Retratos à la minuta

Domingos Pedrosa

2019-06-06

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Isto de ter noventa anos não obriga a ver só televisão, ouvir música, ler, jogar xadrez com o computador e fazer sudoku’s muito difíceis, para melhor exercitar o cérebro. Além de tudo isto, a mim, apeteceu-me lembrar pedaços da nossa história, mostrar retratos “à la minuta” de insignes portugueses. São retratos verdadeiros, contrariam os que afirmam que a história é uma “chorrilhada” de mentiras. Mentiras que se tornaram verdades depois de muitas vezes repetidas, como disse Goering, o gordo braço direito de Hitler. Opinião diferente teve Cícero que disse que a história é a mãe da verdade. Para muitos não. O americano Nick Tosches, até diz que a bíblia é obra de sábios e de loucos, de videntes e de poetas, de autores de fábulas e de mitos, de estudiosos de um passado que nunca existiu e profetas depois dos acontecimentos.
É sem olhar para estes conceitos – porque nada tem a ver com eles – que vou então, lembrar alguns vultos da nossa história. Hoje vamos “mostrar o retrato” do nosso Primeiro Rei. Filho do Conde D. Henrique de Borgonha e de D. Teresa, filha de D. Afonso VI de Leão. Nasceu em Guimarães em 1111, e foi fundador da nossa nacionalidade e primeiro soberano da dinastia de Borgonha que durou 244 anos.  Aos 14 anos armou-se cavaleiro por suas próprias mãos na Sé de Zamora, quando sua mãe e o seu valido Conde de Trava, governavam o Condado durante a sua menoridade. Aos 17, instigado pelos fidalgos irritados contra o predomínio do Conde de Trava, Afonso Henriques ficou à frente de um movimento revolucionário que na Batalha de S. Mamede desbaratou as hostes de D. Teresa. Expulsando-a depois do Condado, bem como ao seu valido, Conde de Trava.
A partir da Batalha de Ourique, Afonso Henriques manifestou a ambição de ser rei, mas D. Afonso VII não deixou, recusou-se a reconhecer a sua realeza, mas, em 1143, Afonso Henriques ao declarar-se Tributário da Santa Sé com quatro onças de ouro anuais, reclamou em troca a protecção do Papa, que acedeu. Mesmo assim, D. Afonso VII ao assinar depois em Zamora a paz com Afonso Henriques, não lhe reconheceu a realeza; não protestou, porém, contra o título de rei que D. Afonso Henriques tomava, ratificado 36 anos depois (1179) pelo Papa Alexandre III, quando D. Afonso Henriques aumentou o censo anual de quatro onças, firmado em 1143, para dois marcos. 
Morreu a 6 de Dezembro de 1185 consolado com a certeza de ter deixado uma nação por ele fundada, digna da sua espada e da sua valentia, cheia de esperança de vir a ser nação valente e imortal que é, e berço de um nobre povo. 
Ordenara que o enterrassem no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, que fundou e dotou, além do de Santa Maria de Alcobaça, S. João Baptista de Tarouca e o de S. Vicente de Fora de Lisboa, onde, por sua ordem, foram depositadas as relíquias daquele santo. Fundou duas ordens militares: a da Ala e a de S. Bento de Avis. Introduziu em Portugal os Cavaleiros de Rodes e começou a Ponte de Coimbra. 
Mostrei o primeiro retrato à la minuta, e prometo mostrar mais, pelo menos já os tirei, faltam pequenos retoques. 
 

Retratos à la minuta

Domingos Pedrosa

2019-06-19

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Vamos mostrar hoje o de Santo António que nasceu em Lisboa em 1195 no Reinado de D. Sancho I. Aos quinze anos, órfão de pai e mãe, pediu aos Cónegos de Santo Agostinho, que tinham claustro às portas da cidade, que o admitisse na comunidade. Foi breve o seu noviciado. Santa Cruz de Coimbra, afamado como centro de estudos e crisol de fé, era o que lhe convinha para se entregar ao amor de Deus. Como a Ordem era a mesma, foi fácil a sua admissão, onde pôde beber conhecimentos que tanto ansiava. Quis ensiná-los, propagar a fé, e partiu para a África, a terra cruel do Islão, evangelizar, que era o mesmo que morrer pela fé de Cristo. O clima não deixou, e depois duma enfermidade que durou meses, reembarca. O navio que o traz, apanhado por uma tempestade, vara nas costas da Sicília onde S. Francisco de Assis, o Patriarca da Ordem e mensageiro de Deus, anda perto. Santo António pegando no bordão põe-se a caminho.
Quando em Bolonha se encontra com S. Francisco de Assis, este fica maravilhado com o seu talento, com a sua dialéctica. Desde esse dia Santo António será o Ministro das Missões Difíceis e do Ensino de Teologia em Bolonha, Tolosa e Limoges, chegando até a ser titular da cadeira de Teologia da Ordem Franciscana. Eram tão sólidos os textos de Santo António tirados da Sagrada Escritura, que os sequazes do erro não ousavam chegar à sua presença, nem proferir palavra. 
Como pregador chegou a ser ouvido por mais de 30.000 pessoas, todas tão silenciosas e atentas, como se fora uma só pessoa. Não havia igrejas para tamanhos auditórios, e o Santo tinha que pregar ao ar livre. Num dos seus sermões, os céus turvaram-se subitamente, os ares escureceram-se, e ao longe, começaram a rolar trovões. O auditório assustado, já redemoinhava em várias direcções quando Santo António brada: Meus irmãos, não retireis, ouvi o Sermão da Omnipotência Divina. Deus é Pai. Tende confiança na Sua Misericórdia e eu vos prometo que nenhum raio vos há-de ferir, nem nenhuma gota de chuva vos orvalhará os cabelos. E diz o cronista: “Terminado o sermão todos reconheceram que desfazendo-se o céu em chuva torrencial por todos os sítios, apenas a terra onde estava o pregador e o auditório, estava enxuta. 
Muitas lendas se formaram sobre Santo António, tendo-lhe sido atribuídos vários milagres. Entre estes, o de ressuscitar uma princesa, o de pregar aos peixes, o de fazer ajoelhar uma mula perante a hóstia consagrada, o de pôr cegos a ver e paralíticos a andar.
Santo António morreu em Pádua aos 36 anos de idade, a 13 de junho de 1231. Um ano depois, foi publicada a bula da sua canonização, expedida pelo Papa Gregório IX. (Uma das mais rápidas canonizações na história do Vaticano). 
Santo António morreu em pleno arroubo místico, dizendo no lance final de desprendimento terreno, sobre a cidade que lhe deu albergue: “Ó Pádua, bendita sejas! És bela e ricos são os teus prados; o céu prepara-te, porém, neste momento, Glória mais bela e mais rica, que todas as outras”. 
 

