“Somos sortudos por vivermos nesta época"

Carolina Ponteira foi a convidada do Corta e Prega da Rádio Vizela do passado dia 12 de novembro.

Tem 17 anos, é de Boticas, do distrito de Vila Real, mas desde os dois anos, por força da mãe lecionar em Vizela, que estuda no concelho termal. Todos os dias faz 212 quilómetros que, diz, são bem passados. A Carolina foi presidente do Rotary Kids e aluna de Paula Oliveira, nos Enxertos, a quem traça rasgados elogios. Confira um excerto da conversa que já está em podcast.

RVJornal (RVJ) – Quem é a Carolina Ponteira?

Carolina Ponteira (CP) – Estudo em Vizela desde os dois anos e meio porque a minha mãe é professora cá em Vizela. Eu vim atrás de malas e bagagens e hoje sou o que sou graças a esta cidade e às pessoas de cá. Levanto-me todos os dias às 06h20 e venho (risos).

RVJ – O que é que os teus 17 anos já te ensinaram sobre a vida?

CP – Ainda tenho muito a aprender, mas também já aprendi muitas coisas. O mais importante que eu consigo realçar é que é preciso respeitar o outro, pensar mais além de nós e saber dizer as palavras “obrigada”, “bom dia” ou um “gosto muito de ti”. Tento mesmo levar isso à risca, os meus pais sempre me disseram. Cada vez mais sinto que nos estamos a perder com as individualidades, estamos a ficar indiferentes e, por vezes, isso faz com que nos esqueçamos desses valores. Embora a sociedade tenha a perceção que nós, jovens, somos mais ingratos e por vivermos noutro tempo não valorizamos e não agradecemos aos nossos pais, acho que há cada vez mais gente da minha idade a ter uma nova visão. Somos sortudos por vivermos nesta época e devemos muito aos nossos pais.

Não nego a ideia de que hoje temos tudo mais facilitado, mesmo ao nível escolar temos acesso a informação por vezes demasiada. Mas temos outras dificuldades que no tempo dos meus pais e até do meu irmão que tem nove anos de diferença de mim, é mais velho, não existiam. Temos acesso a várias informações, mas é preciso saber separar o que é real e o que é importante. Ao nível escolar, a pressão que hoje nos é exercida é muito superior à que existia antigamente. São muitas horas e o tempo para socializar é muito restrito.

RVJ – Aos 17 anos já consegues projetar o que queres do futuro?

CP – Ai (risos). Era muito de planear o próximo passo, mas à medida que vamos crescendo e passando etapas, percebemos que é importante dar um passo de cada vez e veres bem onde pões o pé. Gosto de ser realista e sou prática, nunca penso muito à frente, as coisas nem sempre correm como queremos. Gosto da área da Saúde, da Comunicação, adoro comunicar. Sou de olhar nos olhos e sentir que a pessoa está a apanhar tudo o que estamos a dizer, é muito bom.

RVJ – Qual o teu maior sonho?

CP – São bastantes (risos). Para já, ser uma boa pessoa, terminar o Secundário e dizer que todo este esforço de acordar todos os dias cedo e por vezes à meia noite ainda estar a estudar, será compensado. E dizer aos meus pais que valeu a pena porque sei que eles fazem muito esforço, tanto por mim como pelo meu irmão.

RVJ – Onde guardarás Vizela a partir do dia em que terminares o Secundário?

CP – Antes tinha medo de perder as pessoas, não é que agora não tenha, mas há uma coisa que não nos podemos esquecer e não esqueço, os bons momentos ficam sempre. As pessoas que nos marcam e que são realmente importantes, são aquelas que ficam no coração. Por isso é que eu gosto muito de dizer “levo-te no coração”. Vizela, a cidade em si, as pessoas, os meus amigos, os meus colegas de turma, a Rádio Vizela, estão sempre aqui dentro.

