Terá chegado a redenção do “Castelo da Ponte”?

Eugénio Silva

2019-12-05

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O poder municipal não se pode eximir às responsabilidades de cuidar do que recebe das gerações que o antecedera. É seu dever dar especial atenção ao cuidar da memória e do património histórico, não só como realidades do nosso passado identitário mas também como deveres do presente. Abundam, no entanto, os exemplos a mostrar excessiva indiferença, sobressaindo a inexistência de estratégias na sua conservação e reabilitação, sobretudo património edificado. Há, até, deíficos que parecem nascer já predestinados à contumaz desdita da traição, desleixo e abandono. Marcado por uma triste e errática vida existencial, o “Castelo da Ponte” apresenta-se-nos como singular exemplo de ignominiosa predestinação humana sem precedentes.

Acerca dele, não será por demais relembrar que, em 1905, na sequência do primeiro pedido de emancipação administrativa do século XX, foi imposto a Vizela a construção de um edifício que servisse de Paços do Concelho. Para essa finalidade, Armindo de Freitas Ribeiro de Faria, ilustre médico vizelense, ordenou, em estilo neogótico, a sua edificação, ficando, um ano depois, concluído em tempo recorde, pela quantia de 60:000$000 réis.

Enquanto aguardou pela restauração do concelho de Vizela, serviu nas primeiras décadas do século passado, de palco a animadas tertúlias, bailes e periódicas sessões de animatógrafo. Foi, ainda, habitação e colégio de ensino particular. Em 1998, poderia ter cumprido a sua missão – sede do município de Vizela – mas, sabe-se lá bem porquê, acabou por ser vítima de traição por todos aqueles que tinham o dever e a obrigação de fazer cumprir o seu destino. Em 2007, pelo valor de um milhão de euros, a Câmara Municipal de Vizela, talvez a mitigar-lhe a traição, acaba por o comprar aos herdeiros do ilustre vizelense. Pouco depois, com pompa e circunstância, anuncia-lhe um projeto de requalificação destinado à instalação da Biblioteca e Auditório municipais (o que lhe restauraria a dignidade perdida), mas, sabe-se lá bem porquê, foi esquecido numa gaveta. Desde então e até hoje, o edifício agonia numa execrável e vergonhosa ruína.

Dado o seu estado calamitoso, no decorrer da campanha eleitoral para as Autárquicas de 2017, o imóvel mereceu propostas de redenção. Célere, o Movimento Vizela Sempre (MVS) apontou para a criação de um “Centro Empresarial no Castelo da Ponte”, aproveitando para acusar os seus adversários políticos de apenas garantirem os estudos conducentes às melhores soluções para ele. Foi nesta base que assentou a muito séria e rigorosa proposta do Partido Socialista, em que o anúncio público da sua requalificação apenas aconteceria quando e só quando houvesse um estudo sério e rigoroso que contemplasse, entre muitas outras questões: as finalidades culturais, recursos, estratégias, atores e interlocutores principais; o modelo de gestão, as fontes de financiamento, níveis de despesa e projeção de indicadores de resultados (económicos e culturais) a alcançar.

Agora, como que a dar-nos razão, o atual executivo municipal anunciou um estudo criterioso que tanto poderá transformar o imóvel em “Centro Empresarial” ou em “Hotel de Referência”, a concessionar a privados, por um período de 25 anos. Se assim for, estaremos perante mais um incumprimento de promessas eleitorais produzidas pelo MVS. No entanto, ao considerar-se o “Castelo da Ponte”como património histórico edificado, uma realidade complexa, viva até, que tem profundas ligações com a nossa história, identidade e cultura, não me chocará que lhe dêem exploração desde que esteja sempre presente o superior sentido de proteção o que, consequentemente, criará um binómio perfeito entre preservação/exploração. Reflita-se, assim, nalguns aspectos que se antevêem fundamentais no respeito pela sua autenticidade e integridade, como por exemplo:

1- Na celeridade exigida pelos promotores e atores privados às obras de reabilitação e consequente risco na qualidade e durabilidade da obra;

2 - Nas intervenções que não respeitem o valor patrimonial da construção existente por serem incapazes de suportar programas desadequados aos seus interesses particulares;

3 - Custos desajustados ao valor intrínseco do edifício reabilitado, o que, apesar de ser atrativo  a curto prazo do ponto de vista económico e financeiro, deverá exigir uma reflexão rigorosa  sobre a sua sustentabilidade  a médio e longo prazo;
4 - A adoção de soluções construtivas que atendam a eficientes condições de utilização, designadamente as do ponto de vista energético e da melhoria do conforto e bem-estar.

Se assim acontecer, se não passar de mais uma promessa vã, teremos cumprido o dever de proteção e salvaguarda da herança e da memória que nos foram legadas. E o “Castelo da Ponte”, enquanto símbolo da vontade de uma terra e de um povo que, desde o Liberalismo até 1998, lutaram pelo seu desenvolvimento e independência, merece que o salvem da ruína e lhe devolvam um pouco da dignidade roubada.