Vizelense Rafael viveu 40 dias entre a natureza selvagem

O vizelense Rafael Silva, 20 anos, natural de Santo Adrião, concretizou este verão um sonho que trazia desde criança. Estudante do terceiro ano da licenciatura em Biologia, na Universidade de Aveiro, com o objetivo de se especializar na área da Ecologia, passou 40 dias na África do Sul, integrado num projeto internacional de conservação da natureza, numa reserva privada próxima do Parque Nacional Kruger.

No regresso a Vizela, Rafael Silva esteve no Especial Informação da Rádio Vizela, onde falou sobre a paixão pelos animais, a experiência em África, as aprendizagens que trouxe consigo e o próximo desafio académico, desta vez na Croácia.

 

Quem é o Rafael Silva?

Sou uma pessoa que, desde pequeno, sempre tive sonhos muito ligados ao mundo dos animais. Sempre foi uma grande paixão minha. Sinto que, desde que me conheço por pessoa, sempre foi o meu maior objetivo: estar perto deles, poder ter esta experiência. Foi uma grande realização.

Foi essa paixão pelos animais que te levou a escolher Biologia?

Foi um pouco essa paixão combinada com ir crescendo e percebendo melhor o que queria fazer à volta dessa ideia. Quando era mais novo, queria ser veterinário, mas, conforme fui crescendo, fui percebendo que o que gostava realmente de aprender e fazer era perceber como é possível conservar e encontrar maneiras de proteger a vida selvagem, tanto na natureza como fora dela, em sítios urbanos ou em qualquer lugar, e não tratá-los ou tratar uma doença. Percebi que a Biologia era a área que mais me interessava, porque estuda um pouco como a vida funciona e como podemos protegê-la de diferentes formas.

De onde vem esta ligação tão forte à natureza e aos animais?

Eu acho que esta paixão veio do meu avô, lado da mãe. Não o cheguei a conhecer, mas toda a gente me diz que era uma pessoa muito ligada aos animais e à natureza. Eu, desde pequeno, sempre gostei muito de ler livros sobre animais. Aprendi a ler com 3 anos precisamente porque queria aprender muito e estava muito interessado em ler sobre os animais. Em vez de ver desenhos animais, via documentários da natureza. Por isso, desde pequeno, sempre fui muito interessado em todo esse tema. Não sinto que essa paixão veio de alguma coisa que aconteceu na minha vida; sinto que já nasci com ela.

E o sonho de conhecer África? Lembras-te de quando percebeste que querias mesmo concretizá-lo?

Não me lembro especificamente, porque sempre que me lembro de mim como pessoa, acho que teve a ver com os documentários. A maioria dos documentários eram lá e eu sempre que me lembro que foi o meu maior sonho, o que queria mais visitar, era ir lá. Não sei o momento específico em que houve esse clique. Sinto que foi uma coisa que fui adquirindo ao longo do tempo.

Quando começaste a procurar uma oportunidade para participar num projeto desta dimensão?

Isso começou em 2024. Estava no primeiro ano do curso e comecei a ouvir falar de alguns projetos em que algumas pessoas do curso já tinham participado. Comecei também a pesquisar, por conta própria, na internet alguns projetos de voluntariado e foi aí que percebi que queria mesmo fazê-lo e concretizar isso.

O que procuravas concretamente nesse projeto?

Estava à procura de uma experiência que me fizesse aprender sobre conservação. Queria uma experiência autêntica, que não fosse apenas uma forma de ganhar dinheiro, mas sim um programa real de conservação. Queria ter a certeza de que estava num ambiente que fosse natureza e não um parque disfarçado para que as pessoas acreditem que aquilo é natureza. Queria um programa que respeitasse a vida selvagem daquele lugar e perceber que estava a fazer alguma diferença para a conservação e não apenas numa simples viagem.

Foi difícil encontrar esse projeto?

É um pouco difícil, porque existem vários programas que fazem parecer que são de conservação, mas, na verdade, são só formas de ganhar dinheiro. Eu consegui perceber que era um programa autêntico porque vi as associações com quem trabalhavam, que, no caso, eram as Black Mambas, uma associação que já tinha ouvido falar há muito tempo e que trabalha numa conservação real dentro da própria natureza, no combate à caça furtiva. Percebi que, se trabalhavam com isto, era uma organização credível e que valia a pena o meu esforço. Também percebi através de pessoas que contactei, que já tinham estado lá, que realmente era o que estava à procura.

