Página inicial | Notícias | Local | Sócios fundadores no 36º aniversário do Callidas Club

Sócios fundadores no 36º aniversário do Callidas Club

Comentários (0 colocados): Ler comentários

.
image

Foi na última segunda-feira, dia 01, que o Callidas Club comemorou 36 anos de existência, isto porque só conseguiu que os seus Estatutos fossem aprovados e oficializar-se como associação em vésperas do 25 de Abril de 1974. Mas a festa tem lugar este sábado.

“Éramos incómodos”, garantem os “Callidas”. É assim que ainda hoje se tratam aqueles que se uniram em 1968 para quebrar as barreiras sociais existentes em Vizela. Passados 36 anos, não têm dúvidas de que “mais do que um clube o Callidas era uma forma de estar na vida”.  

Quim Zé Caldas é o sócio número um, mas diz tê-lo sido por acidente. “No Callidas não havia número um, nem dois, nem três. Éramos uma equipa”, garante o vizelense, frisando desde logo o que motivou à criação do Callidas. “Em Vizela, nos anos 70, havia muitas diferenças sociais. Os ricos tinham direito a tudo, os pobres não tinham direito a nada e os miseráveis comiam as migalhas dos pobres. O Callidas nasceu para combater estas barreiras e, por isso, era incómodo”, recorda, com orgulho, Quim Zé Caldas. Mas é ao observar o piano que se encontra hoje na Sala Emílio Caldas, e que faz parte das memórias do Casino Peninsular, que o seu coração se enche de emoção: “Foi uma conquista do Callidas. Deixou de pertencer a uma organização elitista para tocar para todas as famílias. Infelizmente, hoje não toca. As pessoas esquecem-se do seu valor, preferem colocar fotografias na parede”.

Ainda muito antes da Revolução dos Cravos, este grupo de vizelenses entregou no Governo Civil de Braga aqueles que seriam os Estatutos do Callidas Club, mas faltava-lhe um artigo, naquela altura, obrigatório – “Não são permitidas discussões de ordem política e religiosa”. Resultado? Os Estatutos foram reprovados, tendo o Callidas apenas conseguido o seu reconhecimento oficial já muito próximo do 25 de Abril. “Mas foram movimentos como o do Callidas por esse país fora que levaram à Revolução. Nós fizemos o nosso 25 de Abril em Vizela”, garante Quim Zé Caldas.

 

De uma garagem até ao Casino Peninsular

 

A primeira sede do Callidas era uma garagem, precisamente onde está hoje instalada a “Pop Park”, na Rua Dr. Abílio Torres. “Infelizmente, na altura, o tesoureiro fugiu e ficamos sem dinheiro para pagar a renda”, recorda o vizelense, suscitando vários sorrisos na sala. A uma semana do 36º aniversário, os “Callidas” juntaram-se para ultimar as comemorações e permitiram que o RVJornal participasse nesta partilha de memórias. E assim foi. Mesmo depois da artimanha do tesoureiro, acabaram por ficar na Rua Dr. Abílio Torres e num local privilegiado – no andar superior do Casino Peninsular. “Conseguimos que as pessoas se juntassem, dançassem e se esquecessem que o A tinha uma fábrica e o B era um “carrejão””, continua Quim Zé Caldas. Mas o Callidas acabaria por se instalar na Cruz Caída, em S. João, onde funcionava um bar por auto gestão. “Levávamos um bolo, mas se quiséssemos comer uma fatia tínhamos que a pagar. Primeiramente não havia empregado, nem havia muito controle, mas nunca faltava dinheiro. Sobrava sempre. Isto é que é incrível”, salienta o vizelense. E Carlos Alfredo Santos corrobora: “E nunca houve nenhum problema”.

Este foi o primeiro presidente do Callidas Club e garante que “tudo foi uma maravilha”. “Era capaz de ultrapassar algumas barreiras com “uma naturalidade dos diabos”. E à memória de Carlos Alfredo Santos logo surge uma história antiga: “Tínhamos um Festival de Música, mas não havia microfones. Quem os tinha era o padre Albano mas ninguém se atrevia a pedir-lhe. Como, naquela altura, e infelizmente, a Igreja era um bocado financiada por uma família que eu conhecia bem, eu nem lhe dei tempo para responder que sim. Tivemos os microfones que precisávamos”.

 

Antigo campo de jogos dava lugar a ringue de patinagem

 

Por tudo o que o Callidas significou na sua vida, Carlos Alfredo Santos diz ser uma honra ter sido o primeiro presidente do clube: “Nasci bem, mas sempre fui educado a lidar com toda gente. Isto era uma equipa. Eu não fiz nada, nós é que fizemos”. E aproveita para recordar “uma Secção de Hóquei em Patins fabulosa, mas com problemas financeiros tremendos, porque dava uma despesa maluca, mas também um Torneio de Futebol, organizado pelo Callidas, e que era famosíssimo na região”. “Mas depois o Hóquei em Patins, tal como o Minigolfe, passou para o FC Vizela. E onde está hoje o “Park Club” era o ringue de patinagem”, recorda. E Quim Zé Caldas acrescenta: “Treinei um equipa de patinagem artística e não sei sequer andar de patins. Era o desenrasque”.

