A requalificação do adro da igreja eulalense: um novo e deplorável capítulo

Eugénio Silva

2020-06-25

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No pretérito dia 4 deste mês, ficámos todos a saber que, de acordo com o noticiado por diversos órgãos de comunicação social – nacionais, regionais e locais - o Ministério Público encontrou ilícitos criminais na obra de demolição do prédio urbano, denominado “Casa do Adro”, uma de 5 parcelas ditas necessárias à “requalificação do adro da igreja de Santa Eulália de Vizela”. Nesta conformidade, o Ministério Público deduziu acusação contra o atual Presidente da Junta de Freguesia de Santa Eulália de Vizela (JFSEV) pelo crime de participação económica em negócio. Fiel seguidor do princípio do que é da justiça cabe à justiça e do que é da política cabe à política, dificilmente virei a comentar processos judiciais. No entanto, enquanto não se registar uma reviravolta política que conduza, de um vez por todas, ao rigor, à verdade e à transparência neste processo carregado de profunda nebulosidade e excessivo secretismo, manterei ativa a minha voz crítica. Terei de a manter, porque, como todos já há muito percebemos, em Vizela não se revela o salutar e responsável dever de oposição nem se constata a existência de qualquer tipo de contrapoder. Por isso, no referente a mais este novo e deplorável capítulo – mais um a somar ao já intrincado e inimaginável processo de requalificação - assistiremos ao habitual clamoroso silêncio expresso por quem tem e tinha o dever de questionar, nada interessando aos diversos representantes político-partidários escrutinar o exercício dos órgãos executivos nem a busca incessante da verdade e da transparência. Nada lhes interessa saber se a compra de cinco prédios (rústicos e urbanos) pelo anterior executivo municipal, em 22-08-2016, pelo valor de 175.000.00 €, tinha por finalidade a construção de uma capela para uso público ou, em alternativa, o atual processo de requalificação, desprovido de capela; não lhes importa entender porque adjudicou, por ajuste direto, a Câmara Municipal de Vizela a obra de demolição da denominada “Casa do Adro”, pelo valor de 9.500.00 €, acrescido de IVA, a um empreiteiro desprovido de plena capacidade técnica e material; não lhes interessa esclarecer a subcontratação da empresa de construção detida pelo Presidente da JFSEV, eleito pelo Movimento Vizela Sempre, pelo valor de 2.000.00 euros; e nada lhes interessa compreender sobre as razões que motivaram o vereador com pelouros da coligação “Vizela é para todos” a revelar falsa cegueira, astuta afasia e manhosa amnésia sobre esta questão, quando num passado recente, na qualidade de opositor do referido presidente, enquanto eleito pelo PS, tenha lobrigado e denunciado idênticos ilícitos. Em minha opinião, esta triste realidade - a indiferença e o sombrio panorama político vizelense – realça a origem do verdadeiro mal, que se explica em duas razões. Por um lado, nota-se um défice institucional. De um modo geral, os órgãos do poder revelam-se maus, subservientes e intelectualmente depauperados, mostrando um elevado défice de independência, uma vez subjugados à despudorada voracidade de muitos interesses particulares. Por outro lado, a enorme indiferença ressalta de uma promiscuidade política, gerada por proeminentes protagonistas partidários, tanto os de hoje como os de ontem, que retira ou condiciona a isenção, a independência e a autoridade a qualquer político por mais digno e honrado que seja. Este estado de coisas acaba por manietar as instituições democráticas, tornando-as inoperantes e reféns de práticas políticas marginais do rigor, da seriedade e da transparência. Enquanto isto, os atores políticos com assento nelas, quer os da esquerda, quer os da direita, mobilizados num surpreendente silêncio e numa indiferença complacente, fingem que tudo está bem, quando na realidade tudo está mal. Tenho um campo ideológico com que me identifico – o socialismo democrático -, mas tal nunca condicionará o meu discernimento, a minha liberdade e independência, nem me obrigará ao afastamento da defesa dos valores essenciais de decência e de ética política. Nestas circunstâncias, ao verificar-se a utilização de apenas 4 de 5 prédios (2 rústicos e 2 urbanos), todos à cota baixa e contíguos à igreja, necessários à dita “requalificação do adro da igreja de Santa Eulália de Vizela”, facilmente se deduz a completa inutilidade para o referido projeto de um prédio rústico, sem nenhum benefício ou vantagem para o concelho. Reportamo-nos à obscura compra da “Bouça de Agros ou Pendal”, com 34.000 m2” de área, à cota alta, localizada nos termos da freguesia, se não mesmo na vizinha de Lustosa, pelo valor de 26.000.00 €. Por isso, aos dois principais intervenientes deste obscuro negócio - a vereadora socialista Dora Gaspar, vice-presidente do anterior executivo e, do atual, o vice-presidente Joaquim Meireles, eleito pelo movimento “Vizela sempre”, ex-presidente da JFSEV, ex-deputado municipal pelo PS e testemunha na “Escritura Pública de Habilitação” de herdeiros - renovo uma simples pergunta: que entidade pública ou privada beneficiou, injustificadamente, deste negócio?