Retratos à la minuta

Domingos Pedrosa

2019-06-27

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Pedro Hispano, único Papa português, merece que se mostre também o seu retrato. É em ponto pequeno, porque pequeno foi o período que o imortalizou. É este: natural de Lisboa, celebrizou-se como um homem de saber. Médico e filósofo, foi arcediago, D. Prior da Colegiada de Guimarães, apresentado pelo nosso quinto rei, D. Afonso III, em 1273, e no mesmo ano, foi eleito Arcebispo de Braga que nunca chegou a ser por o Papa Gregório X o ter elevado a cardeal. 
Deixou uma obra vasta sobre medicina, história natural, Lógica e psicologia, grande parte da qual descoberta não há muitos anos. Desde a Idade Média que lhe foi conferido um lugar eminente nas escolas, cercando de grande fama o seu nome. Até Dante na “Divina Comédia” (Paraíso, Canto XII) faz referência a um dos seus livros. 
Depois da morte do Papa Adriano V, foi Pedro Hispano o escolhido para ser o novo Pontífice, que tomou o nome de João XXI. Distinguiu-se pela sua liberalidade e pela protecção que dispensou aos homens de Letras. No pouco tempo que durou o seu pontificado, ratificou a revogação da Constituição de Gregório X, e restaurou a paz entre França e Castela. Salvou as possessões dos cristãos na Terra Santa que estavam ameaçadas pelos muçulmanos e, condenou doutrinas professadas na Universidade de Paris acerca da Filosofia. 
Quando se sentou no trono papal, havia conflitos eclesiásticos com o Rei de Portugal, D. Afonso III, que vinham do pontificado anterior e, João XXI conhecia-os bem. O Papa Adriano V tinha ameaçado o nosso rei de que se não cumprisse as ordens da Santa Sé que seria excomungado. O nosso Rei conservou-se firme (saía ao trisavô) e a excomungação veio a efetuar-se, mas não teve grandes efeitos, nem sequer políticos. Tanto assim que, D. Afonso III escreveu ao novo pontífice – não falando da desobediência a Adriano V, nem na excomungação – atribuindo as causas das desavenças existentes, somente à corrupção e excessos do Clero em Portugal. João XXI expediu, então ao nosso Rei, uma bula em que depois de lhe lembrar quanto ele e toda a nação devia exultar por ter um filho do seu reino sentado na cadeira de S. Pedro, tudo iria fazer para bem das terras onde nascera, mas a sua morte inesperada impediu que algumas coisas se fizessem. 
Como dissemos já, o seu pontificado foi curto, de setembro de 1276 a maio de 1277. Teve uma morte trágica. Tinha-se deslocado ao Palácio Papal em Viterbo para inspeccionar a construção do novo quarto que mandara executar e, apesar de dado como concluído, o edifício ruiu e o Pontífice ficou sob os escombros sofrendo grandes e graves ferimentos. Resistiu seis dias às lesões, acabando por sucumbir. Foi pena, porque este Papa Português, afamado e original, tinha muitos projetos.
João XXI morreu, mas as suas “Súmulas” perduraram. Foram adaptadas para a instrução de Lógica na Universidade de Coimbra, com aliás o foram, em toda a Europa, durante três séculos. 
 

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Domingos Pedrosa

2019-07-04

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Hoje é o D. Nuno Álvares Pereira (Beato Nun’Álvares). Foi guerreiro, herói e santo, e, a mais alta figura da história militar portuguesa. Condestável do reino, é um dos maiores vultos da nossa história. Filho bastardo do Prior do Hospital, Álvaro Pereira, e neto do Arcebispo de Braga. Serviu três reis, e ainda hoje é considerado um dos grandes cabos-de-guerra de todos os tempos. Napoleão que foi, talvez, o maior de todos, seguiu tácticas criadas por D. Nuno, e, como D. Nuno, esperou sempre pelo inimigo em locais que dificultassem a acção dele. O célebre “quadrado” das nossas tropas, deu-nos vitórias nas Batalhas de Atoleiros e de Aljubarrota. 
Na de Atoleiros, D. Nuno dispôs as suas forças apeadas, assim: lanças à frente com o coto apoiado no terreno, e, arqueiros e besteiros à rectaguarda. Os castelhanos ao verem aquela formação – que nunca tinham visto – julgaram-na vulnerável, e decidiram atacar com a cavalaria. E foi uma hecatombe para eles. Ao primeiro embate, topando nas lanças estendidas ou feridos pelos dardos e virotões, os cavalos empinaram-se, derrubando os pesados cavaleiros vestidos de ferro, que, ao fugirem da batalha, se enovelaram com os que vinham. A batalha pouco durou porque os principais chefes castelhanos, fugiram ou ficaram mortos no campo entre os feridos que suplicavam clemência.
Esta táctica do “quadrado”, Nun’Álvares repetiu-a contra as grandes massas de cavalaria inimiga, na Batalha de Aljubarrota. O rei de Castela tinha um exército calculado em 22.000 homens, e, a nossa hoste não chegava a 7.000 combatentes. Tão grande desigualdade dava perspectiva pouco tranquilizadora para os portugueses, mas foi compensada pelo valor do chefe, o Condestável do reino, D. Nuno Álvares Pereira. O êxito na Batalha dos Atoleiros um ano antes, deu bravura aos soldados, impôs confiança a todos, que, nas batalhas, é uma das condições para as ganhar. Foram muitas as batalhas e cercos vitoriosos de Nun’Álvares, ninguém como ele alcançou tanta glória, e, D. João I, por tão prestigiosos serviços, deu-lhe o Condado de Ourém, Vila Viçosa, Borba, Estremoz, Évora-Monte, Portel, Montemor, Almada, Sacavém, Porto de Mós, Rabaçal, Bouças, Alvaiázere, Ribeira de Pena, Terras de Basto, Arco de Baúlhe, e Terras de Barroso. Deu-lhe ainda as rendas e direitos reais de Silves e Loulé. E mais lhe deu: pelo perdão que Nun’Álvares pedira por ter entrado sem licença real em território de Castela, o rei fizera-o Conde de Barcelos, com sua jurisdição e direitos.  Mas, na sólida amizade do rei e do Condestável, houve um desacordo e uma frase de D. Nuno que ficou célebre. Em fins de 1387 o rei fora a Braga onde reunira Cortes, e o Condestável ao defender certos interesses dos fidalgos, desagradou ao rei por se ver mal apoiado por aqueles. Ao ver o “amuo” do rei, Nun’Álvares, disse: “Quem serve o comum não serve nenhum”.
Só a paz entre Castela e Portugal aquietara o guerreiro e o fez abraçar a religião. Erguera o Mosteiro de Santa Maria do Carmo em Lisboa, e deu muito à Ordem onde professaria. Sob o hábito trazia o arnês dos velhos combates. Deixarei um pelo outro, voltando à peleja, se for necessário – teria dito ao embaixador de Castela. 
Morreu na cela do seu Convento em 1431, num domingo de Páscoa. A seu lado, choravam alguns dos 32 filhos que teve, o rei que ajudara a ganhar o reino e o príncipe Duarte, que, daí a dois anos, seria o segundo rei da Dinastia de Avis.