RVJ – Estás ligada ao teatro na tua terra…

CP – Começou em mim desde muito pequena. A minha família, especialmente a minha mãe, é muito ligada às artes, é muito expressiva e arrebitada como eu, o meu irmão entrou também para o teatro. E andava sempre a chatear a minha mãe. E este gosto começou também pela mão da professora Paula, nos Enxertos, sempre foi uma professora que incentivava a ver mais além. Sempre nos ensinou que o mundo é muita coisa, não é só o que está à nossa frente. Eu conhecia malta do teatro de Boticas, é amador, mas treinamos muito, temos muita qualidade (risos), e entrei.

RVJ – E como geres o tempo?

CP – Consigo ter tempo, confesso que foi bastante difícil, especialmente no 10º ano porque tinha horário cheio e chegava tarde.  À quarta-feira chegava a casa pelas 22h00, tinha o teatro e eu só me ia deitar pelas duas da manhã. Chegava do ensaio à meia noite e ainda tinha aquelas duas horas para estudar, o que vale é que sou produtiva à noite. Há sempre tempo para fazermos as coisas que gostamos.

RVJ – Tiveste de crescer mais rápido do que era suposto?

CP – Não, acho que todos temos o nosso ritmo de crescimento. Mas há fatores externos, por exemplo, no meu caso, a minha professora Paula [Oliveira] teve influência no meu crescimento. Uma professora dinâmica que puxava pela nossa criatividade. Se calhar se tivesse tido outra professora seria diferente hoje. Estou constantemente a dizer-lhe que ela é uma força da natureza, é uma mulher no verdadeiro sentido da palavra. Eu gostava muito de ir para a escola, não custava nada. Era como ver um filme, ver desenhos animados, sabíamos que não íamos dar uma matéria o dia todo. Mantenho os meus colegas e tenho perfeita noção que sem ela as nossas personalidades não seriam o que são hoje. Ela influenciou a forma de nós sermos hoje. Motivava-nos, picava-nos para mostrarmos os nossos talentos, é muito bom.

RVJ – Abraçaram imensos projetos, a maioria solidários. Algum que te tenha marcado de forma especial?

CP – Todos eles foram importantes, mas há sempre um que nos marca mais. Gostei da ação para a construção da escola no Quénia. Lembro-me de ver as fotos daquela escola sem condições nenhumas e pensar, eu sou impotente não consigo fazer nada para resolver isto. Mas depois, quando vem alguém que nos diz, se nós conseguirmos fazer “isto”, então “isto” pode mesmo ser feito. E realmente pensar que crianças da nossa idade aprendiam naquelas condições faz-nos pensar que nós temos mesmo sorte.No fim, quando vimos as fotos da escola reconstruída pensamos, isto valeu mesmo a pena. Aprendemos a acreditar.

RVJ – Como foi para ti importante liderar o Rotary Kids e integrar o projeto?

CP – Foi muito importante, foi um crescimento. Crescemos como crianças, a realidade má no mundo nós ali ficamos a conhecê-la. Torna-nos crianças que se envolvem na sociedade e isso, com certeza, que nos vai tornar melhores pessoas.

RVJ - Quais as tuas maiores inspirações?

CP – Os meus pais são as minhas maiores inspirações. O meu pai é motorista na Santa Casa na minha terra e é agricultor, temos uma exploração em Boticas, com animais e terras. Ele é muito trabalhador e sempre me ensinou a nunca olharmos para as coisas como garantido. De um dia para o outro tudo pode mudar. A professora Paula também, uma grande mulher, os meus colegas e amigos. Sou seletiva com as pessoas que deixo entrar na minha vida.

RVJ – Dás-te bem no meio da natureza?

CP – Ah sim. Tenho burros, uma vaca que daqui a pouco vai parir, é muito giro. Os meus amigos às vezes em Educação Física dizem que sou forte porque apanho batatas e milho (risos). Eu gosto de participar nisso, são momentos em família com os meus primos e tios que estão emigrados e que em agosto estão por cá. Eu gosto da terra e gosto da cidade. Se me imagino a viver na cidade o resto da vida, não.