Para Carlos Alfredo Santos, quem passou a mensagem “Callidas” a todo este grupo foi o Quim Zé Caldas (“velho mas não burro”, acrescentou o próprio) e muitos estão casados e devem-no ao Callidas”. “Mas, se calhar, alguns estão divorciados ou não se casaram e também o devem ao Callidas (risos na sala). Isto é verdade, porque se abriram mentalidades, mas era isso que se pretendia”, salienta Quim Zé Caldas.

Os anos passaram e agora Carlos Alfredo Santos considera que foi perdido muito tempo que hoje não será possível recuperar. “A uma certa altura, o Callidas passou a café”, diz o antigo presidente. Em desacordo está Quim Zé Caldas: “É muito mais do que um café, porque se não o fosse, não estávamos aqui hoje”. “Mas aqui também não estão outros grandes homens do Callidas como Emílio Caldas (já falecido), os irmãos Faria, Silvino Pedrosa, Cândido Caldas, Horácio Vale, entre outros. Se não fosse Emílio Caldas, o Callidas tinha morrido”, assegura o vizelense. Mas hoje tem a certeza que o futuro de Vizela passará pelo Callidas: “Fiquei emocionado quando há poucos dias, enquanto almoçava num restaurante da cidade, vi três putos a falar do Callidas com um orgulho desmedido. Tinham ficado apurados para a meia-final de um torneio”.

 

Callidas contra concessão das Termas há mais de 30 anos

 

Como um verdadeiro “Callidas” ainda hoje sente que deve incomodar. Quim Zé Caldas garante que se “os poderes instituídos tivessem ouvido os Callidas, que eram vistos como sonhadores, utópicos e elitistas, não existiria o problema das Termas, nem o Parque de Jogos era uma discoteca”. “O Callidas queria tomar conta do Parque de Jogos, porque era quem o usava, e isso só não aconteceu devido a interesses ocultos. Já em relação às Termas, tomámos uma posição pública logo após o 25 de Abril, éramos contra a concessão, porque a água sulfurosa era do povo”, recorda. Mas Quim Zé Caldas vai mais longe ao defender a criação de uma Associação de Desenvolvimento Local em Vizela, com o Callidas como sócio fundador. “É preciso transformar a bodega desta terra numa adega a produzir vinho de qualidade”, remata o vizelense.

 

 

Armando Borges

“Na altura em que o Callidas foi criado não havia actividade social em Vizela. Apenas os encontros nos cafés entre meia dúzia de pessoas. Os vizelenses tinham que se deslocar para outras localidades ou sujeitar-se ao que a Igreja dava. No início, a população procurava o Callidas de forma um pouco envergonhada. Só depois começou a desabrochar. O 25 de Abril também permitiu que determinadas liberdades se expressassem mais abertamente”.

 

António Fernandes

“Recordo uma história engraçada que é a secção da Carta de Campismo, que o Fernando Faria conseguiu pôr a funcionar no Callidas. Vinham cá ter pessoas de toda a região, mas como não eram de Vizela, tinham de pagar um ano de cotas para ter a respectiva carta. E se o Quim Zé falou no piano, eu falarei nos matrecos. Naquela altura, já existiam tômbolas em Vizela e uma delas estava junto ao Hotel Universal, onde estava também uma “Callidas”, a Sãozinha Faria. Dizíamos-lhe que o matrecos seria para nós, mas ela dizia que não podia ser. E nós dissemos-lhe: Metes o papel ali dentro, quando tiveres só 50 rifas, nós comprámo-las. E assim foi. (Também tivemos um bilhar com um jardim por baixo, recorda Quim Zé Caldas). Nós não tínhamos dinheiro e, por isso, andámos também pelos cafés a pedir chávenas e garrafas de whisky. E comprámos uma máquina de café ao Ventura em segunda mão. Toda a gente colaborava e isso era muito importante”.

 

António Faria

“A minha mulher era jogadora de voleibol no Callidas e a minha vida também está marcada por esta associação. Sempre lutei pelo Callidas, principalmente, na área cultural e recreativa. Fomos o primeiro clube a passar filmes nas Escolas Primárias, onde também fizemos concursos de fotografia”.

 

José Caldas

“Estive ligado ao futebol, hóquei em patins e andebol. Era guarda-redes de futebol, mas como tinha um bom estatuto, era bem comportado, pensaram que seria um bom guarda-redes de hóquei. Joguei até aos 45 anos e ainda agora sou treinador no Estrela Vigorosa Sport, no Porto. Sou sportinguista ferrenho, mas o maior clube é o Callidas. E uma das coisas que, se calhar, ninguém sabe é que foi o Callidas que implementou o Serviço Cívico para os jovens entrarem para a Faculdade. Isso até deu na televisão”.

