Padres procuram manter comunidade próxima da Igreja

A Igreja em tempos de pandemia: Reportagem para conferir no RVJornal.

Também a Igreja teve de se adaptar a estes novos tempos. Do álcool gel ao distanciamento físico, da obrigatoriedade do uso da máscara às cerimónias adiadas, muito se alterou desde março. Aos poucos, há celebrações que se foram retomando, mas o grande desafio pela frente é não deixar que este distanciamento leve as pessoas a afastarem-se da Igreja.

 

As igrejas ficaram vazias. Foi assim nos primeiros tempos em que a pandemia provocada pelo novo coronavírus chegou ao nosso país. As eucaristias eram à porta fechada, cabendo aos padres a missão solitária de as celebrar perante uma assembleia vazia de gente. A solução que muitos encontraram para não perder o elo de ligação com os paroquianos foi transmitir, através das redes sociais, as missas dominicais. “As pessoas acompanharam bastante”, afirma o padre Constantino Matos de Sá, responsável pela paróquia de S. Miguel. Em finais de maio, as portas das igrejas já puderam abrir-se, mas com uma série de restrições, desde logo o distanciamento físico entre as pessoas, o que leva a que haja uma diminuição significativa de fiéis nas eucaristias. José Lemos, padre de Santa Eulália, está apreensivo com o atual momento em que vivemos: “Eu estou um bocado cético quanto a isso. É como tudo, o hábito faz o monge, e a vida religiosa dos nossos cristãos é um bocado por hábito e a convicção é muito fraca. E eu desconfio que vai haver um decréscimo muito grande futuramente. É a tal coisa, somos pessoas de hábitos e, perdendo o hábito, primeiro que recomecemos é difícil”. O padre José Lemos vai mais longe neste seu pensamento: “As multidões vão desaparecer das celebrações. Nos nossos meios toda a gente batiza os filhos, mas, depois, vida religiosa não se vê e se isso não se vê também se vai começar a deixar de batizar, portanto a Igreja vai ficar reduzida a um pequeno resto, como fala a Bíblia”.

 

“Fazem desde o batizado até ao crisma e depois adeus Igreja” (Padre José Lemos)

 

Mas esse afastamento será mais nas novas gerações? “Nem as novas nem as velhas”, responde-nos o padre José Lemos: “As [gerações mais] velhas dá-me a impressão de que estão por tradição, com raras e ótimas exceções, [mas] começa tudo nas velhas gerações, porque os novos vão atrás dos mais velhos e os mais velhos não dão o exemplo. Vão obrigando os filhos até certa altura, mas não os convencem porque o filho olha para o pai e para a mãe e diz: mas tu não fazes isso e se não fazes isso porque me estás a obrigar?! É isso que nós vemos na nossa pastoral. Fazem desde o batizado até ao crisma e depois adeus Igreja. Antigamente ainda havia o casamento, mas agora nem isso, agora é casamento civil, quando é”.

 

“É normal que este afastamento possa ter consequências no futuro” (Padre Adelino Rosas)

 

Para o padre Adelino Rosas, de Infias, “é normal que com esta pandemia, este afastamento [das pessoas] possa ter consequências no futuro, [mas] a gente já vive com essa ideia, mas será o habitual de todos os tempos, porque já antes da pandemia sentimos essa tristeza um bocadinho”. O pároco entende que será fundamental, após a pandemia, retomar o “trabalho com os jovens”. “Claro que os jovens são uma preocupação particular na vida paroquial, porque são o futuro da sociedade, a sociedade como vemos está muito materializada, mas graças a Deus ainda vamos tendo um bom grupo que até trabalha na Loja Social e em outras atividades, escuteiros, mas para já vivo feliz com os jovens, embora não os tenha todos, mas falo para eles na rua quando os encontro”, declara o padre responsável pela paróquia de Infias.

