Só apoios do Estado poderão salvar postos de trabalho

Quem o afirma é o vizelense César Araújo, presidente da ANIVEC.

Os efeitos da pandemia Covid-19 sobre o têxtil e o vestuário nos últimos meses representam “uma brutalidade” para o setor quando avaliada a quebra nas exportações. César Araújo, presidente da Associação Nacional da Indústrias de Vestuário e Confeção (ANIVEC), defende uma tomada de posição imediata do Governo que implique um apoio a fundo perdido tendo em vista a manutenção dos postos de trabalho, a partir de outubro e até maio de 2021, altura em que se prevê a retoma do mercado. Caso isso não se verifique, acredita que muitas empresas entrarão em insolvência, o que significará a perda significativa de emprego.

RV Jornal (RVJ) – Passaram já seis meses desde que o primeiro caso Covid-19 foi detetado em Portugal numa pandemia que abalou o mundo. De que forma se ressentiu a indústria portuguesa do vestuário?

César Araújo (CA) – Tratando-se de um setor exportador registou quebras elevadíssimas na sua atividade. As exportações caíram em março 23,5%, em abril 47,6%, em maio 43,9%, em junho 25,2%, verificando-se depois uma pequena retoma em julho, mas ainda assim uma quebra na ordem dos 12%. Estes números são uma brutalidade para o nosso setor. Estes últimos seis meses foram um terror.

RVJ – O impacto desta crise é o mesmo quando falamos Nas grandes ou nas pequenas empresas ou existem diferenças?

CA – É igual, porque se trata de um ecossistema que enfrenta quebras de vendas e não tem como colocar os seus colaboradores a trabalhar. Não é uma crise dita “normal”, em que as empresas com “mais músculo” estão melhor preparadas. Aqui estamos a falar de uma crise provocada por um vírus que nunca fora estudada – não vem nos livros – e que afeta quem tem mais trabalhadores. Mas, no geral, todas as empresas, sejam elas grandes ou micros, estão a sofrer, porque em causa está uma crise social.

RVJ – Ao mesmo tempo falamos de um setor que já enfrentava um período de dificuldades mesmo antes de ouvirmos falar da Covid-19…

CA - Não podemos esquecer que a indústria do vestuário foi dada como moeda de troca pela Europa. Porque é que atividades como a aeronáutica, a indústria automóvel ou a farmacêutica foram protegidas e o mesmo não aconteceu com o vestuário? Porque é que 85% de todos os produtos consumidos na Europa têm proveniência asiática? Porque é que a Europa está refém da Ásia e depois vem dizer às indústrias portuguesas que estas não são competitivas? A questão é que estamos a competir com países que não respeitam os direitos humanos, que não respeitam o ambiente e que introduzem os seus produtos na Europa à taxa zero. Como é que se pode competir de uma forma desleal e desequilibrada? Já fazemos muito porque, apesar desta concorrência desleal, somos uma indústria excelente, do melhor que há no mundo. Por isso, a Europa tem de começar a rever a reciprocidade das suas relações comerciais. Esse não é um problema da indústria, é um problema político e terão de ser os políticos a resolvê-lo.

“Setor do vestuário só arrancará em maio para a estação outono/inverno de 2021 e só retomará a sua normalidade em setembro desse ano”

RVJ – A atual pandemia pode constituir uma oportunidade para reabrir esse debate?

CA – Esse debate já foi aberto há mais de um ano pela ANIVEC mas parou precisamente por causa da pandemia. O objetivo é podermos criar bom emprego e termos empresas com capacidade de ter “músculo” para competir a nível mundial. Entretanto, esta pandemia veio introduzir uma variante para a qual ninguém estava preparado, uma vez que veio colapsar a economia de mercado. No segundo semestre, Portugal perdeu quase 16% do seu PIB, o que é uma brutalidade em termos de perda de riqueza.

RVJ - Falamos de uma quebra que derivou primeiramente de um período de confinamento mas depois também da retração do consumo e das encomendas…

CA - Esta pandemia tem três fases. A da proteção das populações, a do estímulo à economia e a da recuperação. O que o mundo fez foi obrigar metade da população a ir para casa e, por isso, não houve consumo. Entretanto [no desconfinamento], as pessoas também têm consumido menos pelo facto de sentirem insegurança em relação ao futuro. Estamos, neste momento, perante uma retração no consumo e não sabemos como é que isto vai arrancar. No caso do vestuário, o setor trabalha por estações. Como o confinamento aconteceu na estação primavera/verão e os stocks existentes nos clientes não foram vendidos, estes transitaram para o verão de 2021, o que quer dizer que estes vão comprar menos. Daí que consideramos que o setor do vestuário só arrancará em maio para a estação outono/inverno de 2021 e só retomará a sua normalidade em setembro desse ano e isto se tivermos a sorte de ter uma vacina. A não existir. teremos de continuar a viver com o vírus e com uma alteração radical do consumo.

RVJ - Como é que as empresas conseguirão manter a sua estrutura de custos até maio de 2021?

