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Encontro em Vizela com Vice-Cônsul dos Estados Unidos

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A gravidade dos acontecimentos ocorridos em Vizela causados pela invasão de forças militarizadas no dia 5 de Agosto de 1982, determinada pelo Ministro da Administração Interna, Ângelo Correia, causou grande sensação e apreensão tanto no país como no estrangeiro como, aliás, ficou comprovado pelo pedido do Vice-Cônsul dos Estados Unidos no Porto, Francis T. Scanlan, de um encontro em Vizela com o líder do MRCV.

Antes do mais, parece oportuno recordar que, após 1982 e até 1998, ano da vitória da causa da autonomia administrativa, a dolorosa efeméride era anualmente recordada com uma evocação nocturna no Jardim Manuel Faria, levada a efeito pelo movimento independentista de colaboração com o semanário «Notícias de Vizela», evocação que me parece necessária retomar, pelo que irei propor aos meus camaradas do MRCV que, em tal sentido, se faça um convite de colaboração à Câmara Municipal para a retomada do evento.

O clima que se vivia em Vizela nos anos oitenta, muito particularmente em 1982 por efeito do acontecimento referido, era de um sentimento de permanente guerrilha, que toda a população vivia com um misto de determinação e paralela preocupação quanto ao futuro, proliferando no nosso meio um misto de notícias verídicas e de boatos. Foi por isso que entendi como brincadeira de alguém o que passo a contar:

Na tarde do dia 23 de Agosto do relembrado ano de 1982, encontrando-me na minha banca de trabalho, na empresa «Sedas Vizela», fui informado que havia ali chegado um telefonema do Consulado no Porto dos Estados Unidos da América do Norte, anunciando que o senhor Vice-Cônsul pretendia falar comigo. Fiquei surpreendido e incrédulo, pensando no ditado que diz que «em tempo de guerra, mentira como terra», dizendo por isso à telefonista em serviço (minha sobrinha) que duvidava da veracidade do telefonema pois não tinha na ideia emigrar para os States. Pedi por isso para responder que no momento estava ocupado e que estabeleceria ligação logo que possível, o que foi feito após confirmado pelos CTT o número do telefone do Consulado.

Efectuado o contacto, o senhor Vice-Cônsul, ele próprio, disse-me que tinha muito interesse e urgência em falar comigo, pelo que logo ficou marcado um encontro para a manhã do dia seguinte, aprazado para o Hotel Sul-Americano.

Como era mais que evidente que o conteúdo do diálogo versaria sobre a reivindicação concelhia, convidei para estarem presentes nesse encontro os então presidentes da Juntas de Freguesia, de São João e de São Miguel, saudosos amigos Augusto Faria Torres e Gabriel Coelho Dias.

Simpático e bem-humorado, Francis Scalan disse ao que vinha e porque vinha, sendo depois levado a visitar as Termas, o Parque, bem como as mais relevantes instituições locais, designadamente os Bombeiros e o Hospital, onde neste último o seu semblante se conturbou ao observar vagas as enfermarias devido à desactivação do nosso hospital, resultante da alteração da rede hospitalar efectuada nessa altura pelo Governo.

Escrevi-lhe, no dia seguinte, a agradecer a visita, recebendo em resposta o seguinte ofício:

« Desejo muito sinceramente agradecer a carta de V. Exa. de 25 do corrente mês. Foi um prazer ter tido a oportunidade de me encontrar consigo e francamente lhe dizer que apreciei imenso todo o tempo que me dispensou mostrando-me Vizela e explicando-me os vários problemas e aspirações do povo dessa vila.

Conforme a discussão que tivemos durante a minha visita, fui aí unicamente pela minha prática de diplomata, o qual deve estar sempre informado sobre os acontecimentos do país a que está acreditado. O caso de Vizela interessou-me particularmente, por ser um problema local que possa ter implicações nacionais. Naturalmente, como representante estrangeiro não posso nem devo tomar partido ou exprimir uma opinião pública sobre qualquer assunto interno de Portugal.

Uma vez mais lhe agradeço toda a hospitalidade com que me rodearam em Vizela. »

Recordando o semblante de tristeza que lhe observei durante a aludida visita às enfermarias, dias depois voltei a escrever-lhe pedindo uma ajuda do Governo do seu país para a remodelação do Hospital, recebendo a seguinte resposta: (…) Queria salientar que até à data o Governo Americano já financiou o Governo Português em 17 milhões de dólares, só no campo da Saúde. Esta quantia foi empregue na construção de 14 Centros de Saúde e um estágio para enfermeiras. Presentemente, todos os fundos disponíveis destinados ao campo da Saúde em Portugal foram já distribuídos, não havendo por isso possibilidades de colaboração neste momento, lamentando não poder ser útil a V.Exa.

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