Acabaste por escolher o Transfrontier África. Foi a opção que fazia mais sentido para ti?

Sim, exatamente. Também influencia a parte monetária, porque, apesar de tudo, precisamos de pagar pela hospedagem e pela alimentação e é muito frequente que estes programas sejam exorbitantemente caros. Temos de fazer uma avaliação de tudo, encontrar um meio-termo e, principalmente, perceber se o programa é realmente sobre conservação.

E, olhando agora para a experiência, correspondeu às expectativas?

Correspondeu completamente às expectativas. Sinto que nada poderia ter sido melhor, honestamente, por mais que isto pareça cliché. Sinto que trabalham na conservação de uma forma muito ética e correta, sem nunca desrespeitar os animais, principalmente, e tentando sempre encontrar maneiras não invasivas de estudar e perceber melhores formas de conservar o ambiente. Foi tudo o que eu estava à espera e também gostei principalmente da forma como eles respeitam os animais.

No dia 04 de julho partiste para a África do Sul. O que sentiste quando percebeste que estavas finalmente a caminho de concretizar um sonho de infância?

Senti primeiramente um bocado de receio porque, afinal de contas, estava a ir sozinho para outro lado do mundo e nunca tinha viajado sonho. Tinha receio de que alguma coisa pudesse correr mal, mas, ao mesmo tempo, estava a sentir-me muito realizado e feliz porque era uma coisa que sempre quis desde pequeno. Honestamente, só comecei mesmo a acreditar quando aterrei. Era uma coisa que estava a ser difícil processar, mas senti-me muito realizado quando estava a ir para lá.

Havia, então, uma mistura de medo e entusiasmo?

Uma mistura dos dois. Mas o que também aprendi foi que, muitas vezes, o medo faz com que as pessoas deixem de cumprir certos sonhos e tenham medo de ir sozinhas para algum lugar ou de fazer alguma coisa. Acho que o que tiro disto é que, se uma pessoa tem essa vontade e tem essa oportunidade, principalmente, porque não chega só ter vontade, é preciso oportunidade, as pessoas precisam de o fazer, mesmo sozinhas e em qualquer situação. É mais fácil do que parece viajar. Acho que, mantendo a calma e seguindo, é possível viajar sozinho e conseguir orientar-nos. Muitas vezes, é o medo que dita o que vamos fazer ou não e acho que, se uma pessoa tem um sonho ou vontade de fazer algo, é possível fazê-lo, principalmente porque não é assim tão complicado como parece.

Chegaste a uma realidade completamente diferente. Qual foi a primeira grande diferença que sentiste?

Diria que a principal diferença foi chegar à reserva e sentir que estava num mundo diferente. Um pessoa chega lá e acaba por se desconectar um bocado daquela vida urbana, de barulho e movimento, e acabamos por sentir mais a natureza na nossa pele, sentir mais a calma. Acho que isso é uma coisa muito benéfica. Pode ser assustadora no início, porque uma pessoa olha à volta e só vê natureza, não vê movimento, mas acho que é uma coisa que faz muito bem à nossa própria cabeça. Estamos constantemente habituados ao movimento dos carros e ao barulho e acho que isso acaba por ser uma coisa que nos faz bem e, muitas vezes, nós não sabemos que precisamos.

Como era o teu dia a dia na reserva?

Acordávamos cedo, por volta das sete da manhã. Primeiro tomávamos o pequeno-almoço e depois saíamos para o campo. Todas as semanas tínhamos um programa de atividades para fazer com diferentes projetos de conservação e o nosso dia a dia era orientado com base em cada tarefa específica que tínhamos para fazer. Passávamos o dia interno no terreno, na natureza. Apesar de também dormirmos dentro da reserva, nunca saíamos daquele ambiente. No fim da tarde, como lá no inverno anoitecia muito cedo, por volta das 17H30, às 17H00 já estávamos na reserva para começar a preparar o jantar.