E como tem sido para o padre Adelino Rosas celebrar as eucaristias com menos fiéis? Procurámos saber: “Por um lado temos tristeza, porque é sempre um sofrimento, mesmo psicológico, por outo lado, graças a Deus, nas minhas igrejas às vezes até me interrogo, deviam de estar menos [pessoas], mas claro que há diferença entre o momento atual e o que era antes da pandemia”.

 

“Estou certo de que alguns ficarão mais fragilizados espiritualmente” (Padre Constantino Matos de Sá)

 

“Há o afastamento de uma percentagem bastante significativa, há este receio, e isso leva a que esmoreça um pouco e para que se aproveite a ocasião para: não vamos”. “E ficam em casa”. “Estou certo que alguns ficarão mais esmorecidos e um bocado mais fragilizados espiritualmente e depois não retomem com tanta facilidade, mas penso que não será esse o grande receio, o grande desafio que esta situação nos trouxe e que a Igreja nos está a colocar também no sentido pastoral, é uma pastoral de muita proximidade, uma pastoral de sair ao encontro de, portanto diríamos que toda a atividade que vamos procurando implementar, é um modo de poder sensibilizar as pessoas para um novo modo de estar e de participar e de viver a própria religião”, frisou, por outro lado, o padre Constantino Matos de Sá. E para que mais paroquianos tenham a possibilidade de assistir às eucaristias, aos fins de semana o padre de S. Miguel aumentou o número de missas. Agora, aos sábados há duas eucaristias e ao domingo são três. “Assim as pessoas foram-se subdividindo, não digo que ficou em condições de albergar as mesmas pessoas que albergava, mas em caso de necessidade também alguém poderá ir para o coro, pois o grupo coral deixou também de intervir nas celebrações”, esclareceu o padre.  

 

Catequese já foi retomada, mas em S. Miguel os pais serão chamados a auxiliar no caso dos mais pequenos

 

Na paróquia de S. Miguel, atendendo à sua dimensão, não é possível regressar todas as crianças e jovens em simultâneo. De acordo com o padre Constantino Matos de Sá, os catecismos estão a ser distribuídos “e haverá uma reunião, pelo menos de dois em dois meses, com os pais sobre essas lições da catequese para que os pais estejam também eles aptos a poderem acompanhar os filhos”. “Portanto, não ficamos a zero, digamos assim”. “Isto será do 1º ao 6º ano da catequese, com os jovens, do 7º até ao 10º ano, então vamos retomar, porque é um número bem mais reduzido”. “Depois da profissão de fé, no 6º ano, há uma quebra bastante acentuada na continuidade dos jovens”. “Normalmente são à volta de 30 em cada ano”. “Estamos a lançar esse trabalho para ser uma vez por mês pelo menos, aos sábados”. “Fazer presencial com eles, na medida em que o salão tem espaço para isso, para haver o distanciamento necessário”, referiu o padre.

Em Infias, no início do ano pastoral foi retomada a catequese, ou seja, no primeiro domingo de outubro, no entanto os primeiros cinco anos vão a um domingo e os restantes cinco frequentarão a catequese no domingo seguinte, isto para limitar o número de pessoas.

Quanto a Santa Eulália, as crianças e os jovens também já retomaram as idas à catequese. “Começámos com a catequese da adolescência aos sábados à tarde e a catequese infantil aos domingos de manhã”. “Como esperávamos não houve muita adesão, não houve também muitas inscrições, não sei o que é que se passa: se é uma diminuição real dos nascimentos - e que dá origem a que este ano haja muito menos inscrições no primeiro ano -, porque normalmente é sempre entre vinte e tal e 30, e este ano tivemos 17 inscrições até agora”. “Será que alguns pais temeram e não querem pôr os filhos aqui no ambiente da catequese, e se isto melhorar um dia será que os vão inscrever? Não sei, tenho as minhas dúvidas”, interroga-se o padre José Lemos.

