O Castelo da Ponte: a redenção desejada ou a renovação da mentira?

Eugénio Silva

2017-09-14

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Foi apresentado, no pretérito dia 8, o Programa Eleitoral do Partido Socialista. Este documento, definido pelo contributo de heterogéneos saberes, compõe-se de nove Eixos fundamentais para o desenvolvimento do nosso concelho. É sabido que os programas políticos e as promessas eleitorais só podem ser credíveis se quem os enunciam também o for. Nestas premissas sustenta-se o Programa do PS, pensado no rigor, seriedade, transparência e viabilidade, em total coerência e harmonia com os princípios sempre exigidos por quem o veio a divulgar: João Ilídio Costa, o candidato do Partido Socialista à Câmara Municipal de Vizela
Das inúmeras propostas contidas no eixo referente à CULTURA, PATRIMÓNIO E TURISMO, predominam várias medidas destinadas à recuperação a conservação e divulgação do nosso património edificado, destacando-se o Castelo da Ponte. 
Sobre esta questão, será de relembrar que, em 1905, na sequência do primeiro pedido de emancipação administrativa do século XX, foi imposto a Vizela a construção de um edifício que servisse de Paços do Concelho, condição imprescindível para se viabilizar a criação do concelho. Edificado a mando do ilustre vizelense, o dr. Armindo de Freitas Ribeiro de Faria, teve conclusão em 1906. O venerável imóvel, atualmente propriedade municipal, foi preterido no destino para o qual foi concebido - Edifício Sede do Município de Vizela - em função da preferência pela construção de raiz duma sede municipal. Esta opção pela construção de um gigantesco edifício, no Forum Vizela, tomada pelo executivo municipal sob presidência do dr. Francisco Ferreira, acabou a traduzir-se num colossal “elefante branco”, com graves implicações repercutidas no presente e condicionantes do próprio futuro. 
Relativamente ao centenário edifício, o PS apenas promete “Estudar a viabilidade da recuperação do Castelo da Ponte procurar soluções que a concretize” no futuro próximo. Esta promessa do PS, aparentemente tímida, merecerá anúncio público das verdadeiras intenções para a necessária requalificação do edifício, quando e só quando detiver o poder anunciado e um estudo sério e rigoroso que contemple, entre muitas outras questões de política cultural: as finalidades, recursos, estratégias, atores e seus interlocutores principais; o modelo de governança; e as fontes de financiamento, níveis de despesa e projeção de indicadores de resultados (económicos e culturais) a alcançar. Será um estudo disciplinado e rigoroso, permitindo uma opção consciente, destinada a devolver-lhe a dignidade e a importância histórica como símbolo da vontade de uma terra e do seu povo que, desde o Liberalismo até 1998, pugnou pelo seu desenvolvimento e independência administrativa.
Pelo contrário, as propostas até agora anunciadas para o imóvel pela candidatura adversária do Movimento Vizela Sempre (MVS), apontam para a criação de um “Centro Empresarial no Castelo da Ponte”. As muitas dúvidas que este projeto suscita, radicam na ligeireza (ou inexistência) de qualquer estudo efetuado. Deste modo: quantas start-ups, escritórios ou showrooms pretendem instalar numa área bruta de 7 458 m2? Quantos espaços de restauração para alugar? Sem pretender limitar a livre concorrência, não está Vizela bem servida na área da Restauração? O que pretendem fazer com a parcela sobrante? Qual o valor a despender na requalificação do imóvel? Ou, quais as fontes de financiamento?
Esta promessa eleitoral, agora apresentada pelo MVS, revela, também, uma tendência megalómana, fazendo-nos recordar a triste e conhecida história devotada ao edifício. Oxalá que todos nos venhamos a enganar, pois Vizela não pode repetir os erros do passado. Contudo, será útil relembrar, foi no seu ultimo mandato que o dr. Francisco Ferreira, hoje destacado apoiante do MVS, anunciou, com aparato e minúcia, a instalação duma Biblioteca e dum Auditório no Castelo da Ponte. Este ambicioso projeto, que implicava um elevado orçamento de milhões de euros, revelou-se num monumental embuste, tendo sido despudoradamente abandonado, ditado, refira-se, pelo já claro endividamento municipal de então. Foi este recuo a ditar o início do inexorável processo de degradação do secular edifício até aos nossos dias