CA - O Governo terá de assumir a sua responsabilidade. Há dinheiro que vem da Europa para poder estimular a economia e o Governo poder manter as empresas em ponto morto, não criando problemas sociais. As empresas também já deram o seu contributo ao pagarem 50% dos salários aos trabalhadores que estiveram em casa na assistência aos filhos e 30% no caso de recurso ao layoff. Falamos do pagamento de parte de salários de pessoas que não estiveram a trabalhar, o que significou a descapitalização das empresas, algumas tiveram até de se endividar para pagar salários, assumindo uma quota da responsabilidade na manutenção da paz social. Fizemos o nosso papel. Entretanto, o Estado terminou com o layoff simplificado, e fê-lo mal, porque era uma instrumento que estava a ajudar as empresas na retoma da sua atividade. Ao alterar para um novo sistema que não funciona, o Governo acabou por não dar um sinal de confiança aos agentes económicos, criando uma situação de menor conforto. Se as empresas não tiverem como reativar a sua atividade serão atiradas para a insolvência. A ANIVEC já fez chegar ao Governo as suas preocupações, nomeadamente a necessidade de existir um estímulo produzido pelo Governo em sintonia com a Comissão Europeia para manter as empresas em atividade.

RVJ - E que estímulo pode ser dado tendo em vista a manutenção dos postos de trabalho?

CA – Pode passar pela alteração deste novo layoff, aproximando-o ou até melhorando-o em relação ao anterior. Mas pode também ser através da formação profissional e de estímulos à manutenção do posto de trabalho, ou seja, que as empresas que mantenham o seu posto de trabalho até maio do próximo ano possam ser apoiadas para o fazer. São medidas que a ANIVEC está a negociar com o Governo.

RVJ – Houve muitas empresas do setor a recorrerem ao layoff simplificado?

CA - No início sim. Quase todas as empresas.

RVJ – Em agosto dizia em entrevista ao Jornal Eco que existiam empresas que estariam a aproveitar-se das ajudas do Estado – referindo-se ao layoff simplificado - e que tal facto estaria a prejudicar a economia…

CA – Em causa está aquilo que eu chamo de “chico esperto”. Estamos perante um problema que afeta a economia e as pessoas. Não é um negócio. Esta foi uma medida criada para salvar as empresas e a nossa economia e, por isso, também a qualidade de vida dos nossos trabalhadores. Por isso, qualquer “chico esperto” que utilize uma medida destas para benefício próprio deve ser punido.

“Costumo dizer que de abril até julho foi um terror e que de agosto até maio de 2021 vai ser um pesadelo”

RVJ - Há uma frase que temos ouvido muito nos últimos tempos e que é a seguinte: “O pior ainda está para vir”. Concorda?

CA - Concordo. Costumo dizer que de abril até julho foi um terror e que de agosto até maio de 2021 será um pesadelo. E tudo também terá a ver com a forma como agimos perante estes vírus. Se não adotarmos comportamentos responsáveis, isto terá um efeito catastrófico, porque nos obrigará a outro confinamento e a economia não aguentará. Digo também que será um pesadelo até maio, porque já não nos é possível fazer planos a médio prazo. Isso acabou, apenas planeamos o dia seguinte e mesmo assim é muito difícil saber o que vai acontecer.

RVJ – Além do layoff simplificado, considera que houve outras medidas adotadas pelo Governo na primeira fase desta pandemia que ajudaram a indústria do setor do vestuário a resistir?

CA – Sim, as moratórias. Mas é outro problema que terá de ser resolvido em altura própria, porque as empresas não podem chegar a abril e terem de pagar. Tem de haver uma extensão dos prazos.

“Se não forem tomadas as medidas corretas acabaremos por deixar de ter capacidade deproteger os postos de trabalho”

RVJ – Porque é que não tem uma posição favorável em relação ao novo layoff?

CA - Houve uma alteração sem uma razão objetiva. Foi atirar um pouco a barriga para a frente. Este novo mecanismo não estimula a paragem. Quem não tiver encomendas terá de encerrar. Não terá outra hipótese. E uma indústria de vestuário quando encerra, acaba. É quase como uma orquestra, não se refaz num mês, nem num ano sequer. É preciso apoiar o setor. Muitas vezes ouvimos notícias que nos induzem a pensar que está tudo bem, mas não está. Está tudo mal. A crise não acabou. O que virá por aí será pior, porque se não forem tomadas as medidas corretas acabaremos por deixar de ter capacidade de proteger os postos de trabalho.

RVJ - Tem vindo a defender que o foco do Governo deve estar na manutenção dos postos de trabalho, até porque lhe ficará mais caro mandar as pessoas para o desemprego….

CA - Entre março e junho houve estímulos à compra de equipamentos com o apoio de 95% a fundo perdido e houve uma linha de financiamento de centenas de milhões de euros. E agora eu pergunto: se queremos manter postos de trabalho não é legítimo que parte desse valor seja a fundo perdido? Porque é que só há apoios a fundo perdido para aquisição de equipamentos? E como isto é uma crise social, porque é que não se promove a proteção social? Daí que defenda, e repito, que as empresas que mantenham os seus postos de trabalho até maio de 2021 e que registem uma redução na sua faturação devem ter um apoio a fundo perdido.

