Na nossa terra havia bons hábitos e locais bonitos

Domingos Pedrosa

2018-04-12

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…Vamos falar um pouco das duas coisas. Isto vem a propósito de um livro que um velho amigo me emprestou, e que recentemente li. Não serei assim tão velho! – Estará ele a pensar se nos estiver a ler – E não és, mas é a nossa amizade. Vem dos tempos da nossa adolescência quando em Vizela se começava cedo a dar passos nos “caminhos culturais”, como era o de emprestar livros e revistas uns aos outros. Os livros iam-se buscar à biblioteca itinerante que por cá passava periodicamente, ou, então, eram das bibliotecas do senhor Abade de S. Miguel, (foi desta que lemos toda a obra de Camilo, Júlio Dinis, Eça, Júlio Verne…) do senhor Manuel Faria e do senhor Alves da farmácia, que muitos livros emprestavam.
Havia ainda o “Mosquito”, revista juvenil de banda desenhada que quase todos os jovens liam. Era uma revista que, além de nos empolgar com as aventuras do “Cuto” e do “Capitão Meia-Noite”, complementava os ensinamentos da 3ª e da 4ª classe ao oferecer gravuras dos navegadores, heróis e santos da nossa história, e as de todos os nossos reis com os respectivos cognomes e anos dos seus reinados. Bem sabemos que, nos tempos de hoje, tudo isto seria de somenos importância, mas não fazia mal nenhum aos nossos jovens saber quem foi o nosso primeiro Rei, conhecer a trágica história de Inês de Castro, saber por que razão Lisboa ergueu a estátua do Marquês de Pombal. Saber quem foi Pedro Nunes, Egas Moniz ou Gago Coutinho. O cinema era outra via cultural, e lembramo-nos dos jovens se encontrarem sempre mais ou menos nos mesmos lugares dos compridos bancos do geral (era o mais barato). Era ali que o soalho quase rachava quando a fita rebentava. O sapateado era forte e fazia um barulho dos diabos quando o operador reatava o filme um pedaço mais à frente. E “berrava-se”: Banana ladrão! (Banana era a alcunha do empresário que explorava o Cine-Parque).
E havia ainda outro “caminho cultural”: A música. Mais para ganhar algum, muitos jovens aprendiam solfejo ou a tocar qualquer instrumento. Depois, uns, faziam parte do coro sacro de S. Miguel, (chegámos a ir a Coimbra cantar um “Te Deum” aquando da investidura de um novo reitor) e cantavam missas solenes nas festividades religiosas. Outros, incorporavam-se na banda que nas mesmas festividades, fechava as procissões que levavam no andor o santo padroeiro a dar o seu passeio anual  pelos tortuosos caminhos das freguesias.
Mas vamos falar do livro que o meu amigo me emprestou. Intitula-se “Bandas de Música, na história da música em Portugal”. É um livro interessante para os amantes da música. Relata o nascimento das Bandas civis nas primeiras décadas do século XIX, que logo proliferaram por todo o país, desde a mais pequena aldeia à mais conhecida vila ou grande cidade. É o Romantismo do século XIX que impulsiona o movimento filarmónico e que faz aparecer nos jardins públicos e Termas, graciosos coretos feitos de ferro e de latão. No nosso Parque ainda resiste um à incúria de insensíveis responsáveis. Velhinho, abandonado, lá “grita” a lembrar a belle-epoque que Vizela viveu. Segundo o autor do livro, que também é Pedro Marques como o nosso amigo que escreveu “Testemunhos Biográficos” do nosso genial Chicória, (genial, pouco sociável e teimoso. Certa vez, numa discussão com o padre de S. Miguel – que era um excelente professor de Música – teimou que um sol com dois bemóis não é igual a um fá natural. Parece que o homem tinha razão, e zangaram-se), existem em Portugal cerca de 600 Bandas, o que ilustra o carinho por elas e o gosto do nosso povo pela música. E diz na sua resenha sobre Bandas e compositores, esta verdade que muitos nos orgulha e dignifica a nossa terra: “Joaquim da Costa Chicória, foi o compositor mais interpretado, até meados do século XX. Antes de transcrevermos o que o livro diz de Joaquim da Costa Chicória, vamos só lembrar um acontecimento que poucos vizelenses devem conhecer. Não há muitos anos, nos funerais em Paris de três militares franceses mortos numa missão da ONU, foram tocadas por bandas militares, três marchas fúnebres: A de Choupin, a de Beethoven (2º andamento da “Eróica”), e a de Joaquim da Costa Chicória “Descanse em Paz”. Ao ouvi-la, alguns vizelenses emigrantes que assistiam às cerimónias, choraram, e os franceses julgando-os condoídos pela morte dos três militares, abraçaram-nos agradecidos. O meu irmão Adão foi o mais abraçado, porque foi o que mais chorou. Talvez por ter sido bombeiro e muitas vezes ter ouvido aquela tristíssima música nos funerais que acompanhou.
E agora o que diz o livro: “Joaquim da Costa Chicória, (1874-1951) natural de Vizela, teve a profissão de alfaiate, mas foi depois regente de bandas filarmónicas. Viveu em Vizela, Lousada, Paredes, Freamunde, Penafiel, Felgueiras e Bragança, mas foi na Lameira, no Rio Vizela, no Parque e no Jardim desta localidade (Vizela) que encontrou a inspiração para as suas principais obras – Marchas e Raposódias. Sempre que havia “combates” (disputa entre Bandas) a Banda do Chicória era o terror das concorrentes. Intitulado “Rei das Marchas”, foi autor da célebre marcha (passo dobrado) “No Jardim” e inspirado no Parque e no Rio, compôs a peça “Os Murmúrios de Vizela”. Autor de outras obras como o “Filarmónico” (rapsódia), “Fado Freamundense” (passo dobrado), “Artur Santos” (marcha), “O Vizela” (passo dobrado) e “Bombeiro Voluntário” (marcha) 467, “Descanse em Paz” (marcha fúnebre), “Jesus de Nazareth” (marcha grave) “Suplicação” (marca grave) 468, “Sobre as Ondas” (valsa) e “Despedida” (marcha de concerto) 469. Acerca de “combates”, muitos se lembrarão ainda de um em Lustosa (1945) entre a Banda Velha (do Chicória) e a Nova. A rivalidade era muita, tanta como a bordoada que começou lá, e que acabou na Rua Dr. Abílio Torres. 
E para terminar, só mais isto: “Dizendo o autor do livro que Joaquim da Costa Chicória se inspirou no Jardim de Vizela, tudo leva a crer que seria o que alindava (era o único) a frontaria do Balneário Termal. Era um dos tais locais bonitos que a nossa terra tinha. Figurava em todas as colecções de postais pela beleza arquitectónica da fachada do Balneário e dos artísticos canteiros franjados a relva. É quase certo aqueles belos e variegados roseirais, terem inspirado Joaquim da Costa Chicória a compor parte da sua melodiosa música. Mas hoje aquele local é aberrante e monstruoso. Nenhum vizelense gosta do disparate que alí está. Não gosta porque aquilo é obra saída das mãos e da imaginação de pinta-monos, que vai lá ficar para sempre a acusá-los. A eles, a quem autorizou tal absurdo e aos vizelenses pela sua inércia, por não se terem “levantado” para impedir tamanho asselvajamento.