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Pombos bravos do Casino hospedam-se no Hotel

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Na terça-feira passei pela rua principal da cidade (o nosso pequeno sambódromo tão adaptado a cortejos, procissões, corsos, batalhas de flores, gericadas, desfiles variados e afins) e não parecia dia de Carnaval. A super-centenária rua Dr. Abílio Torres já está morta de si há muito tempo (falta saber que vitalidade lhe vai devolver o sentido único de trânsito numa altura em que está previsto o «desvio» da Repartição de Finanças para as Polés) e nem no dia de Carnaval anima. Desde que os saudosos Gaio e Camilo nos deixaram e o Ramiro desistiu destas andanças, o Carnaval em Vizela torna mais só e solitário o bilhete postal da rua principal. O silêncio era sepulcral em terça-feira gorda, qual cidade-fantasma. Por tão grande silêncio carnavalesco que a ditosa artéria (apelidada antigamente pelos nossos detractores como «risca ao meio» para desmereceram a criação do Concelho) devotava, era audível o arrulhar dos bandos de pombos bravos que decidiram (não discuto a escolha) fazer dos telhados do “desabitado” Hotel Sul Americano o seu novo poiso.

A muda de casa não obedeceu a grandes distanciamentos porquanto as carinhosas avezinhas (tão perseguidas nas grandes cidades por preocupados autarcas defensores de estátuas e outros calhaus que dizem ser carcomidos pelos sinais fisiológicos das pombas), tiveram apenas de atravessar a rua a pé ou em voo (um salto de pardal) desde o prédio frontal ao Hotel, cuja fama era mundial, o Casino Peninsular.

Com o Casino em obras profundas para reabrir daqui a pouco meses, os pombos deixaram de ter sossego para dormir e procriar. Tendo sido informados por jornais, rádios e TV que o Hotel Sul Americano fechara portas, a cadeado, a aquistas, turistas, artistas e outros forasteiros, ficando à mercê de intrusos vindos do céu, os pombos, famosos pelas suas grandes colónias, decidiram, sem que alguém lhes fizesse oposição, tornar o Hotel o seu novo quartel-general. Calcula-se que sejam pombos abastados pois rejeitam viver com os seus irmãos na habitação social que a Câmara implantou junto aos patos no lago grande do Parque.

Os pombos, coitadinhos, estão longe de serem considerados uma praga pública. “No entanto (diz a enciclopédia comprada às prestações), quando em grande número num determinado local podem causar danos à saúde e ao ambiente através de inúmeras doenças. “As doenças acometem principalmente as pessoas que estão com o seu sistema de defesa enfraquecido, pelo uso crónico de medicamentos como os corticóides, usados no tratamento de alergia, bronquites, transplantes e nefrites”, ou seja, o tipo de pessoas que vêm para Vizela procurar receita.

“Além de prejudicar a nossa saúde, os pombos também causam danos materiais, pois as suas fezes ácidas corroem metal, descolorem pedras, apodrecem madeira, danificam superfícies e as suas penas entopem calhas e ralos”.

Querem dar uma olhadela à esplanada do Hotel? Vejam o que está pelo chão. Fezes e penas aos montes. Mete pena!

Não posso jurar mas pareceu-me ouvir no meio do arrulhar dos pombos outros sinais canoros, talvez o grito das duas garças que embelezam o Parque e a Ilha dos Amores. Compreende-se. Quem não gostaria de viver à borla num Hotel 3 Estrelas?

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