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Domingos Pedrosa

2019-07-11

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Paixões, já as havia nos tempos bíblicos, e, além de Sansão e Dalila, a Bíblia conta-nos ainda, o amor frustrado de Jacob, a quem Labão dera a sua filha Lia, depois dele o ter servido sete anos, para ter como prémio Raquel. E na literatura romanceada, lembro-me das paixões de Tristão e Isolda, de Romeu e Julieta, Paulo e Virgínia, Simão e Teresa, (do “Amor de Perdição”, do nosso Camilo) Heathcliff e Catarina do “Monte dos Vendavais”, todas mais ou menos fatídicas, mas nenhuma chega à dimensão trágica da paixão de Pedro e Inês. Vamos mostrar o retrato destas duas figuras da nossa história.
Inês de Castro, heroína dum dos mais célebres dramas de amor da Idade Média, era espanhola, e veio acompanhar como dama de honor, D. Constança, a esposa do príncipe D. Pedro. A formosura de Inês logo inspirou no príncipe uma violenta paixão, que causou grandes perturbações no reino, e a tragédia que lhe custou a vida.
Percebendo a rainha a inclinação que D. Pedro não podia ocultar, procurou dar-lhe remédio, convidando Inês para madrinha do seu segundo filho, supondo assim, que esse laço espiritual, acabasse com aquele desvairo. Foi inútil o expediente, porquanto a paixão continuou, e de tal modo, que provocou escândalo. Vendo D. Afonso IV que o filho não guardava o devido recato, nem obedecia aos seus pedidos, expulsou do reino Inês de Castro que se albergou num castelo na fronteira de Espanha, onde continuou recebendo o amante.
Entretanto morre D. Constança, desaparecendo assim um dos motivos que afastava Pedro de Inês, e, imediatamente o príncipe, contra a ordem expressa do pai, faz com que ela volte a Portugal, instalando-a em sua casa onde passaram a “fazer maridança”. E aqui, principia a tragédia. D. Afonso IV sabia que a força e a ambição de um irmão de Inês, não tinham limites. Ele, que já era o primeiro Conde de Arraiolos e primeiro Condestável do Reino, queria ver um filho de Inês de Castro, sentado no trono de Portugal, e isso traria inconvenientes graves para a nossa independência. Temendo isso, D. Afonso IV sancionou a execução de Inês, há muito pedida pelos seus conselheiros. Foi executada nos antigos Paços junto ao Convento de Santa Clara em Coimbra, e os executantes foram: Álvaro Gonçalves, Pedro Coelho e Diogo Lopes Pacheco. Quando degolaram Inês, segundo a prática e ritual do tempo, parece que as súplicas de Inês e os gritos dos filhos, impressionaram o velho rei.
Ao saber da morte violenta da mãe dos seus filhos, D. Pedro reúne os seus homens de armas e começa de Sul a Norte, devastando tudo que encontra no caminho e, dois anos depois, quando morre D. Afonso IV, inicia logo o seu governo pelo ajuste de contas, com os três responsáveis pela morte de Inês. Diogo Lopes Pacheco fugiu a tempo para Inglaterra, mas Álvaro Gonçalves e Pedro Coelho, foram entregues pelo rei de Castela. Encerrados em Santarém, ali compareceu D. Pedro, para assistir ao suplício. A Pedro Coelho foi-lhe tirado o coração pelo peito, e a Álvaro Gonçalves, pelas costas. Apresentados numa bandeja ao rei, D. Pedro ferrou-os, e deu-os aos cães.
Mas D. Pedro, quis reabilitar D. Inês. Mandou-a sentar no trono, e houve beija-mão real, (a mísera e mesquinha, que depois de morta foi rainha – como diz Camões) indo depois o cadáver de Coimbra para Alcobaça, entre alas de criados com brandões acesos, ocupar um dos túmulos. O outro esperou por D. Pedro, 12 anos. Estão dispostos de maneira que no dia do juízo final, ao levantarem-se, se vejam imediatamente, um ao outro.
Após a morte de D. Pedro, Diogo Lopes Pacheco regressou a Portugal. Casado com uma fidalga de Riba Vizela, acabou os seus dias na Quinta de Pias em Santa Eulália, no sopé de Santo Estêvão de Barrosas.
 

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Domingos Pedrosa

2019-07-18

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Vamos mostrar o retrato do grande navegador português, Fernão de Magalhães. Há algumas dúvidas, mas diz-se que nasceu na vila de Sabrosa, da comarca transmontana de Vila Real, em 1480. Muito moço, doze anos apenas, foi para Lisboa, para a corte, para pajem da Rainha D.Leonor. Atingida a idade de escudeiro, passou a servir D. Manuel, e, em 1505 partiu para a India na grande armada de D. Francisco de Almeida. Foi um herói na terrível batalha de Rumes, em que o velho vice-rei para vingar a morte do filho, destroçou completamente mais de cem barcos inimigos bem artilhados e equipados. Acompanhou D. Afonso de Albuquerque na segunda conquista de Goa e na tomada de Malaca, e foi decerto nas Molucas, que despertou em Fernão Magalhães a ideia de as alcançar pelo ocidente. Chegado a Lisboa, Magalhães alistou-se na expedição de Azamor, onde novamente mostrou o que valia. 
Voltando ao reino de 1514, pediu ao rei D. Manuel um aumento na sua moradia, atendendo aos serviços que prestara na India e em Marrocos, mas os inimigos de Magalhães já havia contado ao Rei que ele cometera irregularidades numa apreensão de gado, e D. Manuel ordenou-lhe que fosse a Azamor “para se livrar de justiças”. Magalhães assim fez, foi a Marrocos e obteve uma sentença que o ilibava das caluniosas acusações. Mas o Rei não lhe aumentou a moradia, e fez-lhe novamente aflorar ao seu espírito e ideia de atingir as Molucas pelo Ocidente. E começou a estudar essa viagem, vendo os mapas da Casa da India, falando com pilotos e cartógrafos que abundavam em Lisboa, bem ciente do que pretendia. Querendo ter a certeza da má vontade do Rei, solicitou-lhe uma audiência. D. Manuel recusou secamente a sua ambição, dizendo ao navegador que fizesse o que quisesse, quando este prometeu que ia apresentar o seu plano ao Rei de Castela. E nem a mão lhe deu a beijar. 
Em Sevilha deram grande importância ao plano de Magalhães, pois desse projeto podiam advir grandes benefícios para Castela, e Carlos I deu ordens para que tudo se aprontasse. Saiu a armada de Sevilha sob o comando de Magalhães que capitaneava a nau “Trindade”. Todos os outros barcos tinham espanhóis como capitães, que viam com mau grado navegador português. A armada depois das Canárias, passou junto à costa africana até Cabo-Verde, tomando depois rumo ao Brasil. Durante a travessia, um capitão espanhol que comandava um dos barcos, faltou proposi-tadamente ao respeito devido a Magalhães, e este mandou prendê-lo. Dias depois, rebentou uma grande tempestade, tão violenta que os barcos correram o risco de se desfazerem contra os recifes. Toda a marinhagem entrou em pânico e gritava que queria regressar a Espanha, mas a tempestade amainou e Magalhães mandou seguir viagem. 
Uns dias depois, estalou uma revolta, com mais de trinta homens armados, dos capitães espanhóis.  Os cabecilhas eram os capitães de duas naus, que noutra revolta mataram quem os comandava. Isto aconteceu numa baía, e Magalhães mandou que a “Trindade” e a “Santiago”, que lhe era fiel,  se colocassem ao lado uma da outra, para impedir a saída das naus revoltadas, e, fez-se a abordagem com Fernão Magalhães à frente. Os dois cabecilhas foram presos, e o castigo foi duro. Um foi decapitado e esquartejado, e outro  abandonado numa ilha deserta. 
A armada seguiu viagem, e 30 dias navegou com dificuldade entre estreitas gargantas e um labirinto de canais, num estreito de cem léguas, a quem a história deu, com justiça, o nome do seu descobridor. E começou a travessia do oceano nunca por ninguém navegado. O mar estava grosso, mas as terríveis tempestades do Atlântico, já os não perseguiam, e por isso, Magalhães deu-lhe o nome de Pacífico. A armada navegou sempre, e depois de ter cortado o Equador, não encontrou ilha onde pudesse fazer aguada e obter alimentos frescos. Foi horrível a fome e a sede. Encontraram ao cabo de noventa dias as ilhas Marianas, dos ladrões, como lhe chamou Magalhães, por os indígenas roubarem tudo que encontravam à mão. Depois mudou o nome para Filipinas, como homenagem ao futuro D. Filipe II de Espanha. E grande foi o prazer de Magalhães quando poucos dias depois chegou a Cebu, próximo das Molucas. Tinha descoberto o caminho para a India, pelo Ocidente, o que Colombo não conseguira. 
Fernão Magalhães morreu heroicamente às mãos de uma multidão de selvagens de uma ilha situada além do que era preciso para fechar completamente o círculo. Ficou realizada a primeira viagem à volta da terra, quando a armada chegou a Espanha, vindo pelo Cabo da Boa Esperança.
 