Adiadas estiveram também uma série de celebrações. Na paróquia de Santa Eulália, a primeira comunhão terá lugar nos dias 08 e 15 de novembro, a profissão de fé será a 22 e 29 de novembro e o crisma no dia 12 de dezembro. Já na paróquia de S. Miguel, a primeira comunhão já teve lugar, no próximo fim de semana haverá a profissão de fé e o crisma será no dia 25 deste mês. E em Infias, também já foi realizada a primeira comunhão, já a profissão de fé “a pedido dos pais foi adiada, sem dia previsto”, disse o padre Adelino Rosas. E sobre o crisma? “Não há nada por enquanto, é natural que fique para o ano, em conjunto com o ano que vem”, disse ainda o padre.

 

Dezenas de casamentos foram adiados

 

Os casamentos e os batizados também ficaram para depois. “Ficou quase 100% parado, repare, o ano passado, em 2019, aqui, na igreja de Infias, celebraram-se 49 batismos e casamentos foram bastantes, este ano batizados só tivemos cinco, casamentos ainda nenhum, foi tudo adiado”, conta-nos o padre Adelino Rosa, que irá celebrar no próximo sábado um batizado.

E em Santa Eulália, “foi uma razia” como nos diz o padre José Lemos. “Fiz o primeiro casamento há dias”. “Mas de uma maneira geral toda a gente adiou para o próximo ano ou para 2022”. “O casamento é uma festa social e implica o movimento de muitas pessoas, vê-se que os noivos correm aqui, correm acolá e andam atrapalhados”. “No fim do mês de novembro vou ter um em Santo Estêvão, e depois não há mais nada”. “Tive 15 casamentos adiados para 2021. E já tenho batizados e casamentos para 2021 e 2022 também”, confidencia o pároco de Santa Eulália.

Já em S. Miguel o panorama é idêntico, sobretudo nos casamentos: “Batizados tenho celebrado, quer fora da eucaristia, quer [integrados] na eucaristia, houve muitos adiados, mas outros foram retomados. Quanto aos casamentos é que passaram para o ano, são muito poucos os que se realizaram ou que se vão realizar até ao final do ano. Pelo menos uns 20/25 foram adiados”.

 

Acompanhamento aos doentes comprometido

 

Mas não apenas nos momentos festivos se verificam mudanças. Os funerais - cerimónia de despedida e de tristeza - ficaram ainda mais tristes. “A pandemia tem causado grande dor a tantas famílias, não só pela morte do seu ente querido, mas, sobretudo pelos últimos dias de vida nos hospitais”. “Tenho sofrido muito com isso, porque dedicava bastante tempo da minha vida a visitar os meus paroquianos, nos hospitais, nos centros de recuperação, e agora está tudo fechado, como temos o nosso Centro Social fechado, não entra ninguém, e um dizia-me há dias: estamos aqui presos há cinco meses senhor padre”. “Há pessoas que morrem e não é tanto da doença, é da saudade”, lamenta o padre José Lemos, que acrescenta: “Nos funerais as pessoas não se podem aproximar dos doridos convenientemente, não há saudação, tudo tão frio, tão triste, não ter aquele calor humano dos amigos, dos familiares, tem sido muito doloroso”.

Nos primeiros meses de pandemia, a celebração da eucaristia na igreja deixou de ser efetuada nos funerais. Neste momento, o constrangimento existente está relacionado com o número de pessoas. “Ficaram reduzidos à família mais próxima e alguns amigos”, sublinha Constantino Matos de Sá. Já o padre Adelino Rosas considera-se um “otimista”, por essa razão prefere deixar palavras de “esperança de que isto melhore e voltemos à vida normal, de entrar nos cafés e conversar”.

Para Constantino Matos de Sá, estes tempos têm também trazido um forte constrangimento: “A falta de contacto com os doentes, só em casos mesmo graves e que a família me peça aquela visita de acompanhamento. Isso tem sido o mais difícil”.

E a fé, como fica? Perguntámos a José Lemos: “Para já, abalada para muita gente. Medo, dúvidas. Isto vai dar um abanão às pessoas, depois o futuro a Deus pertence”.