Eutanásia, ou licença para matar?

Domingos Pedrosa

2018-06-07

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Um Estado não deve matar nem permitir a morte dos seus cidadãos, mesmo quando estes a desejam. O Estado, quando uma pessoa lhe pede a morte, não deve dar-lhe uma injecção letal, deve abraçá-la, oferecer-lhe cuidados que suavizem a sua dor, que a anime a viver. O tema Eutanásia que há dias se discutiu e foi chumbado no Parlamento, foi colocado ao contrário. A questão não era alguém desejar morrer, era alguém ter que matar, que seriam os médicos, que juraram tudo fazer para salvar vidas.
Desta vez não passou, mas, tarde ou cedo, voltará ao Parlamento para ser discutida outra vez. O PAN que já fala na proibição da “Eutanásia” para os animais, é a favor da Eutanásia para as pessoas, e não desarma. Alguém percebe isto? Diviniza a vida dos animais, ao mesmo tempo que dessacraliza a vida humana? Os políticos deviam saber que a diferença na vida de quem sofre, faz-se dando melhores condições para quem está de partida, não é, antecipando a chegada do fim. Ajudar alguém a morrer com dignidade, é ficar ao seu lado até ao fim natural. Ver partir em paz, também ajuda a deixar em paz quem fica. 
Há defensores do não à Eutanásia, que dizem que o sim seria lucrativo para o Estado que deixaria de pagar muitas pensões, para as agências funerárias, e até para quem ganha dinheiro no sufrágio das almas. E se olharmos bem para o que se está a passar actualmente na Holanda, podem ter razão. Um médico holandês que foi defensor da Eutanásia no seu país, é hoje profundamente crítico. Recomenda vivamente que não se deve ir por esse caminho. O caminho certo, é o tratamento da dor e de acolhimento aos doentes e às suas famílias para se garantir uma vida digna até ao final. Ele sabe que na Holanda, em 2003, se “eutanaziaram” 2000 pessoas, e que em 2017, subiu para 7000. Na Holanda, ser um peso para a família, é razão crescentemente invocada para pedir a morte. Assim, naquele país, “ eutanaziam-se” velhos com demência, e “ eutanaziam-se” raparigas com depressão. 
E Portugal quer isto? Certamente, não. Nós acreditamos na ténue possibilidade de se salvar, o que parece fatal. Há exemplos de erros e enganos na Justiça e na Medicina. Houve condenações à morte, execuções de presumíveis criminosos, que mais tarde se verificou que mataram inocentes, por erro da Justiça. Da mesma forma, a Medicina também se pode enganar nas previsões que faz sobre a evolução de uma doença, podendo levar à perda de uma vida humana, que poderia brilhar, como foi o caso, bem conhecido, de Stephen Hawking. 
Quando Stephen tinha 19 ou 20 anos, os médicos disseram-lhe que ele sofria de esclerose amiotrófica e vaticinaram que morreria dentro de dois anos. Nada faria supor que aquele jovem viria a ser um talentoso físico, e que viveria até aos 76 anos, porque a doença evoluiu muito mais lentamente do que se esperava, contrariando todas as expectativas clínicas. Esta doença incurável tem levado a que muitas pessoas com o mesmo diagnóstico, recorram à Eutanásia em países onde é legal. Stephen poderia ter feito o mesmo, mas preferiu ficar para lutar, e venceu. Surpreendentemente, até afirmou, que depois da doença se manifestar, desfrutou da vida, mais do que antes. 
Este exemplo, é uma das razões que não deixa a maioria dos países europeus legalizar a Eutanásia. Na Inglaterra já foi rejeitada duas vezes e, ainda recentemente, na Finlândia, desmentindo a afirmação, de que institucionar a Eutanásia, faz parte dos países mais desenvolvidos. 
E Portugal vai institucioná-la? Cremos que não. O Parlamento tem legitimidade, mas não tem que decidir sobre este tema apenas inscrito no programa eleitoral do PAN. O tema merece um amplo debate público e ser inscrito nos programas eleitorais dos vários partidos. Depois, sim, poderá ser votado no Parlamento.