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Domingos Pedrosa

2019-07-25

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A história não relata só façanhas de heróis, fala-nos também de traidores, de fracos, de bandoleiros como foi “Zé do Telhado”. Vamos por isso mostrar o retrato deste célebre bandoleiro que repartia o quinhão dos seus assaltos, por aqueles que menos tinham.  Nasceu em Telhado, freguesia de Castelões, Penafiel. Filho de outro quadrilheiro, cedo se apercebeu que valia a pena ser ladrão. O pai bem tentou esconder o que fazia, mas o Zé, o Zé do Telhado não tinha dúvidas que era o desgraçado ofício (salteador) do pai, que sustentava fartamente toda a família. Muito jovem, quis casar com uma prima, mas o tio recusou-lha, alegando pretender casá-la com um lavrador abastado. Um dia, serei mais rico do que ele – respondeu ao tio. 
Desiludido, foi para Lisboa tendo assentado praça em Cavalaria 2, alcançando em curto espaço de tempo, as divisas de sargento, e na revolução de 1846, salvou a vida ao visconde Sá da Bandeira, recebendo por esse feito a Torre-Espada, que lhe foi colocada ao peito pelo marechal. O tio soube e deixou-o casar com a filha. Bem-recebido na sua terra natal, alguns anos não deu sinal de si. Mas um dia mostrou a sua valentia e esteve em perigo de vida por tentar defender o seu vizinho em Penafiel. Sozinho, lutou contra um grupo de elevado número de malfeitores. 
Depois da Convenção de Gramido, arrancou as divisas de sargento e regressou ao lar, onde já tinha cinco filhos. Vendo-se sem dinheiro e com tantas bocas a pedir pão, juntou-se a uma quadrilha que um seu irmão chefiava. Não tardou que a chefia lhe fosse concedida, estreando-se no crime com um assalto, pelo qual foi acusado e preso. 
Mas a quadrilha continuou o “seu trabalho”, chefiada por um celerado que não respeitava ninguém. Nem velhos, nem mulheres, nem crianças. Era o Zé-Pequeno, temido por toda a gente, até pelos aguazis, que não conseguiram “apanhá-lo”. Só o Zé do Telhado seria capaz. Facilitaram-lhe a fuga da cadeia, e poucos dias depois o Zé-Pequeno apareceu morto. Obra do Zé do Telhado, todos disseram. E foi. Para não voltar para a cadeia, fugiu para o Brasil. Todavia, passados dois anos voltou, para começar uma nova onda de assaltos. Foi novamente preso, julgado e condenado a degredo perpétuo.  Na cadeia da relação do Porto, Zé do Telhado conviveu com Camilo Castelo Branco, ali preso também. Nas “Memórias do Cárcere”, Camilo refere extensamente, e com evidente simpatia, Zé do Telhado, contribuindo muito para a lenda, que se criou à volta do Zé do Telhado, que foi, de certo modo, um protetor do genial escritor, quando ameaçado por outro recluso.  Camilo diz que, quando a mulher do Zé do Telhado o visitava e lhe levava cigarros, ou qualquer coisa de comer e de beber, que repartia por todos, e, para provar a nobreza de carácter do salteador, conta: Zé do Telhado sabia que certa noite, no solar de uma viscondessa, se ia fazer uma grande festa, que a fidalguia vizinha ia lá jantar e dançar. A meio da festa, Zé do Telhado e os seus homens entraram pelas janelas e, de pistolas aperradas, puseram a fidalguia em pânico, e aos gritos.  Zé do Telhado aproximou-se da viscondessa, que trazia ao peito um valioso colar de pérolas, e disse-lhe: - Preciso desse colar, só por uns dias. A minha sobrinha vai casar, e quero vê-la como uma noiva-fidalga. Daqui por uns dias, devolvo-lhe. E foi o que a quadrilha fez.  Passaram dias, semanas, meses, e o Zé do Telhado não apareceu, mas, na noite de outra festa, apareceu como da outra vez, e abeirando-se da viscondessa com o colar pendurado nas mãos, lastimou-se: - Faltam-lhe duas pérolas, corri todas as joalharias do Porto, e não encontrei iguais nem parecidas, o mais que posso fazer é pedir-lhe desculpa pelo atraso e pagar-lhas. Não, não é preciso – disse-lhe a viscondessa. Já faltavam quando o levou. 
 

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Domingos Pedrosa

2019-08-01

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Porque não o de uma rainha que foi santa? Era espanhola, e recebeu na Corte de Aragão, educação esmerada, entregando-se muito à prática de piedade. 
Quando tinha sete anos, tratou-se do contrato do seu casamento com o nosso rei D. Dinis e, por procuração, celebrou-se em Barcelona quando ela já tinha 14 anos, vindo depois para Portugal. Em Trancoso, onde a noiva-rainha foi recebida por D. Dinis e por quase toda a nobreza da Corte, realizou-se o casamento com festas como ainda não se tinha visto em Portugal. 
Naquela vila beirã, continuou D. Isabel – pois é a Rainha Santa Isabel que estamos a retratar – as suas práticas religiosas, dedicando-se à caridade para com os pobres e aos seus deveres de rainha. Chamava todos os famintos dos lugares vizinhos onde se encontrava a corte, fazia-os entrar sem o Rei ver, para a Residência Real, lavando-os e curando-lhes as chagas, depois de matar a fome a todos, despedia-os com brandura e com o mesmo recato da entrada, dando-lhes dinheiro. Foi por isso que a fama da sua caridade, da sua santidade, se difundiu entre o povo. 
Mas fez mais, logo que chegou a Portugal, tentou solucionar as discórdias entre D. Dinis e o seu irmão D. Afonso, e mostrou ter um coração de ouro: acolheu no Paço os filhos bastardos de D. Dinis. 
D. Isabel teve dois filhos: Afonso, que veio a suceder no trono com o nome de D. Afonso IV e Dona Constança que foi Rainha de Castela. 
Ao Infante D. Afonso, jovem  de temperamento bravio, irritava-o a predilecção que o pai manifestava pelo bastardo Afonso Sanches, mais velho do que ele dois anos e de considerável poderio dentro da Corte. Tão preterido se viu o jovem príncipe, que acusou o pai de pretender excluí-lo da sucessão do trono em favor do bastardo, chegando até, a urdir intrigas e a conspirar contra D. Dinis. Uma das intrigas foi pôr a correr o boato que D. Dinis pedira ao Papa que dispensasse a ilegitimidade do bastardo, para poder herdar a coroa. E estalou uma guerra aberta entre o príncipe D. Afonso e o pai D. Dinis. 
Foi D. Isabel que nos campos de Coimbra onde os dois exércitos se apresentavam para combater, que conseguiu evitar o embate. Primeiro, D. Isabel entrou no acampamento do Rei, que não quis atende-la, depois, no arraial das tropas do Infante, na tenda do filho, convenceu-o de que estava assegurada a sucessão do trono, na pessoa dele. D. Isabel conseguiu assim, aplacar a ira do filho e a paz. Firmou-se a concórdia com o juramento de D. Afonso ser para o futuro um filho respeitoso e súbdito fiel. 
Depois da morte de D. Dinis, D. Isabel retirou-se para o convento de Santa Clara de Coimbra reedificado por ela, construindo uma nova Igreja e um hospital para os pobres. 
Quis professar, mas contentou-se com levar a vida religiosa sem obrigação de votos. O seu túmulo, conforme determinou em testamento, esteve muitos anos na Igreja do Convento de Santa Clara, mas as areias e águas do Mondego, quase o soterraram e, só trezentos e tal anos depois, o corpo da Rainha foi trasladado para um rico cofre de prata e cristal, ficando numa capela provisória por não estar ainda concluída a Igreja do Mosteiro. A instância do Rei D. Manuel I, foi D. Isabel beatificada pelo Papa Leão X em 1576 e, em 1625, o Papa Urbano VIII, canonizou-a. 
Antes da sua canonização, já o povo lhe chamava de santa e espalhava lendas sobre milagres que teria feito. Assim, conta-se que um dia, quando levava o regaço cheio de pão e dinheiro para dar aos pobres, que D. Dinis lhe perguntou: Que levais no regaço? 
Rosas, são rosas senhor! E perfumadas rosas caíram do regaço da Rainha. Conta-se também, que tendo a Rainha mandado construir uma Igreja em Leiria, pagou uma vez aos operários, dando uma rosa a cada um, e que estas se transformaram em ouro. 
 