RVJ - As linhas de financiamento Covid-19 são um instrumento a considerar ou comprometem a gestão futura das empresas?

CA - As empresas não se podem endividar para pagar salários, porque chegará a um ponto em que os seus administradores não terão rendimentos que lhes permitam cumprir com as suas obrigações. O Estado tem de esclarecer qual é o seu papel a partir de outubro e até maio. Se esse papel não for responsável, os empresários terão de fazer bem as suas contas porque depois não terão quem os salve. É preciso lembrar que os problemas não foram criados pelas empresas. Foi o o colapso da economia de mercado.

“Muitos empresários já começam a fazer as contas para perceberem que caminho terão capacidade para fazer”

RVJ – Conhece o número de postos de trabalho na área do setor vestuário que já se perdeu desde o início desta pandemia?

CA - Esses números ainda não são conhecidos. Como a maior parte das empresas aderiu ao layoff simplificado não despediram porque foi apoiada e cumpriu a sua obrigação. A partir daqui é que veremos como é que se comportarão essas empresas. Mas muitos empresários já começam a fazer as contas para perceberem que caminho terão capacidade para fazer.

RVJ – Estima que o número de desempregados no setor vai subir nos próximos meses?

CA - Se não houver rapidamente esses estímulos, sim. Não queria pôr números, mas vai subir bastante. Ainda acredito que conseguiremos minimizar esse aumento através do trabalho que estamos a fazer com o Governo, um trabalho bem-intencionado, que permitirá que as empresas estejam preparadas, e na primeira linha, quando se der a retoma dos mercados a nível europeu e mundial. Mas a solução tem de acontecer em outubro, porque não dá para aguentar muito tempo.

RVJ - Esteve reunido recentemente com o Primeiro-Ministro António Costa…

CA – Sim e fizemos-lhe chegar as nossas preocupações e algumas ideias e que foram bem acolhidas. Também estivemos com o Sr. Ministro da Economia, pois estamos a desenvolver um trabalho para apoiar a indústria têxtil e do vestuário. 

RVJ - Percebemos que outubro será o mês da grande prova de fogo. Ainda acredita que até ao final do ano será possível recuperar algum do prejuízo registado no primeiro semestre?

CA - Não. Estou muito preocupado com a perda do PIB. Se cairmos 10% ou mais, estaremos a falar de metade do valor da bazuca (Fundo de Recuperação). Não defendo a Europa como um mercado de subsídio-dependentes. Parece que só distribui dinheiros, não tem uma política coesa, quando nós temos de ter uma Europa com um Plano Marshall que promova os produtos europeus.

RVJ – Em relação ao Fundo de Recuperação, agora restará a Portugal saber aplicar esses recursos financeiros?

CA - Portugal terá que aplicá-los bem. Existirá uma tentação de inovar o país, mas nós nunca melhoraremos o país se esquecermos as suas origens. Temos setores tradicionais considerados dos melhores que há no mundo. O que quer dizer que não poderemos apenas investir na ciência e na inovação. Caso contrário só nos faltará criar um foguetão e querer ir para marte. Enquanto não tivermos consciência daquilo que somos – mais de 30% da nossa população é analfabeta – nunca conseguiremos chegar a lado nenhum. A indústria do vestuário é um setor tradicionalmente exportador, que está no interior do país, que até devia ser apoiado por isso, e que emprega maioritariamente mão de obra feminina, muita dela pouco qualificada. Muitas dessas pessoas são  muito novas para se reformarem mas também não têm idade nem formação para muitas das atividades que muita gente defende. Ao mesmo tempo, o nosso setor é inovador, promove a igualdade do género e dá oportunidade às pessoas menos qualificadas. É um setor que tem de estar na primeira linha do combate.

RVJ - Já veio dizer publicamente que se o dinheiro proveniente do Fundo de Recuperação for usado com responsabilidade, Portugal pode rapidamente reerguer-se e tornar-se um país moderno e inovador. Mas disse também que tem de existir muita transparência na gestão dos recursos financeiros. Há maus exemplos do passado?

CA – Não foi isso que quis dizer. Sabemos que os recursos são escassos, o dinheiro é finito e temos de ter responsabilidade na sua aplicação. Temos que ter empresas de raiz nacional e não apenas capital estrangeiro, porque sabemos que, se a determinada altura, deixarem de considerar interessante continuar a operar em Portugal vão-se embora ou vendem as suas posições.
É o capital nacional que mantém a estabilidade até da própria nação. Por isso, ainda antes de sonharmos com algo diferente para o país, deveremos reconhecer qual a nossa matriz e quais os setores que foram sempre mais resilientes, os que deram sempre a volta por cima, e entre eles está os do têxtil, o vestuário e o calçado. Setores para os quais já previam o fim há 50 anos e que continuam aqui de pedra e cal.

RVJ – Neste momento, que espírito mantém como presidente da ANIVEC?

CA - Não muito otimista, nem muito pessimista, mas tentando antecipar alguns acontecimentos que nos permitam ultrapassar algumas barreiras.