Fez o mal e a Caramunha

Domingos Pedrosa

2017-03-16

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“Quinta-feira e outros dias”, é o título do livro que Cavaco Silva lançou recentemente, livro polémico a roçar a insolência. Trata-se de uma pretensa, “prestação de contas aos portugueses”, bem escusada. Escusada, porque não passa de um baixo ajuste de contas. “Aquilo” é muito mais que conversas semanais, com o primeiro-ministro da altura: José Sócrates. “Aquilo”, é um lamentável manifesto social-democrata, um ressentido discurso público anti esquerdas de um ex-Presidente da República ressabiado, que não conseguiu despir a camisola laranja, e quer agora fazer oposição ao Governo, já que o seu partido não a faz credível. Vale tudo.

Os portugueses jamais esquecerão Cavaco Silva, mas, pela negativa. Pelo seu amuado convívio com o Governo, pelo seu feitio austero, distante, altivo, carrancudo, sem qualquer afabilidade para com as massas populares, pela sua voluntária clausura. Refugiado no Palácio de Belém, comunicava ao país, somente por via oficial, e num português aristocrático, próximo do incompreensível/enigmático.  Marcelo Rebelo de Sousa (nem parece do mesmo partido!) é o oposto. Pode não possuir os mesmos conhecimentos financeiros e as mesmas relações diplomáticas de Cavaco Silva, mas já demonstrou a sua classe, a sua simpatia e interesse em ouvir e falar com os portugueses. Desde a sua tomada de posse, tem percorrido o país para melhor saber as preocupações do povo, seja da classe mais humilde ou de elevados rendimentos, doentes, presos e idosos, procurando aproximá-lo do sistema político. E já disse que não escreve livro de memórias, que irá inteirando os portugueses.

Cavaco Silva preocupou-se mais com as grandes personalidades do mundo (de preferência com as que falavam bem inglês) que conheceu nos vinte anos da sua vida política activa, mas nenhuma delas se lembrará mais dele, a não ser pela negativa como os portugueses. Para todos, foi uma grande decepção. Nem antes nem depois, nenhum primeiro-ministro teve a “sorte” de Cavaco Silva: uma confortável maioria, paz social, muito tempo e dinheiro a rodos vindo da Europa. Fosse ele um estadista, já que conhecimentos das nossas necessidades devia ter – tinha a obrigação de ter – e aproveitaria bem as circunstâncias para inverter o nosso triste fado. Em vez disso, lançou as raízes do défice e da dívida pública, e ganhou uns amigos, finórios, que encheram sacos e sacos: Dias Loureiro, Oliveira e Costa, Duarte Lima…

 Cavaco Silva foi Presidente da República dez turbulentos anos, e conta no seu livro coisas, julgando que os portugueses são parvos, coisas que nada o dignificam. Só um homem de desmedidos ressentimentos, faz o que ele fez: ataca um homem já de baixo de todos os fogos, como atacou os seus adversários que já não podiam defender-se, no seu discurso de vitória quando foi reeleito. Gestos pouco próprios de um intelectual, e muito menos de um Presidente da República.

Mas o livro diz mais coisas. Diz que é uma calúnia vinda da candidatura de Manuel Alegre, a “história” de como ele e a filha ganharam 150% em dois anos com ações do BPN que não estavam cotadas em bolsa (coisa que foi pública e nunca desmentida). Geria o banco, o fiel e dedicado amigo Oliveira e Costa, ainda a contas com a justiça. Mas o descaro maior, é este: a célebre “conspiração das escutas” de Sócrates a Belém, foi ao contrário, foi uma tramoia engendrada pelo assessor de imprensa de Cavaco Silva e um jornalista do “Público”. É de se ficar de boca aberta. Por fim, quem estava presente no lançamento do livro? Leonor Beleza, que não podia faltar, e o que resta da sua fação fiel no PSD sem os que estão a contas com a justiça. Mais ninguém. Nem vultos da cultura, nem da política, ninguém do empresariado e das universidades. Foi o acontecimento que melhor nos disse como é pequeno o mundo de Cavaco Silva, e como é verdade os portugueses estarem fartos dele, como é verdade que saiu de Belém com uma taxa de rejeição de 80% dos portugueses. Abrenúncio, disseram uns, vade-retro, dizem hoje, quase todos.