Saúde a patacos

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No início de um novo ano somos confrontados com “velhas” decisões políticas, no alegado cumprimento dos ditames da famigerada troika, que mais uma vez se irão repercutir nas famílias mais debilitadas da nossa comunidade.

Agora, calhou-nos em sorte a decisão prepotente, num primeiro momento, dos responsáveis da Saúde de suspender, sem qualquer tipo de justificação, o alargamento do horário do funcionamento do Centro de Saúde, determinando o fecho da unidade ao fim de semana e feriados, bem como de segunda a sexta-feira, entre as 20h00 e as 22h00. Esta decisão, por sinal apresentada de forma unilateral pelo ex-director do Agrupamento dos Centros de Saúde (ACES) Guimarães/Vizela, em vésperas de se aposentar, e imediatamente aceite pela Administração Regional de Saúde (ARS) do Norte, não terá sido analisada pelo Conselho da Comunidade do ACES que se reuniu no dia 28 de Dezembro. A informação sobre as alterações no horário de funcionamento foi dada a conhecer, quer aos profissionais de saúde, quer à população em geral, através da sua mera afixação. As reacções não se fizeram esperar, através dos pedidos de demissão dos dois elementos que representavam no Conselho da Comunidades do ACES o concelho de Vizela, sendo que um deles, o presidente da Câmara de Vizela, assumia igualmente a presidência daquele órgão.

Entretanto, as reacções por parte dos responsáveis municipais e da população, que desde logo se manifestaram contra a decisão tomada, com grande impacto na Comunicação Social nacional, no-meadamente os diferentes canais de televisão e rádio, poderão ter resultado num recuo relativamente aos cortes decididos. Assim, foi recebida no Centro de Saúde de Vizela uma comunicação do Director Interino do ACES Guimarães/Vizela, em que se informava que, pelo menos, até ao final do próximo mês de Fevereiro não haverá alterações nos horários de funcionamento desta unidade de saúde. Como justificação para tal decisão foi adiantado que a ARS Norte tem dúvidas relativamente aos custos/benefícios dos cortes do horário. Nesta conformidade, como é usual neste país, terá sido constituído um grupo de trabalho (desta vez não foi uma comissão!) para discutir o assunto e tomar as decisões julgadas mais convenientes.

Na análise desta situação, há desde logo duas questões que se nos colocam e deveriam merecer uma reflexão aprofundada dos responsáveis pela respectiva tutela. A primeira, prende-se com as alegadas dúvidas sobre os custos/benefícios dos cortes do horário de funcionamento do Centro de Saúde. Custa-nos acreditar que tenha sido tomada uma primeira decisão ser ter em consideração as eventuais vantagens ou os possíveis prejuízos que estariam em causa, sabendo-se que hoje todas as decisões governamentais são tomadas sempre no pressuposto de conseguir uma redução das despesas nos mais diversos serviços. A segunda é precisamente a falta de sensibilidade social que hoje se verifica nas decisões tomadas pelos actuais responsáveis governamentais. A fixação na vontade em concretizar uma austeridade, a todo o custo, sem atender às situações de maior debilidade financeira de uma boa parte da população, é uma lamentável imagem de marca do Estado, nas suas alargadas ramificações do serviço público nacional. Fica-nos a ideia que as pessoas são consideradas como meros números a ter em conta para as tomadas de decisão que estarão previamente decididas. É, pois, neste contexto que temos sido confrontados com uma investida sem precedentes ao débil estado social que tanto custou a construir neste país.

De facto, sob o pretexto de dar cumprimento ao memorando acordado com a troika, têm sido concretizadas as políticas de liberalização do Estado que colidem frontalmente com os interesses e as necessidades primárias da população. Qualquer dia vão-nos dizer que o direito à Saúde, é um bem demasiado caro para ser assegurado a cada um de nós, e à semelhança do que terá afirmado recentemente uma ilustre ex-responsável social democrata, quem quiser aceder a tão preciso bem terá de pagá-lo integralmente, ou caso não tenha recursos financeiros, deverá esperar por um milagre.

 

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