Luta do 5 de Agosto de 82 imortalizada em monumento

Comemorações solenes aconteceram esta sexta-feira.

O número era redondo e exigia que as cerimónias fossem além das habituais. A Câmara Municipal de Vizela, em parceria com a Comissão de Festas da Cidade, elaborou, por isso um programa solene que incluiu a inauguração da exposição alusiva à data, que estará patente na Loja de Turismo, até 14 de agosto, a romagem aos cemitérios para homenagear todos aqueles que tiveram um papel fundamental na luta de Vizela pela autonomia administrativa, uma sessão solene, um jantar comemorativo e, mais à noite, um espetáculo musical com a Família Peixoto e, a fechar, uma sessão de fogo de artifício. Do programa, destaque ainda para a inaugura do monumento alusivo ao 5 de Agosto, que está agora a perpetuar a história da data no Largo que tem o mesmo nome.

 

“Quando Vizela me chama, eu estou sempre”, Carlos Magno

 

Foi emocionado, com o vídeo sobre o 5 de Agosto de 1982, que Carlos Magno iniciou a sua intervenção na sessão solene. “Ainda bem que há imagens que atestam esta luta, para que não seja esquecida”, disse. “Quando Vizela me chama, eu estou sempre”, referiu, para depois dizer que “Vizela foi, e é, um exemplo para o país”: “Aos que dizem que esta luta de Vizela não fez sentido nenhum e que é uma história bizarra da província, eu gostava de dizer que em Vizela se fez política e que a política deve ser isto”. “E quem não perceber que em Vizela se fez política de uma forma civilizada, ordeira, resistente, não percebe o que foi a luta deste país, quer antes, quer depois do 25 de Abril de 1974”. Carlos Magno era, na altura, jornalista da Antena 1, no meio de outros tantos que, a partir de Vizela em momentos conturbados, espalhavam ao país a intenção da autonomia administrativa através da garra e resistência do seu povo. “Vizela foi o local da reportagem, aqui, nós jornalistas, provámos que era possível relatar, com profissionalismo, o que se estava a passar e ter o apoio da população cuja palavra de ordem era “nos jornalistas não se bate””, disse ainda, emocionado.

Aos vizelenses quis também, no seu discurso, deixar ficar alguns pedidos: “Uma terra que tem uma freguesia como Tagilde, que ainda recentemente foi palco das comemorações dos 650 anos da aliança mais antiga do mundo, um concelho que tem esta gente, e que, tal como há 40 anos, demonstra uma capacidade de resistir a tudo, sobretudo nos tempos que aí vêm, é gente que dá confiança a este país e que serve de prova de que tudo é possível. Gostava, sobretudo, que resistissem ao politicamente correto, ao apagamento da memória, resistissem à diluição aquilo que é um bairro ou uma terra, uma identidade. Gostava que Vizela continuasse a pensar diferente”, rematou.

 

 

 

Homenagens ao povo de Vizela prosseguem em 2023

 

É em 2023 que Vizela assinala a passagem de 25 anos de concelho, de autonomia administrativa, e as comemorações irão de janeiro a dezembro. A afirmação foi de Victor Hugo Salgado, que se diz “um autarca orgulhoso”, uma vez que, um dos motes de se candidatar à autarquia foi “fazer desenvolver Vizela, que estava parada”. “Em 2023 vamos marcar Vizela com estes 25 anos, pois vamos comemorar na primeira pessoa porque as comemorações vão permitir que muitos, independentemente de opiniões e pontos de vista, possam falar sobre a luta autonómica. Está já a ser feito documentário, em parceria com a Rádio Vizela, onde dezenas de pessoas vão dizer o que sentem e pensam sobre a luta de Vizela”, referiu o autarca adiantando ainda que, também em 2023, será lançado um livro “com pouca escrita e muitas imagens sobre a luta do povo vizelense”.

Mas voltando ao 5 de Agosto, Victor Hugo Salgado não esqueceu o MRCV e o Grupo A Pesada. “Entenda-se, MRCV, os que consolidavam o percurso nos corredores na Assembleia da República, no contacto com os partidos, era a intervenção formal. Depois temos a luta de rua, sem liderança as pessoas não tinham caminho, e por isso é que foram todos precisos, precisámos também d’A Pesada. Só todos juntos conseguimos”. “Quem percebe o que se passou verdadeiramente em Vizela, nessas lutas, foi quem participou e levou mais longe um dos objetivos fundamentais que era o alcance do objetivo”: “Esta homenagem que fazemos é a prova da maior união do povo de Vizela. O comboio que ficou aqui retido, deixou de levar pessoas para a escola, para o trabalho, mas a verdade é que com todo o constrangimento, ninguém se levantou contra o facto de ele ter ficado parado. E isso prova o quanto o povo estava unido”.

 

“Monumento simples, mas que diz muito”

 

Foi o que disse o autarca de Vizela. “Quem é de Vizela ou quem acompanhou a luta, consegue perceber o que está aqui. Temos as linhas torcidas do comboio de então, que foram arrancadas com a força braçal, travando a circulação. Temos os travessos de madeira onde estavam agarradas as linhas e temos a brita graúda no piso, onde pousavam as linhas”, explicou o edil.

Por baixo do monumento lê-se: “Quarenta anos depois de um dos marcos da nossa luta autonómica, a Câmara Municipal de Vizela não esquece os homens e as mulheres que travaram esta luta em nome de um ideário chamado concelho de Vizela, homenageando todos aqueles que fizeram de um sonho comum, a independência de um povo. Se dúvidas houvesse quanto à perseverança dos vizelenses na luta pela sua autonomia administrativa, as mesmas dissipar-se-iam quando o povo saiu à rua e mesmo debaixo de fogo, mostrou e provou que a união faz a força e que ninguém o iria travar quanto à conquista da sua independência”. No momento do descerramento da placa, não faltou a ronca que na altura convocava o povo para a rua e que ainda emociona.

A comemoração dos 40 anos do 5 de Agosto de 1982 prosseguiu com um jantar, depois a música esteve entregue à Família Peixoto, terminando a noite com uma sessão de fogo de artifício.

 

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