Relatos de um médico a favor de um conhecimento coletivo

A importância da família e outras experiências de vida foram aspetos presentes na palestra organizada pelo Rotary Club de Vizela e que decorreu na passada quarta-feira. Desta vez foi o médico Henrique Araújo, antigo cirurgião do hospital de Guimarães, que fez a sua apresentação, tendo como ponto de partida o seu mais recente livro “O outono da vida”.

O médico, nascido em Vila Nova de Famalicão, em 1929, abordou temas da sua vida profissional, com incidência em vertentes que o colocaram perante dilemas de comportamento e crenças pessoais, muitas vezes em conflito com as necessárias atitudes de um técnico, mais preocupado com o salvamento de vidas, do que a seguir credos e vontades de pacientes e familiares.

O palestrante começou pela abordagem política a assuntos de medicina, porque exclui a opinião dos médicos, na maior parte das situações. Deu um exemplo, que considera paradigmático, sobre a questão da eutanásia e a sua prática corrente. Por um lado, a definição política de que é uma prática proibida e o seu incentivo é penalizado legalmente. Por outro lado, no que definiu como “eutanásia passiva”, com que muitos doentes são confrontados, a quem são atribuídos medicamentos, que raramente fazem recuperar o estado de saúde dos mesmos. Porém, referiu a perigosidade de legalização da prática de eutanásia, pelo receio de que se possa tornar um negócio.

Com uma carreira médica muito longa, Henrique Araújo mostrou o seu desalento profissional, ao ver que as gerações mais recentes buscam na medicina a realização pessoal e minimizam a deontologia mais coerente, que tem a ver com a formatação, que era, e ainda é, mas com resultados menores, de sentido de ajuda, com o intuito de dar esperança ao doente e contribuir para que também este possa ter a certeza de o médico, para além de profissional competente, também conta com a colaboração do paciente, para que os resultados sejam a soma das duas participações.

No entanto, o cirurgião manifestou o seu desencanto, porque acredita que muitos candidatos a médicos, com boas caraterísticas pessoais, ficam pelo caminho, numa luta de notas escolares, que fomentam os que podem e menosprezam os que conseguiriam dotar a profissão de competência.

Ao longo da sua apresentação, Henrique Araújo falou de outras experiências de vida, relatando casos que vivenciou, com relacionamentos de proximidade a pessoas que acreditaram nas suas opiniões e capacidades, nem sempre com resultados que esperava obter, que lhe colocaram desafios difíceis, como o foi num caso de uma família que não aceitava a necessidade de transfusão de sangue, para um filho que tinha de ser operado. Foram momentos complicados, mas que precisou de resolver, mesmo estando contra determinadas ideias e crenças, que explicou, quando abordou o caso da prática de barrigas de aluguer, pois considera que a mesma é contra os direitos da família, contrariando o direito de uma criança a ter uma mãe.

 Relatou outras dificuldades que viveu, quando realizou o seu tempo de tropa, na região de Cabo Delgado, em Moçambique. Uma época que recorda com felicidade, mas também com situações de tristeza e alguma insegurança, pela falta de conhecimento dos nossos soldados, pouco treinados para atuarem em territórios, que eram dominados por forças hostis.

Para si, estes momentos, de médico no outono da vida, com tantas experiências vividas, foram sendo passados para textos, que motivaram a publicação de uma série de livros, que se tornaram relatos de realidades e uma visão de olhar para o tempo de vida, como um limite temporal que é fundamental viver. Terminada a carreira médica, sentiu que era uma altura de editar o que tinha passado, contribuindo para que a noção social prevaleça sobre hábitos de comportamento e de consumo que esquecem a importância da família, como base de crescimento e formação de um ser humano.

Para Henrique Araújo, a família é o elo mais importante, na formação de uma pessoa, com destaque para a existência de um pai e de uma mãe presentes no processo. Depois, afirmou, outros profissionais vão ajudar a uma correta formação, para que não se percam valores essenciais de educação.

Subsídio da Fundação Rotária Portuguesa

Durante a reunião rotária, o clube foi informado da atribuição de um subsídio, feito pela Fundação Rotária Portuguesa, relativo a 50% do valor de custo, que o clube teve, com a compra de três cadeiras de rodas e seis colchões, destinados à renovação dos equipamentos do seu programa de cadeiras de rodas e camas articuladas.

Este serviço, disponível sem qualquer encargo para os beneficiários, passa a contar com 27 cadeiras de rodas e 48 camas articuladas, que estão, na sua maior parte, distribuídas por famílias do concelho de Vizela.

PUB___