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Domingos Pedrosa

2019-08-22

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Marquês de Pombal é das mais destacadas figuras da nossa história. Um estadista de alta craveira, e por isso, merece que mostremos o seu retrato. A reconstrução de Lisboa, depois do terramoto de 1755, é, talvez, o que mais o celebrizou, mas também, ficou na história, como homem implacável, batendo o pé ao intocável poder religioso.
O famoso padre Malagrida que viera do Brasil em 1753, com grande fama de santo, fazia prédicas, que se interpretavam como ataques ao Marquês, como o de atribuir o terramoto a pecados dos homens e dos tempos, dando assim da catástrofe, uma explicação teológica-moral que contrariava a explicação porque aconteciam os abalos sísmicos, dadas pelo Marquês. Na roda dos fidalgos, apoiada pelo clero, os ódios manifestaram-se também contar o Marquês, acusando-o de tirano, e dizendo que o rei precisava de o mandar embora para se evitar a repetição de tamanho castigo.
E montou-se uma cabala para afastar Pombal, mas D. José acreditou no seu ministro e deu-lhe todos os poderes para se vingar. Dois frades cabecilhas, e alguns mais, foram degredados para Angola, me outros foram presos por longos anos, no Forte da Junqueira. Foi o primeiro aviso para os jesuítas e fidalgos.
A criação da Companhia dos Vinhos do Alto Douro, também não agradou a mercadores importantes nem aos ingleses. Ela impôs um procedimento leal a todos, garantindo a genuinidade do vinho e sustentando os preços a um nível conveniente. Quebrou ainda o monopólio do comércio de exportação que toda a gente, nacional ou estrangeira, pudesse fazer parte da Companhia, os seus presidentes e directores deveriam ser portugueses.
Até os jesuítas foram contra a Companhia, dizendo que os seus vinhos não serviam para o “sacrifício da missa”. O Marquês, que não perdoava aos jesuítas, sentiu a “bicada”, e, mandou publicar no Brasil uma lei que dava liberdade aos Ameríndios, e extinguia as missões. Os jesuítas de Lisboa protestaram, e um, que era o confessor do rei, tentou falar com ele sobre o assunto. D. José recusou ouvi-lo e ordenou que fossem despedidos todos os padres do Paço, os confessores da família real, que eram todos jesuítas.
Episódio horrendo ordenado por Pombal, foi a execução dos Távoras, considerados culpados do atentado de a D. José, quando regressava da casa da amante, que era mulher de um deles. No julgamento, um Távora confessou que actuara para “limpar a honra”, mas depois disse que a ideia lhe fora dada por padres jesuítas. Chegado o dia da execução, D. Leonor foi a primeira, que foi degolada. Seguiram-se os filhos: quebraram-lhe os ossos a maço e garrotaram-nos. Depois o pai, o Marquês de Távora. Mostraram-lhe os cadáveres da mulher e dos filhos, e na aspa, esmigalharam-lhe os ossos antes de o estrangular para lhe prolongar a agonia. A outros, queimaram-nos vivos, untados de breu e enxofre. Por fim chagaram fogo ao cadafalso, e tudo ficou em cinzas que lançaram no Tejo. Pelo que dizia respeito à fidalguia, estavam satisfeitos todos os ódios do Marquês; faltava-lhe agora, saldar as contas com os jesuítas, faltava-lhe desmascarar a hipocrisia e desterrar o fanatismo.  Dias depois foi pedida a Roma licença para julgar os réus jesuítas acusados de “terribilidades”, agora com o sacrilégio do atentado ao rei. O Papa recusou, e Pombal expulsou o Núncio e os jesuítas de Portugal. Todavia, nem todos. Muitos, a quem se atribuíam culpas, ficaram presos, porque o Marquês queria vê-los no cadafalso, por os considerar criminosos.
E ao Malagrida, arranjou meio de o acusar. Pombal, ele próprio, foi delator de Malagrida no Santo Oficio, por práticas contra a fé. Bastou-lhe uma biografia do anticristo escrita pelo padre, na masmorra onde esteve preso.
O auto de fé realizou-se, e foi uma festa que durou das sete da manhã às quatro da madrugada seguinte. Tal como mandara fazer a muitos, Malagrida foi queimado vivo, e as suas cinzas espalhadas ao vento.


Muito, mas muito mais ficou por dizer de Marquês do Pombal, mas não se esqueçam que este retrato foi à La Minuta.

