Quem sabe as andanças para criar o nosso concelho?

Domingos Pedrosa

2019-04-18

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… que vizelenses fizeram parte do Movimento e quais os políticos a quem “batemos à porta”? Vou contar, e, mesmo sabendo que me vou esquecer de alguns políticos, vou referi-los para terem uma ideia do número de “portas que batemos”.
Antes, quero explicar como entrei para a política, porque fiz parte do Movimento.
Após o 25 de Abril houve saneamento de todos os Presidentes de Câmaras e de Juntas de Freguesias, como sabemos e, foram nomeados novos, com total acordo dos Partidos sediados em cada concelho ou freguesia. Como os Presidentes das Câmaras só empossavam os Presidentes de Juntas se estes tivessem “agriment” unânime dos Partidos, em S. João onde havia quase todos, foi difícil. Cada Partido apresentou o seu “candidato”, mas nenhum foi aceite.
O já nomeado Presidente da Câmara de Guimarães que era o Dr. José Augusto, jovem advogado das Taipas que era um conhecido meu (muitas vezes tinha vindo “reforçar” – porque cantava bem – o grupo coral de S. Miguel, a convite do Monsenhor, em cerimónias de maior magnificência, quando seminarista em Braga) ao ver esta rejeição total, perguntou se me conheciam, e todos aceitaram o meu nome. Renato de Sousa foi o tesoureiro, e Artur Martins, o secretário. Dois bons vizelenses, dois bons amigos. Um já nos deixou, mas ao outro que há muito não vejo, desejo-lhe muita saúde.
Logo que iniciamos funções, fomos convidados por Manuel Campelos a fazermos parte do M.R.C.V., onde lutei anos e anos e algumas vezes chorei de raiva ao ver sorrisos provocantes nos corredores da Assembleia da República, nos dias de votação e “chumbos”, do nosso projecto. O maior provocador foi Ângelo Correia. Nunca desisti, lutei sempre por um futuro risonho para a nossa Terra e para o nosso povo. Foi para isso, que o M.R.C.V. correu “Seca e Meca” a bater às portas dos políticos: Deputados, Secretários e Presidentes de Partidos e da Assembleia da República, Ministros, (o M.R.C.V. já existia antes do 25 de Abril e chegou a falar com três Ministros de Salazar: Baltazar Rebelo de Sousa – pai do actual Presidente da República – Moreira Baptista e Gonçalves Rapazote) e militares de alta patente. A todos o M.R.C.V. mostrou a justeza da nossa causa. Falamos com Agostinho Domingues, Carlos Lage, António Barreto, Marques Mendes, Raúl Rego, José Manuel Mendes, Governador Civil de Braga (residente em Famalicão), Reitor da Universidade de Coimbra, Duarte Lima, Pina Moura, Jorge Miranda, Álvaro Cunhal, Mário Soares, Freitas do Amaral, Gonçalo Ribeiro Telles, Cavaco Silva, Eurico de Melo, Jaime Gama, Fernando Vale, Barbosa de Melo, Almeida Santos, Ramalho Eanes, Spínola … mas todas as tentativas “esbarravam e morriam” na forte “muralha política” de Guimarães: Freitas do Amaral, Cavaco Silva, Eurico de Melo. Três “marionetes” obedientes aos cordelinhos de Guimarães. Três grandes inimigos nossos. Mas também ganhamos amigos, muitos, como os “pesos pesados” do CDS quando numa das suas jornadas em Aveiro, lhe expusemos as nossas razões. Ali, Manuel Campelos foi brilhante.
O M.R.C.V. nunca baixou os braços, suportou decepções, lutou anos contra o poderio político de Guimarães sem esmorecer, porque sabia que a cobardia política, um dia, teria fim. E teve. Teve quando a heroicidade do nosso povo comandado pela “Pesada”, disse aos políticos e ao país que se estava a cometer um erro, que o “caso Vizela” estava a desacreditar, a denegrir a classe política. Guterres ouviu, Guterres, homem íntegro, compassivo e de elevada craveira filantrópica ouviu, e decidiu: Vizela tem que ver o seu concelho criado, e deu ordens para elaborarem o projecto – os “arquitectos” foram Jorge Coelho, Francisco Assis e António Braga.
António Braga era nosso amigo desde a primeira hora, mas tínhamos mais, e um que Vizela não pode esquecer nunca, é o Dr. António Moniz. Só ele vi na Assembleia da República de gravata com as cores e o brasão da nossa bandeira e, quando deputado do PPM, muito pugnou pela nossa terra. (“bateu o pé” a Freitas do Amaral). Obrigado pelo seu “vizelismo”, Dr. António Moniz.
