A propósito do Senhor das Cinco Chagas de Infias - VII

Pedro Marques

2020-08-13

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AINDA O SENHOR DAS CINCO CHAGAS DE BARROSAS


Cremos, prezado leitor amigo que estará recordado ainda da primeira parte da lenda que deu origem à devoção do Senhor Bom Jesus das Cinco Chagas de Barrosas. Tem, agora, a segunda parte e do fantástico à volta da fé na imagem milagrosa. “Com o decurso dos anos forão concorrendo muitos fieis a vezitar a Sancta Jmagem, tanto deste Reijno como do Brazil oferecendo muitas esmolas com as quais se foi fazendo este Sanctuario – “Ouverão Jrmitães apresentados pelos Abbades desta Igreja, e confirmados pelos Arcebispos, que pedião no S. Miguel esmolas, que sendo em tamanha abundançia, que era necessário terem tulhas, cubas pelas freguesias vizinhas como era em Roriz e Avelleda. Foi hum destes Jrmitães pedir ao Brazil com hum Crucefiçozinho, que ainda hoje existe na sacristia- “ “Foi vezitado este Sanctuario pelo Senhor Arçebispo D. Rodrigo de Moura Télles aos três dias do mez de Julho de mil sette centos e noventa aonde ordenou varias couzas como se ve dos capítulos da Vizita. No anno de e sette sette centos e outenta alagouse a Capella Mor para se acrescentar e pôr tribuna nova, alagou-se tão bem a Sacrestia que havia da parte do Evangelho e por simo do arco seis palmos ainda se conserva a porta nos termos de se abrir querendo se fazer Sacrestia. -“Colucou-se nesta igreja com consentimento do Rdo. Abb.e o Santissimo Sacramento no anno de mil e sete centos e outenta e sette. –“Estas lembranças copiei de hum livro velho onde estavão. Escritas por letra do Rv.do Bernardo João Cerq.ra.” “St.ª Maria de Idais 18 7bro de 1884. O Abb. Antº Marçal da Mesqtª.” “Logo que. se fez esta Capella do Senhor Bom Jazues de Barrozas, tomaram conta della os R.R. Abbades de St.º Estevaó de Barrozas, e administrarão as esmolas, e nomiarão Irmitães desde sua instalação que foi em mil e seis centos e setenta e dois athe mil e seis centos e oitenta e hum em que foi reivindicada pelo Abb.e desta Freguezia com fundamento de estar dentro dos seus limites, do que hà Seneça no Cartorio da Igreja. - “Ouve neste Sanctuario huma Confraria chamada das Chagas com instatutos aprovados pelo Excelentissimo Ordinario que para a sua instalação concedeu licença que se acha Registada no L.º dos Rezíduos N.17 a fls. 23 ou 24 e no L.º 8 afs.” E aqui fica, transcrita “ipsis verbis”, a “história” e apêndices da origem da devoção ao Senhor das Cinco Chagas do Bom Jesus de Barrosas com muitos pormenores curiosos à mistura e – quem sabe? – que nos levarão a visitar este santuário aqui tão perto de nós e nas águas vertentes onde acaba o vale do Vizela e começa o vale do Sousa e até onde chegou o concelho de Guimarães já no sec. XIX. É nossa convicção de que o estimado leitor tem vindo a estar atento às celebrações e solenidades do Senhor Bom Jesus das Chagas ou das Cinco Chagas; do Senhor Bom Jesus dos Passos ou simplesmente da “festa das cruzes”. Coincidentes, quase todas com a celebração do dia três de Maio. Deixámos, já a nossa convicção de que as devoções neste âmbito na região do Minho deverão ter a sua raiz, no Concílio de Trento. No caso minhoto, mas não só, por dinamização de D. Frei Bartolomeu dos Mártires. Porém, esta devoção às “cruzes” não é (era) exclusiva da Minho pois dela há conhecimento no seio das montanhas de Montemuro. Mais especificamente, no concelho de Castro Daire, freguesia de Pinheiro. A arquidiocese de Braga, séculos atrás abrangia muito do território que hoje é das igrejas(dioceses) de Vila Real e Miranda-Bragança e teve por sufragâneas as dioceses de Coimbra, Lamego, Idanha e Viseu. Não admira, assim, que à dioceses de Braga se deva a devoção às Cruzes no seio das Montanhas de Montemuro. Além de ter existido na cidade de Lamego, o convento de clarissas - as freiras da “Ordem dos Frades Menores, encerrado em 1906, por morte da sua última abadessa. A propósito da solenidade e celebração das festas das cruzes, recuemos então às montanhas de Montemuro e leiamos esta passagem que vamos partilhar consigo, de uma tradição referida nas memórias paroquiais de 1758 em relação à tal freguesia de Pinheiro… (…) “Na vizinha freguesia do Pinheiro, uma tradição local revelava em 1758 outra função para aquela tipologia de espaços religiosos (ermidas e capelas). No lugar da Desfeita a capela dedicada à Virgem da Piedade «instituída e fabricada por tradição antiga por hum homem que foj ao Brazil» tinha associada uma albergaria tendo sido dotada pelo instituidor com vários legados destinados aos passageiros e pobres que deviam ser agraciados com esmolas pela Santa Cruz de Maio e no Dia da exaltação de Setembro (…)”. Ora, pela “Santa Cruz de Maio”, tinha de ser nas solenidades do dia três. Em relação ao “dia da exaltação (da Sta Cruz) de Setembro, há, na verdade uma solenização própria da “Festa da Exaltação da Sta Cruz. Relacionada com a das “Cruzes”, mas celebrada em catorze de Setembro, porque foi neste dia que a cruz descoberta por Sta Helena foi exposta ao culto na igreja do Santo Sepulcro. Mas não se esgotam nos casos referidos até aqui as celebrações e solenidades em relação à Sta Cruz, “festa das cruzes” etc.: Tondela, em dez de Março deste ano, para concorrer às “sete maravilhas”, propôs a solenidade da freguesia de Guardão (Caramulo). Com a sua riqueza de etnografia religiosa. É uma festa que reúne muitas cruzes devidamente enfeitadas e à qual concorrem multidões de pessoas. Neste contexto de “cruzes enfeitadas ou engalanadas”, recordamos o maravilhoso espectáculo da recolha das cruzes das visitas pascais e que, ao findar da tarde na freguesia de S. Miguel, desde o quartel dos bombeiros à igreja paroquial, em solene desfile ao som do tilintar das campainhas e sob o ritmo marcial dos bombeiros em uniforme a rigor, essas mesmas cruzes pascais e já no adro da igreja, são exibidas com belíssimos arranjos de flores. Poderemos recordar, também mas situados no dia três de Maio, o asseio de flores que se fazia “nas festas das cruzes” dos cruzeiros que havia nas aldeias, sítios estratégicos para as procissões que da igreja iam ao cruzeiro dar a volta para o regresso à mesma igreja. E isso também se fazia no cruzeiro que havia ao largo do adro da igreja velha. E vamo-nos repetir: desse cruzeiro, chegámos a ver pedaços do fuste arrumados à direita de quem entra na antiga residência paroquial. E onde hoje fica a que foi a Rua da Nogueira e hoje de Mons. Monteiro, era também parte do largo do cruzeiro. E nas próxima vez, começaremos a partilhar consigo o que recolhemos sobre a devoção ao Senhor das Cinco Chagas de Infias.