Romaria de São Bento celebra 60 anos este fim de semana
A Romaria de São Bento das Pêras, um dos mais marcantes eventos religiosos e culturais do concelho de Vizela, celebra este ano a sua 60.ª edição. Entre os dias 10 e 13 de julho, milhares de fiéis e visitantes juntam-se para uma jornada de fé, esperança e renovação. A Rádio Vizela esteve à conversa com Xavier de Freitas, presidente da Confraria de São Bento das Peras, e com o Padre Cândido Magalhães, reitor do Santuário.
“Este ano é muito especial”, afirma o Padre Cândido Magalhães. “Trata-se de um ano jubilar, selado pelo Papa Francisco com o tema ‘Peregrinos da Esperança’, e é neste espírito que queremos viver esta romaria: com o coração cheio, com fé, com esperança num mundo que precisa tanto de parar e olhar mais além.”
Para Xavier de Freitas, a preparação começa no dia seguinte à romaria anterior. “Nós começamos os preparativos do próximo ano no dia seguinte à peregrinação. Porque temos sempre algo a melhorar. É uma festa que envolve muita gente, vários dias. É necessária uma logística muito grande, que não depende só de mim, nem só do Reitor.”
Acrescenta: “Depende de uma série de pessoas. Tudo tem de ser agilizado e agendado com antecedência, para garantir que corre bem. Vimos já há bastante tempo a preparar este evento. É de grande importância para toda a comunidade, e não só. Para as pessoas que nos visitam, que são milhares e milhares.”
Apesar da leveza com que comunica, Xavier de Freitas não esconde a exigência que o cargo acarreta. “A responsabilidade, claro que está lá. E contamos sempre com a ajuda dos peregrinos, das pessoas que nos visitam, das que conversam connosco, que nos deixam ideias ou até críticas, que muitas vezes tiramos proveito delas.”
Admite que uma das suas maiores preocupações é o tempo: “Para mim, uma das questões que me preocupa sempre é se está um dia de chuva, uma semana de chuva. Mas á estive a ver: vai estar um dia maravilhoso. Uma semana maravilhosa. Um dia muito bonito.”
Xavier de Freitas está confiante num aumento da afluência: “Aquilo que nós esperamos, e sinceramente estou convencido de que isso vai acontecer, é que vamos ter um aumento significativo das pessoas que sobem ao São Bento. Porque é isso que tem acontecido: um crescimento enorme.”
Credita esse crescimento à confiança gerada pelas mudanças implementadas desde que assumiu funções. “Desde que começámos a fazer a concentração na Praça da República, foi realmente um ponto de partida em que as pessoas se sentem mais confortáveis. Embora a peregrinação tenha a sua partida na Igreja de S. Miguel, aquela concentração na Praça trouxe uma mais-valia e uma melhor organização, além de todo o caminho.”
O Padre Cândido Magalhães partilha da mesma visão. “Acredito que vamos crescendo, e tenho essa perceção pelos contactos que recebo. Todos os anos me ligam: de Santarém, Lisboa, Figueira da Foz, Coimbra, Leiria… Perguntam: ‘Sr. Padre, e este ano?’ E eu digo: ‘Sim, é melhor ainda!’ São pessoas devotas de São Bento que se identificam com este espaço.”
A romaria arranca esta quinta-feira, com um concerto que junta os SEDARF e o Grupo de Cavaquinhos da Casa do Povo de Vizela, às 21h00. Antes, haverá homenagens à Real Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Vizela e à zeladora do Santuário, Maria Agostinha Silva Ribeiro, por décadas de dedicação.
Na sexta-feira, 11, realizam-se Eucaristias campais às 08h00, 11h00 e 20h00.
No sábado, dia 12, o programa intensifica-se a partir das 16h00, com uma Eucaristia campal em honra de São Bento, seguida, às 17h00, da tradicional saída da imagem do Santo em cortejo automóvel pelas freguesias vizinhas. “É um gesto que nos comove sempre”, afirma o Reitor. “O São Bento deixa o monte e aproxima-se das casas, das ruas, das vidas das pessoas.” Este ano, a imagem repousa na Igreja de S. Miguel. “Posso garantir que tudo está preparado para o acolher com coração e braços abertos. Já está garantido o jantar e o pequeno-almoço ‘do melhor’, para que, quando sair, tenha logo vontade de voltar”, acrescenta com um sorriso. À noite, o Grupo Folclórico de Santa Eulália e o Grupo Folclórico e Recreativo de Tabuadelo atuam às 21h00.
