Artistas circenses sem atividade há quatro meses

“O circo tradicional não tem apoio, não é considerado cultura em Portugal”, lamenta Jéssica Torralvo.

O primeiro espetáculo da nova tournée do “Jéssica Circus” foi no dia 01 de março e o último oito dias depois. As restrições impostas pela Direção Geral de Saúde, devido à propagação do novo coronavírus, contemplaram o término dos espetáculos. “Não sabíamos o que é que vinha por aí, não sabíamos que ia ter esta dimensão”. A empresária tinha já contratos fechados com Câmaras Municipais e empresas para levar o seu espetáculo às localidades durante o mês de março, mas viu tudo cancelado, assim como alguns espetáculos para o próximo ano, que ficaram se efeito. Ou seja, nesta altura, estão em causa dez pessoas que integram a sua equipa de trabalho que se veem sem qualquer rendimento desde março.

“Recebemos zero, até agora”, lamenta Jéssica Torralvo. “O circo tradicional não tem apoio, não é considerado cultura, há apoios para todos menos para nós. O circo contemporâneo sempre recebeu apoios, agora o circo tradicional não tem direito”, diz a artista, afirmando sentir mágoa: “Para quem já vem de família de circo, que é o meu caso. Os meus bisavós já eram donos de circos e nunca recebemos nada, vivemos disto, andamos sempre com a “casa às costas”, não temos direito a nada”.

“Andamos a bater às portas e nenhuma abre”

Quando percebeu que a inatividade do setor poderia tardar a retomar, Jéssica começou a traçar caminho. E bateu a algumas portas: “Já batemos à porta da Câmara Municipal de Vizela, da Cruz Vermelha de Guimarães, da Santa Casa da Misericórdia de Vizela e andamos por aí, já mandamos alguns requerimentos para várias Câmaras do país, e a resposta é sempre a mesma. Andamos a bater às portas e nenhuma abre”.

Mas haveria algum formato, dentro da vossa área, que vos pudesse ajudar a ganhar dinheiro para viver? Questionamos. “Tenho colegas que estão a fazer espetáculos sem tenda, colocam os camiões à volta, cobram o bilhete, tudo normal, com uso obrigatório de máscara, desinfetante e conseguem ganhar algum, para o dia a dia No nosso caso, pensamos numa alternativa que seria colocar o minibar do circo - temos um reboque todo equipado com a maquinaria – num ponto da cidade. Propusemos à Câmara Municipal de Vizela este apoio, precisávamos apenas de um espacinho para colocar este reboque, mas não deixaram, o que nos deixa triste, é a nossa cidade”, respondeu a artista. “Chegámos a oferecer as nossas tendas a Vizela, caso fosse necessário para apoio ao tratamento da Covid-19, tudo gratuito (…) Não nos responderam, nem para agradecer, nem para dizer que não, ao contrário da Câmara Municipal de Guimarães. Desmotivação é o estado de espírito atual. “Investi o que tinha e o que não e de repente tenho que parar, não posso ir buscar esse dinheiro de novo para viver”, lamenta. Grave é não saber quando poderá retomar a atividade. Dezembro, o mês rentável para a atividade circense, está aí, e o mais provável é que não seja possível promover espetáculos. Isto é, esvai-se o pé de meia para os meses seguintes. “Ao menos se recebêssemos o apoio que o circo contemporâneo recebe já estava muito bom”, considera.

Do Estado também não obteve qualquer ajuda financeira. “O que me foi dito é que eu não tinha três meses de atividade aberta. Não esquecer que as pessoas que trabalharam comigo receberam também têm, tal como eu, as suas poupanças a terminar, a situação está a ficar mesmo muito apertada”, afirma a artista vizelense.

 Câmara decidiu não abrir precedentes

Contactado pela Rádio Vizela e pelo RVJornal, o presidente da Câmara Municipal de Vizela referiu que a posição da autarquia é a mesma que “tem tido perante centenas de pedidos que têm chegado”. Há muita gente, não só de Vizela, mas da região e do país, que está ligada a um conjunto de atividades que atualmente ainda não retomaram. “Somos invadidos diariamente com pedidos de todos os que trabalham na venda de pipocas, farturas, carrinhos. Atendendo ao período em que nos encontramos, a nossa decisão foi não abrir exceções, senão teríamos que aceder a todos os pedidos. Ia tornar-se uma regra que poderia causar problemas do ponto de vista de saúde pública que poderá colocar em causa um trabalho que fomos desenvolvendo de forma afincada, com a dedicação dos vizelenses”, disse Victor Hugo Salgado.

Reportagem na íntegra para conferir na edição do RVJornal que já se encontra nas bancas.