Meses desgastantes pelo receio do futuro do setor da aviação

Piloto natural de S. Paio, em entrevista na Rádio Vizela.

Fernando Costa tem 27 anos de idade, e é piloto de aviação civil. O jovem de S. Paio foi o convidado do Especial Informação da Rádio Vizela, no passado sábado, dia 01 de agosto. Fica aqui um excerto da entrevista, que poderá acompanhar na íntegra em www.radiovizela.pt.

 

RVJornal (RVJ) - A paixão pelos aviões vem desde criança?

Fernando Costa (FC) – Não, sou daqueles que não pode dizer que queria ser piloto desde criança. Tinha outras ideias ligadas à saúde ou à engenharia quando, nos meus 14/15 anos comecei a olhar para os aviões e a pensar: isto tem de fazer algum sentido, deve ser interessante perceber como é que isto funciona. Uma vez fui com o meu pai a uma loja de multimédia e lá estava um jogo, um simulador de voo, e perguntei ao meu pai se o podia levar. Trouxe-o para casa e a partir daí…

 

RVJ - Onde tirou a sua formação de piloto?

FC – Tirei a minha formação na Nortávia, na Maia, no Aeródromo de Vilar de Luz, daí do secundário e fui logo para a escola [de aviação]. Temos uma parte teórica e prática, são 14 disciplinas, todas elas têm um teste e passando essa parte temos a prática, que consiste em aprender o básico do básico, desde como o avião sobe ou desce, volta, acelera, trava… Começamos com um instrutor de voo, depois temos o nosso primeiro voo solo e fazemos uns circuitos, ou seja, descolar, dar a volta e aterrar, é o primeiro checkpoint da nossa formação, depois passamos para a parte de navegação visual: temos um mapa, que a gente chama carta, em que, por exemplo, hoje vamos de Vilar de Luz a Braga, Chaves e voltar a Vilar de Luz, e temos de conseguir passar a informação que estamos a ver na carta para o terreno, claro que com a ajuda dos instrumentos do avião. Passado isso, largamos a carta e passamos a voar pelas chamadas radio ajudas, que é instrumentação rádio dos aviões, e a partir daí é a mesma coisa que se nos taparem o avião todo a gente sabe onde está. Depois passamos para um avião multimotor, que em vez de um motor tem dois.

 

RVJ – São precisos muitos anos para tirar o curso de piloto?

FC - Não tem data definida, é consoante a disponibilidade do instrutor, do aluno, da escola e do avião. O mínimo dos mínimos que eu já vi a fazer é 18 meses, mas é quase impossível isso acontecer, normalmente é dois anos para cima.

 

RVJ - Ainda se recorda da primeira vez que pilotou um avião? O que pode partilhar connosco das emoções desse dia?

FC – É aquele cheiro característico dos aviões, tem aquele couro ou napa, nos aviões antigos, os aviões ainda têm aquele cheiro de café, de tabaco, o arranjar lugar, o sentar e a própria descolagem, que hoje em dia acaba por ser banal, é uma coisa que a gente faz todos os dias, mas a aceleração e tudo mais, o levantar, o descolar, o sentir a força G no corpo é uma adrenalina indescritível.

 

RVJ – Foi sempre seu objetivo ser piloto de aviação civil ou alguma vez ponderou entrar no ramo militar?

FC – Sempre civil. Não sei explicar, nunca me revi, admiro imenso, mas nunca me revi ser eu próprio a fazê-lo, sempre me fascinou mais a aviação civil.

 

RVJ – Quando acabou o curso começou por ser instrutor de voo…

FC – Sim. Acabei o curso, inicialmente não arranjei emprego e para não ficar parado… E é outro traquejo que se ganha, quando temos de explicar alguma coisa a alguém temos de saber primeiro para nós e a partir daí também se cria uma base muito maior do que aquela que, eventualmente, traríamos do curso. Depois fui instrutor de voo na parte inicial, na parte de ensinar como é que funcionam os básicos do avião e da navegação visual.

 

RVJ – E isso prolongou-se durante quanto tempo?

FC – Dois anos. Depois passei na entrevista da empresa para a qual eu trabalho hoje e estou lá desde 2018.

 

RVJ – E uma das graves consequências da Covid-19 foi precisamente o cancelamento de vários voos. Uma das imagens que nos vem à cabeça deste período é a de ver os aviões em terra, aeroportos sem movimentação. Para um piloto, como foi enfrentar esta situação?

FC – Foi um banho de humildade e aceitar, porque é assim que tem de ser, se é isto que o bem geral pede, é isto que tem de ser, ficamos em casa. No momento em que retomámos as operações, aí assim tomámos os máximos de cuidados, fazemos o que temos de fazer. Mas foi uma fase, principalmente, de incerteza, do não saber se continuaríamos a poder ter a nossa profissão, que companhias é que, eventualmente, abririam falência, foram uns meses um bocado desgastantes psicologicamente.

 

RVJ – Já foi retomada a normalidade ou ainda não?

FC – O que lhe pudermos chamar de normalidade sim, as operações retomaram, maioritariamente agora em julho, já se vê algum movimento nos aeroportos, de várias companhias. Obviamente, o que acontece é que a frequência dos voos é muito reduzida. Se haveria cinco voos semanais para determinado destino, se calhar agora há dois. A ideia do que se lê e do que nos vamos apercebendo é que de mês para mês a frequência vai aumentando, correndo bem, porque nunca se sabe se haverá uma segunda vaga ou um retrocesso na situação mundial.

 

RVJ – Todas as companhias aéreas têm as suas regras neste momento…

FC – Há toda uma diretriz geral, que vem de fora claro, que é a máscara, evitar as filas para a casa de banho. O que é que acontece? O sinal do cinto mantém-se sempre ligado, a pessoa se, eventualmente, tiver alguma necessidade fisiológica que requeira o uso da casa de banho, chama um comissário e pede para ir à casa de banho, mas assim que o fizer retorna ao seu lugar e permanece sentado. Mesmo nos aeroportos, apesar de nesta altura a operação estar menor, os aeroportos também estão mais vazios, mas evitar filas, a fila indiana tem todo aquele espaçamento como tem num hipermercado, maioritariamente é isso. Depois cada companhia adota regras extras.

 

RVJ – Quais os objetivos profissionais que traçou para si?

FC – Ser piloto era o primeiro objetivo, agora não me imagino a fazer outra coisa, agora é crescer dentro da aviação. Para já ainda sou copiloto, depois, eventualmente, subir a comandante, eventualmente, se calhar, mudar de companhia, ou permanecer na mesma, quero ser instrutor na companhia. Eu pelo menos não gosto de ficar muito tempo confortável, gosto de olhar para trás e ver que consegui fazer outras coisas e há que tentar outra coisa para progredir na carreira e na vida.

 

RVJ – Hoje em dia ainda sente o mesmo entusiasmo, a mesma paixão que tinha como na primeira vez, quando entra e pilota um avião?

FC – Ao fim de dois anos ainda sorrio de cada vez que o comandante diz aos passageiros que tem o copiloto Fernando Costa, ainda trago esse encanto comigo. Gosto mais de andar nas nuvens do que em terra, embora ambas sejam boas.

 

RVJ – A Vizela costuma vir com alguma regularidade?

FC – Sim, felizmente sim. Estou a morar na Póvoa [de Varzim], estou perto. Quer de semana a semana, quer de quinze em quinze dias, venho cá dizer olá à gente da terra.