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Domingos Pedrosa

2019-09-26

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Mostramos hoje, o do Infante D. Henrique, um dos maiores vultos da nossa história, dos mais insignes. Não foi rei, mas foi cognominado o “Infante de Sagres”. Nasceu no Porto, e foi o quinto filho dos oito legítimos de D. João I. Menos intelectual que os seus irmãos mais velhos, recebeu uma séria formação religiosa e moral que o fazia jejuar a miúdo, a usar cilícios, e, parece, que andou a vida toda com uma relíquia sagrada pendurada ao pescoço, que a mãe lhe dera em criança. E, embriagado de catolicismo, dizia: O trabalho dos homens deve ser ao “serviço do Senhor Deus”, para que receba o galardão da glória, na outra vida. Nunca casou, desdenhando sempre os galanteios das damas, o que por isso, “a terra o comeu virgem”, quando sepultado temporariamente na Igreja de Santa Maria de Lagos.
Por ter sempre o desejo de fazer guerra aos infiéis e de converter pagãos, nasceu-lhe a ideia da conquista de Ceuta – diz a história. E a ideia entusiasmou tanto o pai, e os irmãos, que logo se preparou a armada. Ao Infante D. Henrique, coube organizar na sua terra natal, uma frota com gente das comarcas do Norte, e a D. Pedro em Lisboa, outra com gente do Sul.
Reunidas as duas, frente ao Restelo, dali partiram, e, após muitos contratempos na viagem, chegaram por fim, à terra dos sarracenos. Era arriscado o assalto e houve hesitações, mas o querer dilatar a fé, deu ânimo a D. João, e decidiu-se atacar Ceuta. D. Henrique entrou de roldão pela Porta de Almina à frente da sua gente que combatera valorosamente até ao outro dia, forçando os mouros a abandonar o castelo e, depois a cidade. Era domingo, e D. Henrique na Mesquita Maior, sagrada igreja, fez celebrar uma missa solene e Te-Deum.
Dois sinos que uns anos antes tinham sido roubados de uma igreja do Algarve por corsários árabes, e que foram lá encontrados, foram pendurados por ordem de D. Henrique, no minarete da mesquita. Repicaram todo o dia para dar mais solenidade ao feito dos portugueses. A festa só terminou, quando D. Henrique foi armado cavaleiro pelo próprio pai, por D. João I.
Dias depois, a alegria do regresso. Empossado por D. João I, ficou D. Pedro de Meneses a governar Ceuta, e o rei veio para Lisboa com parte da armada, já que D. Henrique exigiu que ficasse uma frota à vista de Ceuta, para sua defesa. Ficou, mas uma grande tempestade, arrastou-a até às Canárias, o que lembrou a D. Henrique mandar caravelas para além delas. Tinha começado a “grande empresa dos Descobrimentos”. Ninguém até então tinha conhecimento de terras além do Cabo Bojador, mas D. Henrique mandou que o dobrassem, que navegassem sempre com a costa à vista – daí, chamar-se hoje bombordo ao lado esquerdo dos navios, e estibordo ao direito.
Depois, D. Henrique escolheu Sagres para se “isolar do convívio da gente”, para melhor se dedicar à sua obra e dar impulso à série gloriosa dos Descobrimentos. Mandou fazer “cartas de marear”, e fundou lá, uma Escola Náutica, reunindo mestres astrólogos que formaram pilotos para tentarem descobrir “novos mundos”. Foi em Sagres que Gil Eanes mostrou provas ao Infante, de ter dobrado o Cabo Bojador, e de Sagres, partiram Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira, para colonizarem Madeira e Porto Santo.
Antes de cessar a sua actividade, o Infante encomendara ao erudito cartógrafo italiano Fra Mauro, de Veneza, o célebre mapa-mundo onde os Descobrimentos portugueses estão consignados, e, antes de morrer, viu que o Papa Pio II, aprovara a construção da Igreja de Santa Maria de Belém, que ele ordenara no Restelo.
D. Henrique morreu no Cabo – Sagres e foi sepultado na Igreja de Santa Maria de Lagos, como disse já, mas, foi depois solenemente trasladado para o Mosteiro da Batalha, onde repousa, junto dos irmãos. É ali que a ínclita geração, dorme o sono eterno.

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Domingos Pedrosa

2019-10-10

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O de Camilo Castelo Branco, tinha que ser mostrado. Grande romancista, ocupa brilhantemente lugar entre os primeiros da península, como disse Ramalho Ortigão. Cedo manifestou o seu talento e as suas paixões, casando quando não tinha ainda 16 anos, com uma aldeã de Friúme, Ribeira-De-Pena, que depressa esqueceu. Outras paixões se seguiram até que encontro a “mulher fatal”, que tinha 25 anos. Foi ela, Ana Plácido, então noiva do abastado comerciante Pinheiro Alves, com quem veio a casar. Por causa de Camilo, que não desistiu da sua paixão, abandonou Ana Plácido o lar conjugal, o que determinou a prisão de ambos na cadeia da Relação do Porto, donde saíram absolvidos alguns meses depois.
Depois da morte de Pinheiro Alves, foram eles viver para S. Miguel de Seide, para a casa que lhe pertencia. Não tardou o martírio da desilusão, do aborrecimento, a que depois se juntou a tristeza de ter um filho louco e outro estroina, as dificuldades financeiras, a falta de vista, a impossibilidade de escrever, as mais cruéis dores físicas e morais, a cegueira, e, com a certeza e desesperança em qualquer melhoria, suicidou-se com um tiro no ouvido direito.
Camilo estudou medicina, ficou aprovado no primeiro ano, mas perdeu o segundo por faltas. Foi depois para Coimbra com a intenção de se formar em Direito, mas não chegou a entrar na universidade. Depois matriculou-se no Seminário Episcopal do Porto, perdendo o ano por faltas. Voltou a matricular-se no ano seguinte, requerendo ao Bispo que o admitisse a exame, e, como ficou aprovado, requereu que lhe fossem dadas ordens menores. Não recebeu ordens e não quis saber mais do sacerdócio.
Aos 25 anos aparece no Porto, começando a sua carreira de escritor, dando novo género ao romance, ao instituir o romance passional. A sua observância atenta ao falar do Povo, tornam-no um dos maiores mestres da nossa língua, já que a sua linguagem é inconfundível, é “camiliana”.
De vastíssima cultura, foi o nosso maior polígrafo do Século XIX: romancista, polemista, dramaturgo, poeta, biógrafo, bibliógrafo, crítico, cronista, investigador, historiador, jornalista, tradutor. Escreveu sermões por encomenda, e ele mesmo se evidenciou como orador, mas, acima de tudo, foi novelista satírico.
Só ouvi Mário Soares menosprezar Camilo. Disse que os seus livros eram bons para se ler quando se está com gripe. Ao ouvi-lo, pensei: Aí se ele fosse vivo! Ouvi-as das boas e das bonitas. Se calhar só leu a “queda de um Anjo”, e ficou melindrado.
Em alguns dos seus romances, Camilo fala da nossa terra, fala das animadas quadras balneares e do seu convívio com outros que aqui veraneavam, que aqui procuravam alívio para as suas moléstias, como nos conta nos “Gracejos que Matam”, a primeira “Novela do Minho”.  E, pelo que conta, vê-se que naquele tempo tudo era agradável em Vizela. Nos dias quentes, eram as passeatas sob fragrantes ramalheiras, onde os melros assobiavam ao amanhecer e os rouxinóis trinavam à noitinha. Eram os concertos escutados no silêncio do entardecer, e, eram à noite, os divertidos bailes e as alegres ceias, nos salões e salas dos hotéis, onze ou doze.
E noutro romance – só para se imaginar o que Vizela era – um morgado rico diz à noiva mais ou menos isto: Já programei as nossas núpcias. Vamos a Paris, vimos por Madrid e acabamos a lua-de-mel em Vizela. Vai ser a parte mais doce, verás.
Camilo, que nasceu em Lisboa, está sepultado no Porto, no cemitério da Lapa, e um jornal de 05 de junho de 1890 relata assim o seu funeral: muito povo anónimo e alguns amigos íntimos, acorreram ontem ao cemitério da Lapa para renderem a última homenagem ao insigne escritor Sr. Camilo Castelo Branco que procurou a morte num acto extremo de desespero. Notou-se que nenhuma personalidade de relevo da vida cultural e literária da cidade esteve presente. A preceder esta vergonha, houve no dia anterior, uma não menos inglória recepção ao corpo, que chegou ao Porto num furgão de mercadorias, sem tochas, sem pano negro, nem cortejo, atravessou a cidade perante a indiferença geral.

