A Propósito do Senhor das Cinco Chagas de Infias

Pedro Marques

2020-07-02

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IV O Senhor Bom Jesus de Matosinhos


Desta vez, prezo leitor amigo, vamos debruçar-nos sobre a lenda do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, com alguns com alguns rodapés a propósito, mas, e “de raspão”, sobre os “calvários”. Todavia, não nos esqueçamos que todas estas lendas têm correlação com o Senhor das Cinco Chagas de Infias. Lás chegaremos, prezado leitor amigo! Na devoção ao Senhor Bom Jesus de Matosinhos, há também um dado novo: se o dia três de Maio se mantém, o “milagre” aconteceu muito antes no sec.II da nossa Era. Referindo-se que a imagem era “(…) A mais bela e perfeita de todas, a que melhor reproduzia a face de Cristo – por sinal a primeira que havia sido esculpida – depois de cruzado o estreito de Gibraltar e sulcado o Atlântico junto às costas portuguesas, acabou por ser depositada pelas águas na praia do Espinheiro, junto ao lugar de Matosinhos. Estávamos, ainda segundo a lenda, no dia 3 de Maio do ano 124(…)”. A lenda em que se baseia a devoção ao Senhor Bom Jesus de Matosinhos é a seguinte, de acordo com literatura à disposição de quem a procure… “Embora tipologicamente seja possível enquadrar esta escultura na transição do românico para o gótico, e datá-la entre os últimos anos do século XII e os primeiros do XIV, a origem lendária deste crucifixo está, no entanto, profundamente enraizada na comunidade e na tradição popular. Segundo esta, o autor da imagem é Nicodemos, personagem bíblica que, com a ajuda de José de Arimateia, retirou Cristo da cruz e o depositou no sepulcro. Impressionado com os acontecimentos que testemunhara, e porque era bastante dotado para o trabalho em madeira, Nicodemos resolve esculpir diversas imagens de Cristo crucificado, sendo auxiliado nesse seu trabalho pela circunstância de possuir o santo sudário – o tecido que, por ter envolvido o ensanguentado corpo de Cristo, reproduzia fielmente a imagem e as feições de Jesus” (…) “(…) Estas esculturas não permanecerão, contudo, muito tempo na sua posse. Sendo comprometedores indícios face às perseguições de que os cristãos são vítimas por parte dos judeus e romanos, Nicodemos lança as suas imagens às águas do Mediterrâneo. A mais bela e perfeita de todas, a que melhor reproduzia a face de Cristo – por sinal a primeira que havia sido esculpida – depois de cruzado o estreito de Gibraltar e sulcado o Atlântico junto às costas portuguesas, acabou por ser depositada pelas águas na praia do Espinheiro, junto ao lugar de Matosinhos. Estávamos, ainda segundo a lenda, no dia 3 de Maio do ano 124. Recolhida a imagem na praia pela população, constatou-se, contudo, que lhe faltava um dos braços. No local não se encontrou o membro em falta e, por muitos braços que se tenham mandado fazer aos melhores artífices, nenhum encaixava de forma perfeita no ombro amputado. E assim, resignados, deixam ficar a imagem resguardada no Mosteiro de Bouças, localizado não muito longe do local do seu aparecimento”. “Cinquenta anos depois, na praia, uma pobre mulher recolhe lenha. De regresso a casa observa, estupefacta, que um grande pedaço de madeira teima em, milagrosamente, saltar do fogo sempre que para ele era lançado. Milagre reforçado por ter sido uma jovem filha a indicar à mãe que a lenha em questão era o membro ausente na imagem do Senhor guardado no Mosteiro de Bouças. Facto que em si não encerraria nada de especial não fosse a circunstância de, até aquele momento, a miúda ter sido surda-muda de nascença” (duplo milagre). “Rapidamente aplicado no crucifixo, de imediato se constatou estar em presença do braço até aí extraviado. Começava assim a veneração desta imagem que, desde muito cedo, fez rumar a Bouças e depois a Matosinhos (após a sua transferência