Vizelense integra o Centro Nacional de Cibersegurança

Lara Lima tem 24 anos de idade e é natural de S. Miguel

Lara Lima é técnica no Centro Nacional de Cibersegurança, onde é a responsável pelos cursos no formato e-learning, que permitem, de forma gratuita, que os cidadãos adquiram competências para navegarem na internet de maneira segura. Confira um excerto da entrevista concedida à Rádio Vizela.

Rádio Vizela – A cibersegurança era uma área que lhe atraía ou surgiu por acaso?

Lara Lima – Foi uma área que me veio “matar o bichinho” de muitas coisas ao mesmo tempo, ou seja, eu sempre tive um lado mais humanitário, mas percebi, no início da pandemia, que me iria custar mais do que o que eu planeava ficar muito tempo fora de Portugal, da minha família e dos meus amigos. Paralelamente, fui assessora nas Nações Unidas, no polo de governação eletrónica, e enquanto estava a realizar o meu projeto nas Nações Unidas já se começava a falar muito de cibersegurança e da sua importância, principalmente na governação eletrónica, porque era o polo onde estava alocada, comecei a pensar que, talvez, pudesse juntar a minha paixão por saber mais, pela inovação e tecnologia com este lado mais humanitário, que é tentarmos fazer do dia das pessoas mais seguro e eu encontrei isso na cibersegurança, foi isso que me apaixonou nesta área e o que me fez tirar mestrado, especializar-me e seguir esta carreira.

 

Rádio Vizela – É uma área que tem estado muito em voga, mas é também uma área desafiante…

Lara Lima – No Centro Nacional de Cibersegurança existem vários departamentos, é um trabalho dinâmico, porque o ciberespaço está em constante mudança, precisamos estar constantemente atualizados sobre o que se passa no mundo, sobre o contexto político e geopolítico, até mesmo sobre a pandemia. Precisamos saber o que está a acontecer neste momento para saber se as pessoas estão mais ou menos vulneráveis, ou seja, exige de nós muito esforço e muito estudo, mas também acho que quem corre por gosto não cansa.

 

Rádio Vizela – E estamos vulneráveis?

Lara Lima – Sempre estivemos. É um bocadinho triste dizer isto, mas todos os ataques que aconteceram desde janeiro em Portugal vieram abrir mais os olhos [da sociedade], mas na realidade sempre estivemos vulneráveis. Não foi pensada a segurança na internet quando esta foi criada. O que mudou é que temos a consciência que estamos vulneráveis e a partir daí já temos uma ferramenta a mais para poder fazer alguma coisa e lutar contra isso, tentar minimizar o risco.

 

“Valemos todos o mesmo e temos um papel fulcral para minimizar a probabilidade de, efetivamente, sermos atacados, porque é provável que vá acontecer”

 

Rádio Vizela – Estava a referir-se a uma série de ataques a algumas empresas e organizações no nosso país, ataques que também têm ocorrido lá fora. Mas este é um problema que também acontece ao cidadão comum…

Lara Lima – Sim e neste momento queremos dar essa consciência às pessoas de que não são só as grandes empresas que podem ser alvo de um ataque, o cidadão comum pode ser alvo de incidentes de cibersegurança, as pequenas e médias empresas [também], há todo um trabalho e uma mentalidade que tem de ser trabalhada para que percebam que todos somos um alvo. Quem está mais vulnerável é que é explorado de forma mais rápida, independentemente de ser ou não uma grande organização. Portanto, todos nós, desde o cidadão comum ao CEO de uma empresa têm de estar consciencializados. Nós utilizamos um termo muito importante que é cultura de cibersegurança, se não tivermos todos consciência que valemos todos o mesmo e que todas as nossas ações contribuem para a nossa cibersegurança e para a cibersegurança da organização onde nos enquadramos, nós não vamos conseguir minimizar o risco. Por isso, valemos todos o mesmo e temos um papel fulcral para minimizar a probabilidade de, efetivamente, sermos atacados, porque é provável que vá acontecer. Temos de estar preparados e de ter as medidas de mitigação corretas para sabermos agir na hora certa.

