A PROPÓSITO DA DEVOÇÃO AO SENHOR DAS CINCO CHAGAS DE INFIAS - VI

Pedro Marques

2020-07-30

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O SENHOR DAS CINCO CHAGAS DO BOM JESUS BARROSAS


Nesta digressão pelas devoções ao Senhor das Chagas a propósito da mesma na vizinha freguesia de Infias, desta de Infias nos estamos aproximando … e lá chegaremos! Hoje, prezado leitor, situemo-nos sobre a devoção ao Senhor Bom Jesus que não tem a data comum de três de Maio, mas acontece noutras datas. E neste caso do Senhor Bom Jesus das Cinco Chagas de Barrosas, a lenda nada tem a ver com as (quase) comuns. E vamos dividir em duas partes esta nossa pesquisa, uma vez que iremos transcrever na íntegra a lenda em que se fundamenta a devoção. Comecemos pelo que consta da página da Junta de Freguesia. Em Idães (Barrosas) a quem é dedicada a igreja do “Bom Jesus e Senhor das Cinco Chagas”, com confraria do mesmo nome “Senhor das Cinco Chagas: “(…) As origens deste santuário de vocação cristológica encontram-se na visão de um pastor, de seu nome Domingos França, a quem Cristo se teria manifestado (FERNANDES, 1989, p. 144). Em consequência deste milagre, o pastor mandou construir, em 1672, a expensas suas, uma pequena capela para a qual o seu irmão veio a adquirir uma imagem de Cristo Crucificado, executada por um escultor de Barcelos (hoje no cemitério atrás da igreja) (IDEM)”. A muita devoção ao Bom Jesus de Barrosas levou a que o templo primitivo se revelasse demasiado pequeno pelo que, no último quartel do século XVIII, foi construída a igreja que hoje se conhece. Não se sabe ao certo em que anos foi erguida, mas a data de 1798 presente nas grades do adro ajudam a balizar a edificação, datando certamente uma fase final da campanha de obras, isto é, de arranjos na envolvência. A igreja é envolta por um adro gradeado, apenas aberto em frente do portal principal, com escadaria de acesso. Todavia e se assim é, nós temos uma outra versão, bem muito mais desenvolvida e ligeiramente diferente em alguns pormenores. Segundo o livro “Pachecos” de Abílio Pacheco de Carvalho – subsídios para a sua genealogia” – Lisboa 1985 e gentilmente oferecido pela exma Dra Maria José Pacheco nossa especial amiga e companheira e líder do grupo “colóquios de amizade” (se não estamos errado) e que há mais de trinta anos, em termos de promoção cultural, teve a sua dinâmica e o seu impacto em Vizela. Nesse livro a páginas 554 e sob a identificação de documento nº21, consta o seguinte: Fundação da capela do Bom Jesus de Barrosas”: “A capella do Bom Jesus de Barrosas a sua erecção consta segundo huma declaração abaixo transcripta. DECLARAÇÃO. O P. Bernardo Jesus Cerqueira Capellão do Santuário do Bom Jazues de Barrozas por não achar nos livros ou papeis pertencentes ao Santuario o modo ou principio que teve o dito Sanctuario e por me constar de tradição d’alguns homens velhos que eu mesmo ouvi me determino a narrar aqui fielmente a historia da fundação deste Sanctuario no anno de 1798”.x “Sendo os anos do Senhor de mil e seis centos e sincoenta e tantos andando Domingos de França filhs de Gaspar Antonio Pacheco do lugar de Sima de Villa da Freguezia de Stº. Estevão de Barrozas guardando como menino os seus gados no lugar chamado a Carreira dos Fetos que era por onde hoje hé a Sacrestia Ahi dizem huns lhe aparecera hum menino com huma bola na mão querendo jogar com elle, outros dizem lhe aparecera huma pomba muito bonita, e que os mais meninos companheiros nada virão; e hum dia estando ele só no mesmo sitio que era por modo de lameira aonde os meninos brincavam lhe aparecera hum homem em figura de pobre e lhe preguntara donde elle era, e depois de elle lho dizer lhe dicera dissesse a seu Pay que mandasse fazer huma Jmagem do Senhor Crucificado com o titulo do Senhor Bom Jezus de Barrozas e a colocasse naquele citio, e lhe fizesse uma capellinha, e dezapareceo; ficou o pastorzinho Domingos de França atónito por se achar só, porem quando foi para Caza contou o sucesso a seu Pay do que elle não fez caso por ser cousa de crianças, dahi a tempos succedeo hir o pastorzinho Domingos de França para o Brasil aportou na Bahia aonde se substabeleceo por alguns anos os quaes passados lhe voltou lhe tornou lá aparece aquelle mesmo homem com a mesma figura que cá lhe tinha aparecido e lhe preguntou se lhe lembrava o que ele lhe tinha dito na Carreira – Carreira dos fetos ao pé da Crus da Portella que dissesse a seu Pay ao que elle disse que sim, novamente lhe tornou a dizer mandasse fazer huma Jmagem do Senhor Cruçificado e que havia de ser feita em huma loje, que havia na Rua Direita da Villa de Barcelos e a colocasse no sitio da Carreira dos Feitos com Titullo de Bom Jazus de Barrozas e ahi lhe fizesse hua capelinha para abrigar a dita Jmagem e qe pº isso mandasse elle huma esmola. Já nesse tempo tinha o ditto Brazileiro com quê, e mandando trinta mil reis, e ordem para se fazer a dita Jmagem e Capelinha com a maior brevidade logo que lá chegou este determina”. “Determinação foi Gonsallo Antonio Jrmão do dito para Barcellos, e achando a loja aonde se havia de fazer a Jmagem disse ao mestre o que pertendia, e entrando hum homem pobre em figura de romeiro esteve ouvindo que se pertendia, e disse que se lhe dessem a madeira e ferros faria a dita Jmagem a que mestre anuio dizendo para o que a encomendava que se tivesse alguma imperfeição elle a desfaria, e faria outra. Pegou o peregrino nos ferros e fez a Jmagem como se acha na tribuna Velha com o Titullo de Bom Jesus de Barrozas e Senhor aparecido, e entregando a Jmagem e os ferros ao Mestre lhe disse que aquella”. “Aquella Jmagem a devia vir emtregar o Padre João da Rua travessa a Gonsallo Antonio da Caza. De Sima de Villa da Freguezia de Stº Estevão de Barrozas, que elle lhe pagaria, o que elle fez conduzindo a dita Jmagem em hum esquife conduzido por quatro homens. O peregrino se abzentou nãó querendo receber nada pelo seu travalho”. “Succedeo isto no anno de mil seis centos e setenta e dois, logo se deo prinçipio à Capelinha, e como era piquena se fes com brevidade havendo muitos devotos que trouxessem a pedra e dessem esmolas de que sorte que ainda ainda os trinta mil reis chegavam para comprar duas medidas de pam para a fabrica as quaes comprou Gonsallo Antonio como Procurador de seu Jrmão Domingos de França que ficou sendo fabriqueiro com as duas medidas compradas a Belaior Fernandes do lugar da Venda obrigando o campo chamado a preza das vinhas, cuja compra foi feita em anno de mil seiscentos e três”. Com o abraço amigo de sempre, concluiremos, no nosso próximo encontro nas páginas deste semanário “RVJornal”, a transcrição da lenda que deu origem à devoção do Senhor Bom Jesus das Cinco Chagas de Barrosas.