O Ano 2012

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É habitual no momento da transição de um ano para outro expressar os melhores (12) desejos para os 12 meses que teremos pela frente. É igualmente habitual que de entre esses mesmos desejos figure aquele que reivindica um novo ano melhor do que o que está a acabar. Contudo, nos tempos que correm, face à conjuntura bem sombria que se tem vindo a manifestar, haverá uma abordagem mais “pragmática” ao futuro próximo com que nos iremos defrontar, pelo que os nossos desejos passam por aspirar a que os próximos trezentos e sessenta e seis dias não sejam piores que o ano agora findo. De facto, os acontecimentos têm-se manifestado de um modo tão negativo e tão brusco, que nos obrigam a reagir de forma cautelosa quanto à evolução que poderá resultar de todo este contexto político, económico e social em que actualmente vivemos.

Efectivamente, os tempos actuais, com os recorrentes “sacrifícios” que nos têm sido apresentados pelo Governo, com o alegado objectivo de dar cumprimento ao Memorando de Entendimento assinado com a famigerada troika, não nos permitem perspectivar nada de bom para os meses (ou anos?) mais próximos. Infelizmente, a situação de bancarrota a que chegamos levou-nos a cair nas malhas das leis implacáveis do mercado internacional, que através dos seus juros especulativos, de verdadeiros agiotas internacionais, está a comprometer seriamente o nosso incipiente Estado-Providência, construído nos últimos 30 anos.

Nesta conjuntura assistimos, praticamente em estado de choque, aos cortes brutais que nos últimos tempos têm sido aplicados nos diversos sectores da nossa sociedade, desde a área da saúde, à acção social e à educação, pondo em causa a estabilidade e a coesão social que tanto custaram a promover nos últimos anos. Somos cada vez mais confrontados com o empobrecimento global da população portuguesa, através de uma evidente ruptura no princípio da equidade social, com um aumento vergonhoso da distribuição da riqueza. Com efeito, ao contrário do que deveria pressupor uma sociedade verdadeiramente democrática, como se verifica por exemplo nos países nórdicos, somos confrontados com um fosso cada vez mais acentuado entre os rendimentos dos mais ricos (que são cada vez mais ricos) e os rendimentos dos mais pobres (que são cada vez mais pobres). Entretanto, as políticas assumidas nos últimos tempos, acabam por fragilizar uma classe média pouco consistente, que foi a principal vítima de uma sociedade de consumo, que a levou a níveis de endividamento que face aos “cortes” decididos se vê atirada para uma situação de insolvência generalizada. É, pois, neste contexto de aumento significativo do custo de vida que entramos no novo ano, procurando ir além do que determina o governo da troika e correndo seriamente o risco de dar plena expressão àquele ditado popular que profetiza que o doente não morre vítima da doença mas antes vítima da cura imposta. Efectivamente, as medidas determinadas pelo actual governo, com maior expressão na área da saúde, através de aumentos exponenciais nas taxas moderadoras que os utentes terão de pagar, quer nos Centros de Saúde, quer nos Hospitais, e ainda no aumento dos preços dos bens e serviços essenciais, acarretarão consequências bem negativas na qualidade de vida da população em geral. Por outro lado, não se vislumbra qualquer decisão que promova objectivamente o crescimento económico do país, ou que estimule a criação de empregos a nível nacional. Antes pelo contrário, as mais recentes propostas dos governantes deste país vão no sentido de promoverem a emigração, principalmente dos jovens com maior qualificação académica e profissional, em que o Estado investiu milhões de euros na respectiva formação e agora se propõe descartar.

Concluindo, o ano que estamos agora a iniciar, não se apresenta nada favorável, tanto na perspectiva de uma efectiva prosperidade pessoal, como na melhoria colectiva, que seria fundamental para o nosso futuro como país, onde a equidade social e financeira se pudesse afirmar plenamente. Resta-nos desejar que, neste ano de todos os receios, possamos atingir níveis de satisfação muito próximos dos conseguidos no ano de 2011.

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