 

Fernando Faria

“Na área recreativa, fizemos centenas de eventos. Fomos os primeiros a realizar Passagens de Ano e Festas de Carnaval no Hotel Sul Americano. Fizemos uma discoteca no salão do antigo Café Alcatifa, que trabalhava nas noites de sábado e matinés de domingo [com luzes psicadélicas, lembra José Caldas] Foi aí que conheci a mulher com casei”.

 

Júlio César

“O Callidas participou, em representação do concelho de Guimarães, na primeira edição dos Jogos Sem Barreiras, que se fez em Portugal. E no Norte do país, devemos ter sido os primeiros a realizar um Festival de Patinagem, com mais de 200 patinadores [fizemos contrabando de patins, íamos buscá-los a Espanha, diz Quim Zé Caldas]. Tínhamos também o ténis de mesa, que depois foi para o FC Vizela.

O Callidas não era um clube, mas um centro de convívio fantástico. Quando veio da Cruz Caída para a actual sede todos pensaram que iria morrer, passando a ser o “Café da Feira dos Porcos”, mas penso que nunca morreu, precisamente, por ter vindo para aqui. A juventude que vivia aqui à volta começou a juntar-se no café e o bichinho do associativismo começou a interiorizar-se. Felizmente, o Callidas está vivo”.

 

“Tudo aquilo que demos recebemos em dobro”

 

Foi o Quim Zé Caldas e o Emílio Caldas que fizeram a ponte entre gerações. Em finais dos anos 80, um grupo de jovens, cansado de passar as tardes sentado nas escadas das antigas “Diversões”, decidiu, literalmente, deitar as mãos à obra e, reerguer fisicamente a sede do Callidas Club.

Uma história que nos é contada por José Pedro Monteiro, que hoje garante que ser “Callidas não é ser melhor, mas ser diferente”. O vizelense foi também presidente do Callidas, tal como José Manuel Guerra. “Mas só havia presidente porque os Estatutos assim o obrigavam e não foi preciso chamarmos ninguém. As portas estavam abertas e as pessoas vieram ao nosso encontro”, recorda o vizelense. Dificuldades? “Só nos fizeram mais fortes”, responde, reconhecendo, porém, que hoje é mais difícil motivar os jovens para trabalharem em prol dos outros. Há situações que são “off the record”, mas José Pedro Monteiro lembra apenas a “construção de uma esplanada à revelia de alguns”. “Entendíamos que aquilo que o poder determinava não era o melhor para todos. Mas o que mais guardo do Callidas são os amigos e a experiência de vida. Tudo aquilo que demos recebemos em dobro”, remata o jovem vizelense, que também diz ter casado no Callidas.

 

Curiosidades

- Os primeiros a promoverem o “Desporto para Todos”, com o Callidas a dar aulas nas escolas primárias e a realizar provas de atletismo abertas a todas as classes sociais.

- Foi o primeiro clube do distrito de Braga a ter mulheres a praticar desporto, uma equipa de voleibol e uma classe de patinagem.

- Autor da primeira Medalha que se fez em Vizela.

- Responsável na região pela concessão da Carta de Campismo.

- Concursos de fotografia e visionamento de filmes nas escolas

- Promoção de um Festival de Patinagem

- Participação na primeira edição dos Jogos Sem Barreiras

- Implementado o Serviço Cívico

 

Programa Festivo

14h01 – Recepção aos convidados e Exposição de Fotografia (Sala Emílio Caldas)

15h01 – Jogo de Voleibol Feminino (Pavilhão Municipal)

15h30 – Jogo de Andebol Feminino (Pavilhão Municipal)

16h00 às 17h30 – Jogos de Andebol Masculino (Pavilhão Municipal)

16h00 às 18h00 – Ténis de Mesa (Casa do Povo)

17h00 às 19h00 – Jogos de Hóquei em Patins (Pavilhão do CCD Santa Eulália)

15h30 às 17h00 – Jogo de Minigolfe

18h30 – Jogo Andebol Callidas vs FC Gaia Seniores Masculinos (Pavilhão Municipal)

20h31 – Jantar Convívio (Casa do Park)  

Comentários (0 colocados):

Coloque o seu comentário comment
Ao corpo redactorial desta página electrónica reserva-se o direito de eliminar ou editar os comentários recebidos, sem desvirtuar o seu conteúdo, sempre que os mesmos contenham acusações de carácter criminal, insultos, linguagem grosseira ou difamatória, violações da vida privada, incitações ao ódio ou à violência, que preconizem violações dos direitos humanos ou demonstrem fim publicitário.