“Só morremos uma vez”

Dora Carvalho

2019-10-17

Partilhe:


É urgente trazer ao espaço público a necessidade de falar sobre o caminho que todos iremos fazer um dia, numa fase fim de vida, quando a evolução tecnológica e científica e os avanços da medicina não tiverem a possibilidade de nos garantir a cura para a doença. Morremos hoje bem mais tarde que os nossos antepassados. Mas, continuamos e iremos continuar a morrer em qualquer idade. É uma inevitabilidade! E temos todos, inclusivamente, nós (os profissionais de saúde) muito medo de pensar nisto.   Como é que se vive hoje em Portugal quando enfrentamos problemas decorrentes de uma doença incurável e/ou grave e com prognóstico limitado? Vive-se… e é possível viver com qualidade de vida se beneficiarmos do apoio de pessoas e profissionais de saúde que prestam cuidados ao doente e à sua família, que permitam prevenir e aliviar o sofrimento com recurso à identificação precoce e tratamento rigoroso dos problemas não só físicos, nomeadamente a dor, mas também dos psicológicos, sociais e espirituais. É esta a forma como a Organização Mundial de Saúde define Cuidados Paliativos (CP).  A Lei de Bases de Cuidados Paliativos (Lei n.º 52/2012, de 5 de setembro) consagra o direito e regula o acesso dos cidadãos aos cuidados paliativos, que podem ser prestados por unidades de internamento de CP, equipas intra-hospitalares de suporte (incluindo pediátricas) ou no domicílio por equipas comunitárias de suporte. As unidades de internamento da Rede Nacional de Cuidados Continuados não tendo diferenciação específica neste tipo de cuidados podem receber utentes com necessidades paliativas não complexas, com sintomas controlados, devendo articular-se com as equipas locais de cuidados paliativos para assegurar uma abordagem paliativa de qualidade.  O dia-a-dia numa unidade de longa duração na RNCCI - com o elevado número de utentes numa faixa etária privilegiadamente avançada, diagnósticos médicos graves e suas inúmeras comorbilidades, a reduzida capacidade das pessoas em assegurar as tarefas mais básicas de vida – confronta-nos frequentemente com a presença da morte e, impele todos os profissionais de uma equipa interdisciplinar a pensar sobre ela, na forma como podemos atenuar os seus efeitos e a encará-la como um processo natural, sem recurso a meios artificiais e estratégia terapêuticas fúteis que prolonguem a vida a todo o custo.        
Não somos insensíveis mas aprendemos, através do conhecimento baseado na experiência, em muitas horas de formação e treino dirigido, a reconhecer com perícia os principais sintomas e a tentar controlá-los e minimizá-los. É aqui que a vertente mais tecnicista dos cuidados e a evolução da medicina impera e se encerra, no alívio do sofrimento físico, apenas para que com uma assistência individualizada e personalizada, a pessoa tenha mais e melhor vida nos seus dias.
Afirmamos a vida até ao fim, com dignidade, honrando e incentivando a presença das pessoas ou outros significativos para o doente, sem horário ou limite de visitas, lembrando o valor das relações e da história de vida de cada um, da importância da presença, das palavras e abraços que, eventualmente ficaram por dar no passado, e dos afetos. Daquilo que na vida realmente importa.
Falamos abertamente, se esta for a vontade do doente e da família, nos dias que estarão por vir e nas crises que podemos antecipar. Acreditamos que temos sempre mais medo daquilo que desconhecemos. Tomamos decisões difíceis em conjunto, entre profissionais diferentes e sempre com os utentes e com as suas famílias. Nesta esfera dos cuidados de saúde, resumimos a nossa intervenção e chamamos-lhes de uma forma quase carinhosa, cuidados de conforto. Emocionalmente intensos e intensivos, em que revivemos com cada doente as nossas próprias fragilidades e angústias. E reinventamo-nos como pessoas, ajudando a criar histórias que mesmo com a morte podem ter finais felizes!  
E somos gratos com todos os que têm cruzado o nosso caminho, em especial todos os doentes e famílias, que nos têm tornado melhores profissionais e, acima de tudo, melhores pessoas…