar forma de convívio. Nas mesas dos cafés, hoje, os homens pedem um “fino”. E no tempo do calor, acompanhado de tremoços. Há quem goste de caracóis. Chegados aqui, vamos referir um episódio que nos foi contado por um professor nosso quando estudávamos Filosofia no então seminário de S. Tiago. E foi o seguinte: alguns sacerdotes, num dos seus dia “de folga”, foram fazer uma caminhada e combinaram o seguinte: um deles iria à frente ; e pelas tascas por onde passasse, provava uns golitos de vinho. E nas pedras que ladeavam o caminho, sempre que o vinho fosse bom, ele escreveria a giz: “hic (aqui). E os colegas, vendo o “hic”, lá foram provando o vinho também. E mais um “hic”. E depois outro. E mais outro… Até que, ao sair da última tasca, este sacerdote-escanção morreu! E então, um dos colegas perante esta fatalidade, escreveu, por sua vez, numa outra pedra, o seguinte: “et propter hic, hic mortus est”- ou seja: e por causa do “hic”(aqui), aqui morreu! Referimos este episódio, pela ironia da anedota e pelo facto de ter sido contado a toda a aula, por um nosso professor sacerdote. Sem qualquer intenção de beliscar o respeito devido e merecido pelo abade sr. padre Bento. Somos o que somos. Com defeitos e virtudes. E um copinho de vinho não faz mal nem belisca a honra de ninguém. No nosso tempo de juventude, quando as senhoras conviviam nos cafés pediam “chá frio”. E quem as servisse já sabia que pretendiam era uma chávena com vinho branco. O abade sr. P. Bento gostava também de rapé. Segundo este sr. Raúl Machado, da Quinta da Devesa, um dos motivos por que as crianças nunca faltavam à catequese que ele muitas vezes ensinava nas escadinhas que havia no “Penedo da Saudade” na quinta de Cimo de Vila, era, a de a cada uma das crianças, sentadas nos degraus dessas escadinhas que havia no dito “Penedo da Saudade, dar rapé a cheirar. Coisa que a criançada adorava. E então, entre pitadas de rapé e uns golitos de vinho de uma garrafinha que o abade Bento levava consigo, assim decorria, sem esforço e com satisfação, o ensino da doutrina. Era também um sacerdote muito alegre e folgazão. E sempre sorridente. Uma vez, por alturas dos banhos, vieram a Vizela uns cantores da Universidade de Coimbra, sendo um deles Menassés de nome. Estará a vinda destes estudantes relacionada com exílio do então bispo de Coimbra, na Casa da Aldeia de Cima, de S. Miguel?... Iremos ver. Tem a revista “Alerta S. Miguel” que sustenta este nosso entretenimento e da nossa autoria como referimos, um interessante e valioso artigo da exma Drª Maria José Pacheco sobre este assunto. NOTA: Falar ou escrever sobre a exma Drª Maria José Pacheco, nunca é demais. Na verdade, foi até ao momento quem mais investigou sobre Vizela. E deixou OBRA escrita. Os meus parabéns, portanto, ao nosso amigo Júlio César pelo seu excelente artigo sobre esta insigne Senhora.