O domingo, 13 de julho, marca o ponto alto da celebração. A Eucaristia às 07h00, na Igreja de São Miguel, antecede a concentração dos peregrinos na Praça da República, às 07h45.
“A nossa aposta foi precisamente essa: romper com a ideia de que o São Bento é de uma ou outra comunidade. Não. O São Bento é de Vizela”, defende o Padre Cândido Magalhães. “A Praça da República é o coração do concelho. É ali que queremos mostrar que o Santo é de todos.”
Xavier de Freitas partilha da mesma convicção: “Agora partimos todos juntos, com espírito de comunhão e organização. As coisas vão correr muito melhor. Já temos isso comprovado.” Homem prático e de presença constante, o presidente da Confraria faz questão de estar na Praça desde cedo. “Sou uma pessoa de multidões. Gosto de sentir o povo, de o ouvir, de o acolher. Às vezes é preciso afinar uma ou outra coisa em cima da hora, e eu estou ali para isso. Só fico descansado quando sei que está tudo pronto. E depois, sigo para o monte para preparar a chegada.” Já no Santuário, celebra-se a Eucaristia campal às 08h00, a Eucaristia da Peregrinação às 10h30 e, às 16h00, a Eucaristia dominical, que encerra as celebrações.
O Reitor reconhece que nem todos os que sobem o monte o fazem por devoção. “No dia de São Bento há muito devoto, mas também há, como posso dizer? Não quero que ninguém se sinta ferido, mas há também muito desportista que nos acompanha quase como numa caminhada.” E acrescenta: “Tenham o hábito de subir ao São Bento todos os dias ou todas as semanas, mas naquele dia não falham. Claro que a grande maioria vem em espírito de fé e acredita, piamente, que poderá obter ali, naquele dia, a graça de São Bento.”
E prossegue: “Tenho gente que me diz: ‘Sr. Padre, hoje saio daqui transformado. Saio de coração cheio.’ São Bento continua e continuará sempre a exercer o seu papel: tocar corações, transformar vidas, despertar consciências. Mas é preciso ir com o coração aberto.”
A edição deste ano é também marcada pela transformação da zona envolvente ao Santuário. Concluída a primeira fase de um projeto de requalificação, os peregrinos encontrarão um espaço mais amplo, mais verde e mais acolhedor.
“Muita gente vai por curiosidade. E quando chega, surpreende-se. A obra começa no caminho dos peregrinos, mais abaixo do que se pensa. Está ali um postal vivo”, descreve Xavier de Freitas.
O feedback, afirma, tem sido “emocionante”. “Temos recebido telefonemas, mensagens, parabéns. Está provado que vale a pena trabalhar no sentido de melhorar. E para o ano haverá mais novidades: casas de banho, estacionamentos, calçada à portuguesa, mais árvores. Enquanto cá estiver, não vamos parar. O projeto é ambicioso, mas é exequível. Está pensado por fases e queremos também construir a Casa da Confraria. Será um espaço de apoio, de acolhimento e de serviço.”
“Eu costumo dizer que o Sr. Padre Cândido manda na igreja e eu mando nos espaços. Mas mandamos os dois em tudo e estamos sempre em sintonia”, partilha.
Com a crescente afluência, surgem também desafios logísticos. Um dos aspetos em estudo é a organização das equipas que transportam o andor. Xavier de Freitas pretende implementar, a partir de 2026, um sistema de inscrição por paróquia, de forma a garantir equipas equilibradas por estatura e condição física. “Queremos que todos participem, mas de forma segura. Vamos organizar por alturas. Este ano ainda não será possível, mas para o próximo queremos avançar.”
Quanto ao trânsito e mobilidade, a organização recomenda os acessos pela freguesia de Tagilde, o sentido único nas vias principais e a utilização dos novos parques de estacionamento. “E, se possível, venham a pé. O caminho é bonito, simbólico, vale a pena”, apela o presidente.
À medida que se aproxima a grande celebração, tanto o Reitor como o Presidente da Confraria deixam um apelo à comunidade.
“Venham. Este é um tempo para parar, para olhar para dentro, para se reencontrarem. Juntos, com o coração cheio, subiremos ao monte. E sairemos de lá mais leves, mais serenos, mais felizes”, convida o Padre Cândido Magalhães.
“Todos os caminhos vão dar ao Santuário. Venham de onde vierem, há sempre espaço para mais um. Estou lá para vos receber, com um sorriso. E se alguma coisa não correr bem, a responsabilidade é minha. Mas farei tudo para que corra bem. Esta romaria é de todos. E todos são bem-vindos”, reforça Xavier de Freitas.







