Aproximar-se dos livros com Leituras Silenciosas

O desafio é simplesmente estar sossegado, em silêncio, enquanto se ouve uma história de cinco minutos.

Leituras Silenciosas é um projeto do Agrupamento de Escolas de Vizela e é desenvolvido junto dos alunos do 3º, 4º (1º ciclo) e 5º anos (2º ciclo).

 

A Rádio Vizela foi acompanhar uma destas sessões na EB Maria de Lurdes Sampaio Melo, em Santo Adrião. A sala de aula está transformada, as carteiras e cadeiras onde habitualmente os alunos se sentam, em frente ao quadro, estão hoje dispersas pela sala, junto às paredes. Ao centro, um grande colchão, luzes desligadas, estores para baixo para limitar a luminosidade do dia, e no chão – bem perto do colchão – vemos vendas, taças tibetanas, um candeeiro, pequenas velas ligadas, ouvimos o som de uma música relaxante e, no meio de tudo isto, uma história. Mas como se chegou até aqui? Aníbal Ruão, professor bibliotecário na Escola Secundária de Vizela, e responsável pela dinamização do projeto Leituras Silenciosas, explica: “No final do ano letivo, um dos parâmetros da avaliação do trabalho desenvolvido na biblioteca é perceber se os alunos fizeram requisições [de livros], sim ou não e quanto, ao perceber que o número era reduzido, foi um bocado frustrante e pensando nessa realidade, questionei-me como se poderia resolver isso”. O professor não sabe “se as Leituras Silenciosas vão resolver” esse problema, mas a ideia é plantar uma semente nos alunos para que ganhem gosto e prazer com a leitura.

O professor bibliotecário tinha uma formação em taças tibetanas e, embora o intuito da formação não tenha sido utilizar os efeitos desta terapia de som com os alunos, a verdade é que Aníbal Ruão viu que aqui poderia estar uma ferramenta para ajudar os alunos a aproximarem-se dos livros. “A formação nunca foi pensada para que fosse replicada nisto, isto foi pensado num primeiro momento pelo prazer que tinha em lidar com este tipo de instrumento. Há uma ideia terapêutica à volta da utilização das taças tibetanas, na Alemanha, nos hospitais, eles não têm complexos nenhuns em utilizar isto, penso que com a ideia de proporcionar o relaxamento nas pessoas”.

 

“O principal objetivo é que isto seja um estímulo para a leitura”

 

A ideia é fazer com que os alunos parem, fiquem em silêncio e se abstraiam dos estímulos do dia a dia. “Quando estamos envolvidos pelo som, pela vibração que estas taças produzem, isso conduz-nos a um bem-estar. Com a leitura, eu não quero chamar meditação, mas se nos deixarmos levar, os miúdos envolvem-se na própria história”. Por isso, “o principal objetivo é que isto seja um estímulo para a leitura”, adianta o docente.

“O estar quieto pode ser muito prazeroso e quando eles [os alunos] darem conta disso, que o estar quieto e em silêncio é bom, acho que está meio caminho andado para eles a seguir pegarem num livro e terem prazer em lê-lo”, acrescenta Aníbal Ruão.

O professor bibliotecário acredita que estas sessões poderão ter repercussões positivas nas salas de aula, com os alunos a estarem mais concentrados e menos irrequietos. Como refere a expressão popular, “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”: “Isso são consequências, depois tudo isso passa a ser normal. Este tipo de atividade, com alguma sistematização, acredito que possa trazer benefícios a todos os níveis, dentro da escola, dentro da sala de aula e fora do espaço escolar”.

 

Projeto começou no ano letivo passado

 

As Leituras Silenciosas começam com a preparação do ambiente adequado às sessões. Os alunos entram na sala de aula, fazem exercícios de relaxamento, que os ajudam a “entrar no espírito do momento”, depois deitam-se, colocam uma espécie de venda preta nos olhos e deixam-se guiar pela história que Aníbal Ruão conta com o ritmo das taças tibetanas. Terminada a história, é altura de conversarem sobre aquilo que ouviram no conto e, finalmente, novamente deitados, o professor leva as taças tibetanas por cada um dos alunos. “É a chamada massagem do som”, disse o docente. Mas a sessão não termina aqui, pois cada aluno levará a história consigo para casa: “O objetivo é obrigá-los [os pais] também a desligarem-se um bocado da televisão e do telemóvel e criarem um ambiente para que entre quatro a cinco minutos, que é o tempo que dura a contar a história, os filhos estão ali a ler para os pais, e se os pais estiverem atentos também esse momento pode ser bom”.

As Leituras Silenciosas começaram no ano letivo passado, apenas para as turmas do 3º e 4º anos e, na edição deste ano, o projeto alargou-se também ao 5º ano. “A aposta é fazer uma sessão por mês com cada turma”, no entanto, não esconde que o ideal seria que as sessões fossem mais recorrentes: “Não tenho dúvida nenhuma que se as sessões fossem mais frequentes os benefícios para os alunos seriam maiores. Esta correria que nós vivemos permanentemente, em casa, no trabalho, até nas próprias aulas, durante os exames, é tudo sempre a correr. E esquecemo-nos que na altura dos exames eles têm que estar quietos, parados, com o cérebro preparado para dar o seu melhor. Acho que este tipo de atividades para o próprio desenvolvimento cerebral pode ser uma mais-valia. Não tenho dúvidas sobre isso”.

 

“O intuito é mesmo esse, parar”

 

“O meu sonho era que daqui a 10 anos, com estes alunos já na Secundário, e fossem eles a vier ter comigo para fazer Leituras Silenciosas”, explica Aníbal Ruão, acrescentando: “Colegas da Secundária tinham preparado uma atividade para quarta-feira à tarde, para alunos do 12º ano. Era uma atividade com temas que são absolutamente vitais para aquela faixa etária. Sabe quantos [alunos] apareceram? Zero. E qual a razão? Porque não têm aulas na quarta-feira à tarde. Ou seja, a escola só serve para ter aulas, não serve para mais nada. Não sei se isso é cultural, se é falta de hábito. De maneira que desenvolver alguma atividade fora do horário é cum complicação”, lamenta Aníbal Ruão.

O feedback das Leituras Silenciosas “tem sido excelente”, deu conta o professor, que no ano passado, num sábado à tarde, fez esta atividade no Jardim de Infância de S. João para filhos e pais. “Não cabia mais ninguém. O espaço estava repleto. O feedback é excelente e isso é prova de que andamos todos muito envolvidos, muito cansados dos estímulos que estamos permanentemente a ser sujeitos. Esta necessidade de parar, porque o intuito é mesmo esse, parar”.