As ordens de Guterres foram executadas no “segredo dos Deuses”, já que era sabido que Guimarães tinha olhos e ouvidos em todos os lados, mas um dia, num dos constantes contactos que o Movimento tinha com António Braga, ele disse-nos que tinha novidades, boas novidades, e, quando Manuel Campelos, António Ferreira, Lopes Vaz e eu, entramos no seu gabinete da Câmara de Braga onde ele era Vereador da Cultura, confidenciou-nos: O PS tem o projecto do vosso concelho pronto, mas há um senão, nunca o agendará, terá que ser outro Partido a fazê-lo. Temos o PCP, disse Manuel Campelos. Não, não queremos o PCP, respondeu António Braga. Todos percebemos ser tarraxa de Guimarães. Se o PS não agendava, se o PSD nunca o agendaria, se Freitas do Amaral “pesava” no CDS, (julgava Guimarães) e se não podia ser o PCP, quem agendaria?
Determinados, no dia seguinte fomos os quatro à Assembleia da República e encontramos num dos corredores, Manuel Monteiro (outro amigo a quem Vizela deve gratidão eterna, como deve ao Partido Socialista, ao Partido Comunista, a Natália Correia, Joaquim Raposo, Sanches Osório, Major Tomé e Manuel Alegre que por duas vezes, desobedecendo ao Partido, votou favoravelmente Vizela) e Maria José Nogueira Pinto que nos convidaram a entrar no gabinete do CDS. Ali, inteirados da nossa pretensão, logo disseram: Agendamos, contem connosco, mas temos que ter certezas, garantia do sim do PS. Mas nós tratamos disso, nós falamos com o Dr. Assis.
Entretanto o Dr. Francisco Ferreira tentava chegar à “fala” com o Dr. Assis, e “descobriu” que ele era cunhado de um filho do senhor Flávio Faria, que fez a apresentação. Foi de capital importância este conhecimento, uma alavanca (uma das tais andanças para criar o nosso concelho). Todos os fins-de-semana o Dr. Francisco Ferreira foi a Amarante a casa do Dr. Assis, e muitas vezes o acompanhei. Ficávamos contentes quando nos dizia que tudo corria às mil maravilhas e que pouco faltava para o grande dia, mas uma vez, disse-nos: Guimarães já começou o seu costumado trabalho de sapa, já se sentem pressões do seu poderoso “triunvirato”. E ficamos preocupados.
Com medo de mais uma desilusão, com o espectro de novo malogro a pairar, pedimos ao Dr. Assis para Jorge Coelho nos receber e, na sede do PS em Lisboa, Jorge Coelho garantiu-nos que Vizela não sofreria mais, que dentro de poucos dias ia ver o seu concelho criado. Transbordei de contentamento porque pela primeira vez, senti o refrigério e o sabor da vitória. Vi chegado o fim de uma luta que durou anos, de uma luta desigual, sem tréguas, quase épica.
Houve ainda aquele “chumbo” porque o PS tinha prometido a Guimarães que só votaria o concelho de Vizela, depois das Autárquicas. Passadas, o PS cumpriu o prometido a Vizela, sem deixar de satisfazer todas as exigências ardilosas, de Guimarães.
Esta é a história, (sem falar na correspondência trocada. Estão centenas de ofícios à disposição, na “Fundação Jorge Antunes”) sucinta, nua e crua da nossa luta, e não queria morrer sem deixar este testemunho, sofrido e vivido por mim. Seis companheiros do Movimento já partiram: Salvador Caeiro Vaz, Zézé Ferreira, Abel Pinto, Renato de Sousa, Domingos Vaz Pinheiro, Manuel Campelos, mas ainda estamos vivos, catorze: o senhor Baptista de S. Paio, o senhor Rocha, (cunhado do Comandante Américo) Carlos Teixeira, Daniel Ribeiro, Joaquim Ferreira, Dr. Eugénio Silva, Artur Martins, Comandante Américo, Francisco Ribeiro, Belmiro Martins, Joaquim Lopes Vaz, Dr. Francisco Ferreira, António Ferreira. Mencionei todos estes nomes, para os perpetuar, para constar nos anais da nossa Vizela, merecem. Igual merecimento têm os “Homens da “Pesada””, mas, lamento não saber o nome de todos, que me desculpem.
Um abraço amigo, gostei de voltar a escrever para vocês.

P.S: Tenho pena, muita pena do busto de Manuel Campelos não estar bem conseguido. Aquele não é o meu saudoso amigo e companheiro de luta, de muitos anos.