A mensagem da chuva

Carina Flor

2023-01-19

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Não podemos falar de água, sem falarmos de emoções. A água é o elemento mais poderoso que existe, o maior protagonista na história do dilúvio e, por maiores que sejam as catástrofes, a água nunca nos separa. Tal como acontece com o planeta, os continentes não estão separados por mares e oceanos. Por baixo dos mares e oceanos, os continentes mantêm-se unidos e foi preciso passar uma noite no hospital a cuidar do meu filho, no período pós-operatório, para perceber a verdadeira mensagem da chuva. Só precisei de umas horas de total distanciamento do mundo para desvendar a posição de algumas peças de um puzzle que tenho vindo a (des)construir nos últimos tempos. 

Naquela noite, enquanto o pequeno dormia, chovia. Chovia tão torrencialmente que havia inundações e enxurradas por todos os cantos do país e a televisão enchia o silêncio daquele quarto de hospital com imagens das previsões e dos acontecimentos mais aterradores. Desliguei a televisão. Reduzi o silêncio a pouco mais do que o som das nossas respirações e também fechei os olhos, almejando tocar o mundo lá fora com a chama que se mantinha acesa no meu peito. A mesma chama que as mães acendem sempre que os filhos dormem, afastando a interferência de todos os medos que possam abalar o sono deles (e a nossa fé). 

Foi então que me lembrei novamente da chuva e fui vê-la mais de perto junto à janela do quarto. Não havia outra forma de comprovar que a chuva caía do céu, com aquele vigor noticiado pela comunicação social, sem que a testemunhasse com os olhos. Recolhi a cortina e o meu coração expandiu-se para dentro. Não podia acreditar! Imersa num silêncio quase absoluto (não fossem os sons que vinham dos movimentos de aconchego do pequeno nos lençóis da cama) e rendida ao deslumbramento, tudo se reorganizou no meu mundinho interior quando percebi que, apesar da violência da chuva lá fora, dentro daquele quarto não havia um único ruído de pavor, não se sentia um único estremecimento e o ar era seco e plácido. 

Naquele momento, o vidro da janela, já muito alagado da parte de fora, era muito semelhante à tela da televisão. Se eu fechasse a cortina seria como se desligasse o mundo lá fora. Assim o fiz. Enquanto a cortina deslizava, entorpecendo a imagem do exterior, sentia que me afundava dentro de mim como que abraçando uma enorme vertigem antes de cair na solidão do mundo. 

No meio do caos, se soubermos mergulhar nas águas mais profundas do nosso ser, nunca estaremos sós. Seremos povos unidos pela turbulência das águas que se agitam na forma de tempestades para nos levarem ao encontro, para nos fazerem naufragar na emoção do outro, para nos lembrarem que o medo da união é o único navio que nos deixa à deriva. 

Naquela noite, aquele quarto foi porto seguro rendido ao amor, ao cuidado e ao zelo. Ali, eu fui espaço incólume no meio de uma tempestade e esta foi a mensagem que a chuva me trouxe. Como uma cortina, recolho-me e observo. Fico do lado de cá, com os pés firmes junto à janela da vida. Fico na certeza do que em mim mora. 

Os medos, por mais elaborados que sejam os seus fundamentos, são sempre infundados e são os grandes equívocos de quem fica preso do lado de fora.