 

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Domingos Pedrosa

2019-10-17

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Vamos mostrar os dos dois alcaides do Castelo de Faria. O de Nuno Gonçalves, e do seu filho Gonçalo Nunes. O Castelo de Faria ficava a breve distância de Barcelos, e era um castelo real da idade média, cuja origem se some nas trevas do tempo, como diz a história, e que nos conta mais isto: Nuno Gonçalves, era Alcaide-Mor, quando reinava em Portugal D. Fernando I, um rei que degenerara dos seus antepassados em valor e prudência. Fez a paz com castela, comprometendo-se casar com a filha do rei castelhano, mas, não se importou do compromisso, e acabou por casar com D. Leonor Teles, o que foi uma afronta para a princesa.
O pai resolveu tomar vingança e entrou em Portugal com um grosso exército, matando e saqueando tudo, até às imediações de Barcelos. Um tio do nosso rei, com a gente que pode juntar, saiu-lhe ao caminho, mas a pequena hoste logo foi desbaratada, ficando alguns prisioneiros.    
Um deles, era Nuno Gonçalves. Cativo, o valoroso alcaide pensava em como salvaria o castelo de el rei, seu senhor, das mãos dos castelhanos. Governava-o em sua ausência o seu filho, e era de crer que, vendo o pai preso, desse o castelo para o libertar. Estas considerações sugeriram ao alcaide, um ardil. Pediu aos castelhanos que o levassem até ao castelo, porque ele queria pedir ao filho que o entregasse sem derramamento de sangue. Levaram-no julgando que iam tomar posse do castelo, a troco do cativo alcaide, e, encosta acima, os besteiros castelhanos levaram no meio deles, o valente Nuno Gonçalves aos empurrões.
Já próximo do muro do castelo, um arauto adiantou-se e, quebrando um silêncio profundo, bradou: Moço alcaide, moço alcaide! Teu pai, cativo, deseja falar contigo.
- Dizei-lhe que o espero, respondeu-lhe o filho do velho alcaide.
E vergado pelo peso dos grilhões, o velho alcaide foi arrastado até ao muro do castelo. Ao ver o filho no alto da muralha, gritou-lhe: Sabes tu, meu filho, de quem é esse castelo que entreguei à tua guarda?
- É, respondeu o filho, do nosso rei e senhor D. Fernando de Portugal.
- Sabes tu, meu filho, que o dever de um alcaide é de nunca entregar o seu castelo ao inimigo, embora fique enterrado debaixo das ruínas dele?
- Sei, meu pai, mas não vês que a tua morte é certa. Se não o entregar a conselho teu?
- Pois se sabeis, cumpre o teu dever, alcaide. Maldito por mim, sepultado sejas tu, no inferno, na hora em que os que me cercam entrarem nesses castelo, sem tropeçarem no teu cadáver.
Morra – gritou o almocadém castelhano, morra o que nos enganou – e Nuno Gonçalves caiu no chão atravessado por lanças e espadas.
- Defende-te alcaide! Foram as últimas palavras que murmurou.
O jovem alcaide corria como louco na barbacã, clamando vingança. Uma nuvem de flechas partiu do alto das muralhas, e o sangue de muitos castelhanos, ensopou o chão com o do leal Nuno Gonçalves.
Depois, os castelhanos acometeram o castelo, mas a bravura do jovem alcaide foi tão grande, que os castelhanos, constrangidos, levantaram o cerco, e partiram, deixando um rasto de desolação.
Nos ouvidos de Gonçalo Nunes, ficou a resura, o último grito do pai moribundo, e consciente de ter cumprido o seu dever de alcaide, pediu ao rei que o desonrasse. Trocou o saio de cavaleiro pelas vestes pacíficas do sacerdócio, para com lágrimas e preces, agradecer a seu pai, o ter coberto de eterna glória, os nomes dos dois alcaides do Castelo de Faria.  

 

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Domingos Pedrosa

2019-10-24

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Tenho dois ou três amigos (já tive muitos, mas vi-os desaparecer um a um, na “curva da longa estrada” que percorro) que a cada passo me telefonam para falarmos dos artigos meus, que vão lendo neste jornal. Há dias, um disse-me para não me esquecer de mostrar “retratos da longa noite fascista que Portugal dormiu”, (isto são palavras dele) falou-me de Catarina Eufémia, de Arístedes de Sousa Mendes, e lembrou-me um caricato retrato de legião portuguesa que há 80 anos, muito falado foi.
Em 1945, com o fim da segunda guerra mundial, o nazismo de Hitler e o fascismo de Mussolini, desapareceram da Alemanha e da Itália, que despertaram para viver em democracia. Portugal e Espanha continuavam mergulhados no obscurantismo, amordaçados por Salazar e Franco, e pelos seus sequazes, como era o tenente Carrajola, matador de Catarina Eufémia. O regime salazarista tinha três “molossos vigilantes”. Dois, eram terríveis, medonhos: a impiedosa e feroz PIDE, e a GNR com a sua brutalidade sem limites. O outro, dava para rir: a legião portuguesa cujos membros eram “bufos” da PIDE e a quem o povo chamava “piolhos verdes” por usarem farda esverdeada e serem “arrebanhados” na classe social quase indigente.
Tirando os “comandantes e chefes” que usavam botas de cano para melhor se parecerem com os “SS” de Hitler, toda a “arraia miucianizada” calçava o que tinha: sapatos de lona ou de cabedal pretos, castanhos ou brancos, botas de orelhas ou chancas... e aos domingos, à falta de melhor roupa, muitos iam à missa fardados. E escandalizavam quem os via na igreja, com o bivaque enterrado até às orelhas.
Aí por 1940, numa concentração em Braga de todas as divisões da legião do distrito, viu-se na parada legionários a rodar à esquerda, à ordem de rodar à direita, e no desfile, as espingardas – muitas sem baioneta – iam no ombro que calhava. A marchar, uns avançavam a perna direita, enquanto outros a esquerda.
Eram muitos os convidados de honra sentados numa tribuna improvisada, que assistia à cerimónia: autoridades religiosas, militares, e todos os presidentes das câmaras do distrito, acompanhados pelas esposas. A abrir as solenidades, falou o governador civil do distrito, homem pouco letrado, mas salazarista – tinha que ser – dos pés à cabeça, que começou, como era costume: Portugueses, quem manda? Salazar, Salazar, Salazar, respondeu o poviléu e dignitários, e, ao fechar o discurso, novamente perguntou: Portugueses, quem viva? E a turra, voltou a ulurar: Salazar, Salazar, Salazar.
O discurso que lhe escreveram, numa passagem dizia: o legionário aprumado, deve abster-se de vinho, (ele bem sabia quem ia ouvir o orador) mas o governador, disse que todo o legionário, se deve “abastecer” de vinho. E alguém lhe deu ouvidos, como vamos ver neste bocado que falta mostrar do retrato que o meu amigo me lembrou há dias pelo telefone.
No fim das solenidades legionárias, o rancho folclórico do Dr. Gonçalo Sampaio de Braga, pôs muita gente a dançar no terreiro, o “vira” e o “malhão” e, um legionário com uma bebedeira “de caixão à cova”, também quis dançar. Ao chegar à tribuna, onde estava muita gente ainda, parou, e, com as pernas bem abertas para melhor se equilibrar, disse à pessoa sentada à sua frente: vamos dançar?
- Não, respondeu-lhe a pessoa um tanto incomodada.
- Porquê? Perguntou o bêbedo, a abanar para trás e para a frente.
- Olhe, por três razões. Primeiro, porque você está mais bêbedo do que os sinos da torre da sua freguesia, quando tocam a defunto. Segundo, porque não sei dançar, e terceiro, porque eu sou o arcebispo aqui da diocese.
- Ai é? Então bote-me a sua bênção!

