A captura do desporto e a perda da sua alma

Jorge Machado

2026-08-20


O desporto sempre foi visto como um espaço de liberdade, mérito e superação. Um lugar onde o esforço encontra recompensa, onde as regras valem para todos e onde o resultado deve depender, acima de tudo, do que acontece dentro do campo, da pista ou do pavilhão. Mas a verdade é que esta imagem, embora ainda sedutora, já não chega para explicar a realidade do desporto contemporâneo.

Nos últimos anos tornou-se cada vez mais visível um fenómeno inquietante. O desporto tem vindo a ser capturado por interesses económicos, políticos e mediáticos que, não sendo necessariamente ilegítimos, acabam muitas vezes por condicionar a sua essência. A questão central já não é apenas saber quem ganha ou quem perde. A questão é perceber quem influencia, quem decide e a favor de que interesses.

Hoje, o desporto de alto rendimento move-se num universo dominado por direitos televisivos, patrocínios milionários, mercados de transferências, apostas e estratégias de comunicação global. Tudo isto faz parte da sua evolução e seria ingénuo ignorá-lo. O problema começa quando o desporto deixa de comandar estes interesses e passa a ser comandado por eles.

Quando os calendários competitivos são organizados em função das audiências e não da saúde dos atletas, algo se perdeu. Quando as decisões das federações ou de outras estruturas dirigentes parecem responder mais a equilíbrios de poder do que a critérios de justiça, transparência e mérito, algo se degradou. Quando os clubes deixam de ser comunidades desportivas com identidade própria e passam a ser meros ativos financeiros, algo de essencial se desfigurou.

É certo que a corrupção mais visível continua a merecer atenção. A manipulação de resultados, os esquemas de favorecimento, o tráfico de influências ou os conflitos de interesse permanecem como ameaças sérias. Porém, o problema maior pode ser ainda mais subtil. Está na erosão lenta da integridade do sistema, na normalização de pequenas cedências, na aceitação silenciosa de práticas que, sem romperem formalmente com a legalidade, fragilizam os fundamentos éticos do desporto.

É por isso que a discussão sobre integridade e boa governação se tornou incontornável. Já não basta exigir cumprimento da lei. É necessário exigir instituições desportivas transparentes, processos de decisão escrutináveis e mecanismos de controlo independentes. Falar de compliance no desporto não é um capricho técnico nem uma importação académica. É uma exigência de maturidade institucional.

Portugal tem também de enfrentar este debate com seriedade. Embora a escala dos problemas possa não ser comparável à de algumas grandes organizações internacionais, persistem fragilidades conhecidas. Há défices de transparência, excessiva personalização do poder, insuficiente profissionalização de dirigentes e uma cultura organizacional que ainda tolera demasiadas zonas cinzentas. Ora, o desporto não pode continuar a pedir reconhecimento público e apoio estatal sem aceitar, em contrapartida, padrões elevados de responsabilidade e prestação de contas.

Defender a integridade do desporto não é um exercício moralista. É uma exigência cívica e democrática. Isto porque o desporto não é apenas entretenimento. É também educação, cultura, exemplo e formação.