E os encontros com os animais selvagens acabaram por ser alguns dos momentos mais importantes…

Foram definitivamente os meus momentos favoritos da viagem. Muitas vezes, eu sentia, e cheguei a conversar sobre isso com as pessoas que trabalham lá, que, para nós, vindos da Europa, é difícil até processar que aquilo é natureza. Nós aqui, em 90% dos lugares, não estamos habituados a ver animais selvagens na natureza. Lá é muito comum uma pessoa estar dez minutos dentro da reserva e ver um elefante, um antílope… É muito comum. Diria que foram experiências que ainda hoje não consegui processar completamente. Ainda não consigo acreditar completamente no que vivi, porque tive momentos muito especiais. Um dos momentos mais especiais foi quase no meu último dia na reserva, quando estávamos a ir para o nosso acampamento, onde ficávamos a dormir, e vimos um leopardo numa árvore a comer um cão selvagem africano. E isso foi a primeira vez que foi registado na reserva, ou seja, foi um momento único. O facto de estarmos a dez metros do animal, sozinhos, durante a noite, no silêncio, é uma experiência que é muito difícil esquecer. Sentimo-nos completamente num filme, completamente conectados com aquele momento. Nunca senti medo verdadeiramente, senti apenas respeito. Uma das coisas que mais aprendi lá foi que, a partir do momento em que se respeitam as distâncias de segurança dos animais, normalmente não há perigo, seja a pé ou dentro de um carro. Mas isso também só é possível estando com pessoas que já conhecem aquela realidade e que nos ensinam como manter essa distância dos animais. Foram experiências inesquecíveis.

 

 

“O que se aprende na teoria é muito diferente do que se faz na prática”

 

Uma das áreas em que estiveste envolvido foi a monitorização da fauna. Na prática, em que consistia esse trabalho?

Nós fazíamos vários projetos relacionados com a monitorização da fauna. Fazíamos monitorização noturna e, a cada animal que víamos, tínhamos um instrumento que determinava a distância a que estava do carro. Tínhamos de apontar também a temperatura, as horas, a espécie e quantos animais estavam naquele momento. Isso serve principalmente para, no fim, termos uma estimativa da quantidade de animais de cada espécie que existe. Claro que não é uma estimativa completamente correta, porque existem espécies que são mais difíceis de avistar do que outras, e é por isso que se fazem médias e estimativas. Mas é principalmente para termos uma ideia de como estão algumas populações na reserva, em termos de número. Também fazíamos outros estudos, como a recolha de fezes de alguns carnívoros, que servia para entender como estava a funcionar a cadeia alimentar do ecossistema. Através das fezes conseguíamos estudar a dieta e, sabendo a dieta dos predadores de topo, conseguimos entender como está a funcionar toda a cadeia alimentar. Fazíamos também um projeto para perceber uma forma de manter os elefantes, que são os animais que acabam por ser mais destrutivos para as propriedades na reserva, afastados dessas propriedades. Estávamos a desenvolver uma estratégia através de uma coluna que era instalada em várias propriedades e que reproduzia vozes humanas em volume alto. Estávamos a analisar se isso tinha algum efeito no comportamento dos elefantes para os manter afastados das propriedades.

Tiveste ainda contacto com estudantes de outras universidades que estavam a desenvolver projetos na reserva…

Tive contacto com vários alunos de outras universidades, por exemplo da Holanda, da Eslovénia e da Colômbia. Cada um estava a desenvolver o seu projeto. Estive com pessoas que estavam a desenvolver projetos de análise das dietas de alguns carnívoros, como leões e leopardos, pessoas que estavam a analisar o comportamento dos búfalos e também com uma aluna que estava a analisar câmaras de fotoarmadilhagem para ter uma ideia da quantidade de hienas presentes em alguns lugares da reserva e perceber como o comportamento delas influencia o comportamento de outros animais.

O que é que esta experiência te ensinou que não se aprende numa sala de aula?

Um pessoa acaba por ter uma ideia real de como a conservação funciona na prática, porque o que se aprende na teoria é muito diferente do que se faz na prática. Acho que isso acontece em todas áreas, não só nesta. Consegui perceber como funciona a conservação noutros lugares do mundo e que, muitas vezes, não é um trabalho fácil. Envolve política, porque a reserva é composta por vários proprietários, com ideias, crenças e mentalidades diferentes. É muito complexo ter de, além de lidar com os animais, lidar com as pessoas. Pode ser ainda um desafio ainda maior: estar num lugar com vários proprietários, com ideias diferentes, e querer desenvolver projetos é difícil, porque tem de haver um consenso de todos e, muitas vezes, uma gestão de ideias. É muito mais complexo do que simplesmente conservar a natureza, porque existem muitas pessoas envolvidas e consegue-se ter uma ideia do quão difícil é, muitas vezes, lidar com várias ideias ao mesmo tempo.