 

Rádio Vizela – Acredito que grandes empresas, grandes corporações possam ter algumas ferramentas para impedir um ataque, mas o cidadão comum não estará…

Lara Lima – Temos o Observatório de Cibersegurança, que faz parte do Centro, e há dias o meu colega responsável dizia que, efetivamente, as pessoas têm uma perceção que estão mais conscientes para esta problemática, mas será que isso se reflete em atitudes? Ou seja, eu estou consciente que tenho este problema, mas será que a mesma percentagem de pessoas que diz que está mais consciente tem atitudes para se proteger? Isso ainda é uma incógnita e é difícil para nós avaliarmos isso.

 

Rádio Vizela – É aí que entra o curso Cidadão Ciberseguro, o que nos pode dizer sobre ele?

Lara Lima – Na verdade nós temos quatro cursos, que são desenhados por nós em colaboração com outras entidades. Temos o curso de Cidadão Ciberseguro, mas também o de Cidadão Cibersocial, o de Cidadão Ciberinformado e o de Consumidor Ciberseguro. O Cidadão Ciberseguro diria que é a base mínima para todos os cidadãos terem uma caixa de ferramentas para estarem munidos de boas práticas para saberem como estar no ciberespaço. O Cidadão Ciberseguro vem nesse sentido, ou seja, com a missão de oferecer às pessoas o conhecimento de que elas necessitam, a literacia que necessitam para estarem seguras na internet. Dia 17 de maio saiu a terceira edição do curso, começámos por explicar porque é que o ciberespaço é complicado e porque é que precisamos saber que todos temos um papel fulcral e depois centra-se em três módulos: no trabalho, no exterior e em casa. De nada me vale ter a melhor firewall na minha organização, a melhor VPN, o melhor antivírus se depois no meu telemóvel pessoal eu não utilizo qualquer tipo de proteção e até utilizo o e-mail da minha organização, nós queremos que a visão de cibersegurança seja transversal. A internet está tão presente no nosso dia a dia que já nem reconhecemos a importância que tem. A nossa ideia com o Cidadão Ciberseguro é explicar às pessoas onde elas estão todos os dias a navegar, a importância daquele sítio e a sua complexidade, os seus perigos e as medidas de prevenção. Nesta nova edição foi também acrescentado um módulo, pois mesmo com todas as medidas de prevenção, o risco zero não existe, a probabilidade de não sermos atacados é utopia. Caso algo aconteça temos um módulo que diz: sofreste de uma burla online, a tua rede social foi comprometida, então damos os passos para o cidadão saber o que fazer. Independentemente das tecnologias que adotem, as pessoas é que fazem a diferença.

 

Rádio Vizela – Quem pode frequentar esses cursos?

Lara Lima – Qualquer cidadão. Podem aceder à plataforma NAU onde os nossos cursos estão alojados, os cursos têm uma duração de duas a três horas, são totalmente gratuitos e podem fazer os cursos quando lhes for mais conveniente. Nesta edição do Cidadão Ciberseguro saiu um “handbook” [manual] com passos mais técnicos que as pessoas vão precisar adotar nos seus dispositivos pessoais, sobre como instalar uma VPN ou uma firewall. Estão esses dados que as pessoas podem guardar, são fidedignos.

 

Rádio Vizela – Quais são os principais erros que nós cometemos?

Lara Lima – A password e phishing. Por mais simples que pareçam os ataques de phishing, estes continuam a ser os ataques com maior taxa de sucesso e são coisas que exigem às pessoas um bocadinho de atenção, porque estão [percetíveis] nos erros ortográficos, no e-mail, às vezes é de caras, mas com a pressa do dia a dia [passam despercebidos]. Além disso, as passwords mais utilizadas continuam a ser 1,2,3,4,5,6. A política de palavras-passes a utilizar deve ter carateres, maiúsculas, minúsculas, agora usar uma palavra simples é dos erros mais básicos. Tenham cuidado, mesmo as grandes organizações raramente dão erros ortográficos, estejam atentos aos contactos, e se não estão à espera de nenhuma encomenda ou se receberem cartas de bancos que até nem é o vosso, estejam atentos.

 

PUB___