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Domingos Pedrosa

2019-10-31

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A Padeira de Aljubarrota, cujo nome de baptismo é Brites de Almeida, é uma heroína celebrada pelo povo. Os historiadores dizem que se trata de uma lenda, mas lenda ou não, o que se conta dela e chegou até nós, merece este retrato.
 Nascida em Faro, em 1350, de pais pobres e de condição humilde, donos de uma pequena taberna. Conta-se que desde pequena era diferente, corpulenta, ossuda e feia, de nariz adunco, bem curvo, e um bigode, de ralos pêlos pretos sombreava-lhe os cantos da boca. Ao sorrir mostrava uns dentes grandes, quase castanhos, a fazer lembrar um ouriço arreganhado. O cabelo era crespo e eriçado e os homens olhavam para ela de esguelha, com medo de que ela não gostasse. Estaria então talhada para ser uma mulher destemida, valente e, de certo modo, desordeira.
Teria 6 dedos em cada mão, o que teria alegrado os pais, pois julgaram ter em casa uma grande trabalhadora. Contudo, isso não aconteceu, tendo até amargurado a vida deles, que faleceram precocemente. Aos 26 anos ela estaria já órfã, facto que não a afligiu muito.
Resolveu levar uma vida errante, tendo vendido os parcos haveres herdados, e foi negociar de feira em feira, vivendo muitas aventuras.
Primeira, a morte de um pretendente quando lhe passou pela garganta o fio de uma navalha, depois, a fuga para Espanha num pequeno barco, assaltado por piratas argelinos que a venderam como escrava a um senhor poderoso da Mauritânia.
Fugiu e teve uma vida pouco virtuosa e confusa, até se fixar em Aljubarrota, onde se tornaria dona de uma padaria e tomaria um rumo mais honesto de vida, casando com um lavrador da zona.
Encontrava-se ela em Aljubarrota quando se deu a batalha entre portugueses e castelhanos, que derrotados e espavoridos, fugiram do campo da batalha para se esconderem onde quer que fosse. Encontraram abrigo na casa de Brites, que estava vazia por ela ter ido envolver-se nas escaramuças que ocorriam, aqui e ali, com os castelhanos que desnorteados fugiam por todos os lados, matando à mocada os que mãos erguidas e ajoelhados pediam misericórdia.
Quando a Padeira voltou, tendo encontrado a porta fechada, logo desconfiou da presença de castelhanos e entrou á procura deles. Aos berros mostrou-lhes a ferrelha que tinha nas manápulas, mandou-os sair e render-se e vendo que não respondiam, fingindo dormir ou não entender, com a pá de ferro matou-os a todos, cozendo-os de seguida, juntamente com o pão com chouriço.
Diz-se também, que depois da cozedura, a padeira reuniu um grupo de mulheres e constituiu uma espécie de milícia, que perseguiu castelhanos, sem dó nem piedade.
Verdadeira ou não, esta é a história que se conta da Padeira de Aljubarrota e com alguns memoriais. Há um monumento a Brites de Almeida com a sua pá, há um artístico mural em azulejos e o brasão da freguesia de Prazeres de Aljubarrota que tem a pá de Brites de Almeida.

 

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Domingos Pedrosa

2019-11-07

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Hoje são de dois poetas. Um foi padre, e virou costas à religião, outro viveu sempre de costas voltadas para ela, e no fim da vida, pediu perdão. O primeiro, que se chamava Francisco Manuel, passou a chamar-se Filinto Elísio, dado que pertencia a uma sociedade literária – grupo da Ribeira das Naus – cujos membros adaptavam nomes simbólicos. De origens humildes, o pai era pescador e a mãe peixeira.
Aos vinte anos foi ordenado padre, e influenciado pelo arcadismo e pelo iluminismo, as suas ideias liberais levaram a que fosse denunciado à inquisição em 1778, por outro padre que o acusou de “afirmações e leituras heréticas proibidas”. Disfarçado de vendedor, conseguiu fugir e exilar-se em Paris. Na capital francesa conheceu, entre outros, o poeta Lamartine. Teve vida difícil, vivendo do trabalho de traduções, sendo as suas poesias lá publicadas e em Lisboa só depois da sua morte, só depois dos seus restos mortais terem sido trasladados para o cemitério do alto de S. João.
A sua influência deu forma directa no pré-romantismo sobre autores como Almeida Garrett. Tal influência teve a denominação de “filintismo”, sendo autor único nos clássicos, pois dava relevo ao maravilhoso e até mesmo ao fantástico. Filinto Elísio tinha simpatia pelas ideias de Rousseau, pelas ideias da revolução francesa, e a queda da Bastilha trouxe-lhe sentimentos positivos, fazendo-o esquecer os resquícios de rancor contra a inquisição, que o obrigou a deixar a pátria.
Antes de fugir para a França, Filinto Elísio que já estava de costas voltadas para a igreja, esteve escondido na casa de um compadre muito pobre, com filhos escanzelados, com olhos tristes e remelosos. O bispo soube, e foi visitá-lo. Conversou com ele tentando trazê-lo novamente para o seio da igreja. Lembrou-lhe os ensinamentos e os sofrimentos de Jesus, e mostrou-lhe um crucifixo com um Cristo toscamente esculpido em madeira e canivete. Filinto fixou o cristo demoradamente, e disse: Quando teus olhos divinos / fitam meus olhos mortais... O bispo regozijou julgando tê-lo trazido de volta, mas Filinto que se tinha calado, recitou novamente: Quando teus olhos divinos / fitam meus olhos mortais / faz-me lembrar os meninos /do meu compadre Morais.
O segundo retrato é do Bocage. Nasceu em Setúbal em 1765, e foi poeta e ícone do movimento literário, arcadismo lusitano. Teve uma infância infeliz e uma juventude mais infeliz ainda. Aos 21 anos foi para a Índia onde ficou colocado em Damão mas desertou, fugindo para Macau.
Regressado à pátria, foi preso, acusado pela inquisição, escrevendo e traduzindo na cadeia, poetas franceses e latinos. Posto em liberdade, começa o período da sua maior produção literária, sendo também o de maior boémia e vida de aventuras, escrevendo ferozes sátiras contra a religião e religiosos. Acusado de “desordenado de costumes”, esteve novamente preso no limoeiro e depois no calabouço da inquisição. Durante a sua detenção, Bocage mudou o seu comportamento e começou a escrever seriamente. Morreu aos 40 anos, deixando dois admiráveis pomtas de contrição:

CONTRIÇÃO E ARREPENDIMENTO
Meu ser evaporei na lida insana
Do tropel de paixões que me agitava.
Ah! Cego eu cria; ah, mísero eu sonhava
Em mim quase imortal a essência humana!

De que inúmeros sóis a mente ufana
Existência falaz me não não dourava!
Mas eis sucumbe natureza escrava
Ao mal, que a vida em sua origem dana.
Prazeres, sócios meus e meus tiranos,
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos.

Deus, ó Deus!... Quando a morte a luz me roube,
Ganhe um momento o que perderam anos:
Saiba morrer o que viver soube!

DITADO NA AGONIA

Já Bocage não sou!... à cova escura
Meu estro vai parar, desfeito em vento...
Eu aos céus ultragei! O meu tormento
Leve me torne sempre a terra dura;

Conheço agora já quão vá figura,
Em prosa e verso fez meu louco intento:
Musa!... Tivera algum
wmerecimento
Se um raio da razão seguisse pura.

Eu me arrependo;
a língua quase fria
Brade em alto pregão à mocidade,
Que atrás do som fantástico corria:

Outro Aretino fui...a santidade
Manchei!...Oh!
Se me creste, gente impia,
Rasga meus versos,
crê na eternidade!