Houve algum momento particularmente difícil?

Acho que o momento mais difícil foi mesmo quando saí de lá. Nós vivíamos numa espécie de acampamento, lidávamos e convivíamos com as mesmas pessoas todos os dias e, passado um mês, é muito difícil deixar aquele ambiente. Construímos relações quase como de família, porque passámos o dia inteiro com aquelas pessoas. De um momento para o outro, saber que possivelmente nunca mais as veremos é difícil de lidar. O meu sonho foi movido pelos animais, mas as pessoas que conheci lá também fazem muito parte do quão espetacular foi a experiência. Por isso, diria que o momento mais difícil foi mesmo deixar o local.

Agora que estás de regresso a Vizela, sentes que voltaste diferente do Rafael que partiu no início de julho?

Senti, no primeiro dia em que voltei a Vizela, uma sensação estranha. Senti que quase nada aconteceu, porque passou muito rápido e foi quase como um filme na minha cabeça. Acho que vai demorar ainda a processar tudo o que vivi, tudo o que experimentei e tudo o que senti, porque foi uma experiência que sonhei a vida inteira e correu tudo tão bem que chego aqui e parece que nada aconteceu. Acho que só o tempo vai fazer com que realize, na minha cabeça, tudo o que vivi.

Esta experiência reforçou a tua vontade de continuar a estudar e trabalhar nesta área?

Reforçou a minha vontade de poder ajudar na conservação. Sinto que, muitas vezes, é luta contra a maré na conservação. Existem vários aspetos que remam contra a maré, seja a atividade humana, seja, muitas vezes, as ideias de outras pessoas que têm mais poder do que nós e que ditam o que podemos ou não fazer. Mas sinto que é mesmo o quero fazer e sinto que vale sempre a pena.

E já tens uma próxima aventura académica no horizonte. No próximo ano vais fazer um estágio curricular na Croácia. O que podes adiantar?

Escolhi a Croácia principalmente porque tinha o contacto de um aluno de doutoramento da minha universidade que está lá a fazer um trabalho. Foi assim que conheci esse projeto, que tem sobretudo a ver com lobos e chacais. O que iriei fazer consiste em rever câmaras de fotoarmadilhagem, que são aquelas câmaras colocadas, por exemplo, em árvores ou rochas, que detetam automaticamente o movimento de algum animal que passa e registam o momento, tirando uma fotografia. Vai ser muito a manutenção dessas câmaras. Envolve também a captura temporária de lobos para colocar coleiras de GPS, de forma a identificar os trajetos que fazem e, sobretudo, entender como são evitados os conflitos entre os lobos e as propriedades ou cidades. É muito à volta disso.

Para terminar, que conselho deixas a quem também tem um sonho, mas talvez tenha medo de o concretizar?

Eu diria para pesquisarem muito sobre o que querem e terem a certeza de que aquilo é a experiência certa para vocês. Depois disso, apesar do medo, porque o medo vai existir sempre e é normal, porque temos medo do que não conhecemos, lembrarem-se do sonho que têm e de que isso tem de ser maior do que o medo. Acho que o arrependimento de nunca ter feito é muito pior do que eventualmente irmos e correr mal. No meu caso correu bem, poderia não ter corrido, como tudo, mas mesmo que não tivesse corrido bem, iria sentir-me melhor porque fui. Acho que ir é sempre a melhor opção, porque sentirmos um arrependimento daquilo que não fizemos é sempre muito pior. Apesar dos riscos que existem, porque existem riscos, acho que, tendo as noções do que fazer, pesquisando primeiro sobre o país e sabendo quais são as medidas de segurança, é sempre possível. O meu maior conselho é falar com pessoas que já o fizeram, porque conseguem sempre orientar-nos de uma maneira que sozinhos não conseguimos. E, lá está, o que posso dizer é para seguirem sempre os vossos sonhos, porque, no fim, vale sempre mais a pena do que não ir, mesmo que não corra bem. Pelo menos temos a sensação de que tentámos. Acho que isso é sempre melhor.

 

Pode ouvir a entrevista na íntegra em: https://www.mixcloud.com/Radiovizela/especial-informa%C3%A7%C3%A3o-entrevista-a-rafael-silva/

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