A Propósito do Senhor das Cinco Chagas de Infias - Parte I

Pedro Marques

2020-05-21

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AS TRADIÇÕES AS LENDAS E A FÉ UMA REALIDADE ANTROPOLÓGICA A partir desta edição e durante algumas outras, iremos partilhar consigo um tema devocional de que tanto gostamos porque, nele e por ele e através dele, sentimos o vibrar da alma do POVO, na sua expressão e dimensão antropológica. Na verdade, as tradições, as lendas, a crença através de uma religião ou simplesmente o “acreditar”, tudo isto é um manancial de riqueza que faz parte da essência antropológica. Desde as origens da pessoa humana aos nossos dias e que se prolongará pelas gerações enquanto houver vida neste “nosso” planeta, pois haverá outros e outros sistemas solares com vida semelhante à da Terra ou não. O Universo (ainda) é uma incógnita, é infindo e será eterno. Quando começou?... Com a “teoria do Big-bang?”… E acaso a teoria ganhou a consistência de ciência?... E mesmo que assim fosse, não nos repugna que, mesmo aí, exista uma INTELIGÊNCIA anterior a quem os crentes chamam Deus e que permitiu esse “Big-Bem”. Faz parte, assim, da antropologia humana ACREDITAR. TER FÉ. Nem que seja fé do tamanho de um grãozinho de mostarda, mas capaz, já de si, mediante uma “ordem” nossa à montanha para sair do sítio onde está para outro, ela de imediato obedecer e sair! Ter Fé, além de uma força, é uma realidade que faz parte da estrutura antropológica da pessoa humana. Acreditar. Seja no que for. E aqui, pode entrar (e entra!) o mito. E realidade, Fé e mito, são uma tríade que se consubstancia na mesma essência. Fernando Pessoa, a propósito de realidade (com fé ou sela) e do mito, isto afirma nos seus poemas ( “in (primeiro:ULISSES”): “O mito é o nada que é tudo./O mesmo sol que abre os céus/ É um mito brilhante e mudo / O corpo morto de Deus,/ Vivo e desnudo./Este, que aqui aportou,/ Foi por não ser existindo./ Sem existir nos bastou./ Por não ter vindo foi vindo/ E nos criou./Assim a lenda se escorre entrar na realidade,/ E a fecundá-la decorre./ Em baixo, a vida, metade de nada, morre”. CONCLUSÃO: ter fé; acreditar, é uma realidade indissociável da pessoa humana. Acreditar em quê?... Em quem?... Cada um que responda por si. Sinal de “fraqueza”, acreditar?... A Providência tem desígnios que nos ultrapassam e que não poucas vezes fazem milagres. Recordamos, neste âmbito da aparente antagonia da racionalidade e da Fé, o episódio na vida de André Frossard. Vamos transportar para aqui um seu testemunho: «Tendo entrado às dezassete horas e dez numa capela do Quartier Latin em busca de um amigo, saí de lá às dezassete horas e quinze na companhia de uma amizade que não era terrena.» “André Frossard tinha 20 anos, era um céptico ateu de extrema-esquerda, de origens judaicas, quando encontrou bruscamente, de forma fortuita, mas instantânea, a verdade cristã, «numa silenciosa e serena explosão de luz». Sem qualquer tipo de evolução intelectual, de inquietação, sem percorrer um longo caminho para chegar até ela, sem procurar nada. "Deus Existe, Eu Encontrei-O" é um testemunho pessoal e emocionante da forma como André Frossard encontrou a sua fé. Um acontecimento que operou em si uma alteração na sua forma de ver, de sentir, de pensar e uma transformação do seu carácter. Num tom intimista, o autor, membro da prestigiada Academia Francesa, traz-nos um relato raro e único que se tornou, em todo o mundo, num clássico da espiritualidade (…). «Ora, acontece que eu sei, de modo extraordinário, a verdade sobre a mais disputada das causas e o antigo dos processos: Deus existe.» Para não irmos atrás no tempo e nos determos no fenómeno da “conversão”, em Lurdes, de Alexis Carrell, médico agnóstico e o “milagre de Marie Bailly”.Procure-se-o na internet. Porém, muito antes disso e ainda nem televisão havia, já nós tínhamos lido um livro, lido de lá de cimo de um púlpito do enorme refeitório, durante as refeições, em silêncio, do almoço. Numa dupla refeição – a do alimento do corpo, mas também o da alma pela meditação em silêncio. Sem pretendermos elaborar estes nossos textos num novo “Manual de Apologética”, vem este introito, amigo que nos está a ler, a propósito das lendas e tradições no género da linguagem do POVO “cada terra com seu uso. Cada roca com seu fuso”. E se há tradições – neste nosso caso das tradições baseadas na FÉ, mas onde também entra a lenda – específicas de cada terra, elas não deixam também de ser transversais a outras localidades e regiões, sejam elas vizinhas ou de longe. Assim, numa série de textos, iremos partilhar consigo, por exemplo, a devoção ao “Senhor Jesus Crucificado” ou ao “Senhor Bom Jesus” de modo genérico. E de modo mais particular, a devoção ao “Senhor das Chagas” ou “Senhor das Cinco Chagas”, ou ao Senhor Bom Jesus das Cinco Chagas, devoção esta que é particularmente muito querida na freguesia de Infias. E na qual e na altura própria, nos iremos deter. O caso da devoção ao “Senhor das Cinco Chagas” em Infias é na caminhada ao longo da numerosa e extensa procissão do clamor até ao monte de Lijó, lhe revelará até que ponto será ou não uma pessoa de FÉ. A devoção ao Senhor das Cinco Chagas em Infias contém, implícitas em si, uma série de curiosidades e pormenores que desde há muito nos vêm despertando a atenção. E muito mais ainda desde quando, por coincidência “descobrimos” um trabalho “cientifico” sobre a devoção ao Senhor das Chagas… mas em Sesimbra ( Ruy Ventura, investigador). Com uma ou outra coincidência, onde também a apropriação, pelo POVO, da lenda ajustada ao sabor do seu narrador. E de arrasto, a outras devoções sob a mesma invocação, ou parecidas ou até mais alargadas na denominação. Mas todas tendo como base o “Senhor Jesus Crucificado”. Com o abraço amigo sempre.