no século XVI para a nova igreja), inúmeros peregrinos e romeiros fascinados com a fama crescente dos seus milagres que, desde então, não deixaram de se multiplicar. Independentemente da lenda, a referência histórica e documental mais antiga, até agora conhecida, à imagem e à devoção que lhe está associada data de 1342. Aquela que é, provavelmente, a mais antiga imagem existente em Portugal de um Cristo crucificado, em madeira e em tamanho natural, datará de um período compreendido entre os finais do século XII e os inícios do XIV, na transição do românico para o gótico”. Nestes relatos da mesma lenda, há as tais diferenças inevitáveis: Em Sesimbra, é uma velhinha que anda à lenha na praia. Em Fão, a referência é a “uma pobre mulher” que anda na praia à lenha e tem uma filha que alerta para o facto de o tronco na lareira ser um braço. E de surda-muda que era, por milagre ter passado a falar. Para além da origem das imagens lançadas ao mar terem sido nos mares da Inglaterra e no Mediterrâneo. (…) Por sua vez, na lenda do Senhor das Cinco Chagas de Infias, há também outros pormenores. Implícitas a todas estas devoções tendo por centro o Senhor Jesus Crucificado, estão também as deslocações à Terra Santa pelos cruzados, para defesa dos lugares santos pelos seculos XII e XIII e a devoção à “Via Crucis”, ou reconstituição meditativa dos passos de Jesus no percurso da Sua Paixão e Morte, depois muito desenvolvida nas “vias sacras” dentro dos templos, cada uma com a sua moldura alusiva, nalgumas das quais restando apenas ao cimo e logo abaixo do tecto, as simples catorze cruzes. A igreja de S. Miguel exibe, nos seus vitrais laterais ao cimo, pinturas alusivas à referida “Via Crucis”, ou “calvário”. E recordamos que nos adros e arredores das igrejas de Vizela, havia muitos “calvários” de alguns dos quais restam apenas ou as ruas do ”Calvário”, ou o lugar do “Calvário”. Ainda nos foi possível ver o “calvário” de Sta Eulália na sua integridade de cruzeiros, desde o adro da igreja até lá acima à entrada do cemitério. Fizemos uma reportagem sobre o “Calvário” de Sto Adrião, que tem, até, a sua monumentalidade, mas que, em nossa opinião, estará ao abandono e em risco de desintegração. Em devido tempo chamámos a atenção à respectiva autarquia para esta ameaça. Em risco de abandono, estará também o de S. Paio. Quanto ao de Tagilde, e que em tempos vinha do Souto até ao adro, todos os cruzeiros e desde há muito estão integrados na estrutura dos próprios muros que o mesmo adro protegem. A par do que iremos ler, lá mais para diante em relação à imagem do Senhor das Cinco Chagas de Infias, num clamor em Guimarães por causa da seca,, leia-se esta passagem idêntica do SBJesus Matosinhos “em «Junho do ano de 1526, por ocasião de um largo período de tempestades que destruíram as colheitas e desvastavam os haveres dos pobres, semeando a fome, foi a imagem levada em procissão de Matosinhos à cidade do Porto, sendo, assim, causa de bonança pois serenaram-se os ares» (Cerqueira Pinto, António) . E numa segunda vez e por causa de uma crise de seca prolongada, a milagrosa imagem de novo percorreu as ruas do Porto e a chuva aconteceu! Iremos ver ainda, quando nos debruçarmos sobre o Bom Jesus do Monte de Braga, que esta devoção teve o seu incremento nos assuntos tratados aquando do Concílio de Trento. Em Codeços (ou Codessos), Paços de Ferreira, existia há trinta anos, um calvário muito singular: situado na direita da estrada no sentido de quem viaja com destino a Paredes ou Penafiel. Estava esse calvário concentrado num pequenino espaço com ascatorze cruzes e rematado, no cimo pelas três cruzes – a do Senhor e as dos dois ladrões. Isto, quando o visitámos. Hoje, parece-nos, tal calvário está num espaço mais dilatado com as cruzes mais dispersas e fora do primitivo sítio. Com o abraço amigo de sempre,